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Valão, a língua esquecida da Bélgica

25/10/2015 06h06

José Miguel Vilar-Bou.

Bruxelas, 25 out (EFE).- Antes de francês e flamengo se tornarem idiomas na Bélgica, o valão era a língua mais falada no sul do país, mas hoje, usada por apenas 10% da população sulista, está a ponto de desaparecer.

"No início do século XX, as crianças eram punidas nas escolas por falarem valão, e tinham que aprender o francês parisiense", disse à Agência Efe Baptiste Frankinet, representante da Biblioteca dos Dialetos de Valônia.

"Antes se dizia que era um idioma de criados e que, se você quisesse ser alguém na vida, tinha que aprender francês", explicou o especialista de um idioma falado nas províncias do sul da Bélgica.

O esquecimento da língua evoluiu quando os pais deixaram de conversar com os filhos em valão, rompendo a transmissão secular entre gerações, fator fundamental para a sobrevivência de qualquer idioma.

Há um século, cerca de 80% da população sabiam o valão, hoje apenas 200 mil falam a língua, segundo estimativas da Biblioteca dos Dialetos de Valônia, já que não existem estudos precisos a respeito.

Os falantes da língua em tempos atuais são, na maioria, idosos e pessoas do campo, pois na zona rural, ao contrário das cidades, não houve "estigmatização cultural".

"Os jovens não aprendem o valão de seus pais, que desconhecem, e sim de seus avôs. O problema é que muitos o consideram inútil, e isso constitui um risco terrível para sua sobrevivência", comentou Frankinet, de 29 anos.

Cerca de 200 pessoas trabalham pela recuperação da língua: grupos de teatro, de música, escritores, há cursos particulares com centenas de alunos, e inclusive uma versão da Wikipédia em valão. No entanto, essas são iniciativas independentes, e a língua continua sendo pouco influente, analisou Frankinet.

A Biblioteca dos Dialetos de Valônia é atualmente o último santuário do patrimônio linguístico do sul da Bélgica. Em seu arquivo são conservados 35 mil livros em valão, 200 revistas - 15 continuam a ser publicadas nesta língua -, 500 documentos audiovisuais, e cartazes.

"Nosso primeiro objetivo é conservar tudo escrito em valão e em outros dialetos belgas", explicou Frankinet, "e o segundo, promovê-los", para as pessoas que organizam excursões de escolas e atividades infantis. O Museu da Vida Valonesa, do qual faz parte a biblioteca, tem 50 mil visitas anuais.

As origens do valão remetem à Idade Média, mas os estudiosos não sabem especificar o momento de seu nascimento porque durante séculos foi uma língua falada, sem escritos, então não há provas de sua antiguidade.

O francês se impôs em Valônia no século XVI. "Nobres e burgueses preferiam o francês porque era o que se falava na corte e o que, como consequência, poderia aproximá-los aos favores do rei da França", segundo Frankinet.

Desse modo, o valão foi rebaixado a "idioma das pessoas vulgares", e começou uma decadência de séculos. A língua se reergueu no século XIX com as ideias do romantismo, que promoviam a recuperação das tradições e da identidade nacional, e experimentou uma nova, embora breve, "idade de ouro".

O valão ficou muito popular no teatro, na poesia e inclusive na ópera, que em alguns casos teve grande sucesso "porque o público se reconhecia no diálogo dos personagens", relembrou o especialista.

Mas esse ressurgimento do idioma durou pouco. No começo do século XX, o valão desapareceu da vida pública e ficou restrito às zonas rurais. A pergunta agora é se existe um lugar para o valão no futuro.

"Espero que sim, porque, como acontece com todos os idiomas, com ele você se expressa de uma maneira única, do coração. Seria triste se desaparecesse", lamentou Frankinet.

Outros dialetos tradicionais da Bélgica também encaram a possibilidade de extinção daqui a poucas gerações: o champanhês, o picardo e o gaumês.

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