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Exposição em Paris resgata época em que prostituição era uma arte

27/09/2015 10h06

Enrique Rubio.

Paris, 27 set (EFE).- Além da sífilis, do absinto e de sua duvidosa reputação, houve um tempo em que os bordéis e as prostitutas eram fonte de inspiração aos artistas que superpovoavam Paris no século XIX, uma época que está refletiva em uma exposição no Museu d'Orsay.

Naquela época a prostituição se infiltrava por todos os poros da cidade e chegou a ser legalizada por ser considerada "um mal necessário para aplacar a brutalidade das paixões do homem".

Sobre esse tempo, o Museu d'Orsay - em parceria com o Museu Van Gogh de Amsterdã - lançou um olhar documentado e profundo na exposição "Esplendores e misérias. Imagens da prostituição 1850-1910".

É difícil pensar em um pintor dessa época gloriosa para a arte que não tivesse mirado em um momento ou em outro aquelas meretrizes, que podiam ser encontradas na rua ao sair para trabalhar, em um café diante de um copo de absinto ou em um bordel jogando cartas até chegar o próximo cliente.

Os muros da seleção do Orsay têm obras de Paul Cézanne, Édouard Manet, Edgar Degas, Vincent Van Gogh, Frantisek Kupka, Edvard Munch e Pablo Picasso.

E certamente, diante de todos, o nome que salta em qualquer viagem mental à Paris do fim do século XIX, do Moulin Rouge e do Folies Bergere: Henri de Toulouse-Lautrec.

As prostitutas de Toulouse-Lautrec, segundo lembraram os curadores da exposição, não são "femmes fatales" nem vítimas, mas mulheres com um ofício que muitas vezes combinam com outro de maior reputação durante o dia.

Por isso, tão rapidamente quanto desprendem melancolia à caminho de seu trabalho ("A esfinge"), como aborrecimento enquanto matam o tempo ("Au salon, le divan"), ou concentração para tentar obter algum dinheiro e assim saldar suas dívidas com a "madame" ("A partie de cartes").

Também não é estranho que alguma das obras do gênio anão ("Tête de prostituée") acabasse pendurada como decorações de um de seus bordéis favoritos, o da parisiense rua Amboise.

A prostituição era para aqueles artistas um laboratório em que buscavam um tema moderno por excelência e acesso a nudez feminina, explicaram os curadores.

Por isso, o Orsay reuniu a evolução histórica do ofício entre o Segundo Império e a Belle Époque, quando passou da regularização das chamadas "casas de tolerância" à progressiva proibição devido ao auge da prática.

Das núbiles dançarinas de Degas - muitas vezes expostas como mercadoria com objetivos inconfessáveis - às "aristocratas do vício", como a atriz Sarah Bernhardt, não é fácil desenhar as fronteiras da prostituição no século XIX.

A exuberante manifestação pictórica se funde com uma parte mais documental, com fotografias e filmes pornográficos onde é possível ver até um arcaico preservativo em seu envoltório.

Essa densa roupagem dá espaço a um par de salas escassamente iluminadas em que são projetados (proibida a entrada para menores de 18 anos) rudimentares filmes eróticos que deram o componente polêmico para uma exposição decididamente obscena.

Tão obscena quanto a luxuosa cadeira disposta para o sexo entre duas mulheres ao mesmo tempo que o rei britânico Eduardo VII procurou quando ainda era príncipe de Gales, na virada do século. Como os cartões de visita que anunciavam uma "Massagem higiênica. Novo método" de duas modalidades, russa ou sueca.

Ou como o anuário Reirum de 1890, que por 5,50 francos oferecia os endereços dos melhores bordéis de França, Tunísia e Argélia, além dos das principais cidades da Espanha e da Itália.

E ligada sempre a este comércio dos corpos, a temida sífilis também repercutiu no meio artístico, com fotografias que documentam seus estragos sobre os doentes da época.

"Prostituir significa literalmente se expor ao público, portanto não é surpreendente essa confluência entre os mundos da arte e da prostituição no século XIX e começo do XX", concluíram os curadores. EFE

er/cd/rsd

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