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Leonardo Padura, o escritor que sonhou com o beisebol e encontrou a caneta

05/07/2015 10h55

Alba Gil.

Paraty (Brasil), 5 jul (EFE).- Leonardo Padura contou que tinha um sonho. Sonhava em ser jogador de beisebol. E em seu sonho, o dos rapazes cubanos das décadas de 60 e 70, acabou deixando o taco e agarrando a caneta, trocando o estádio pelo estudo.

Desses tempos, que seu corpo não acompanhou, disse restar o fanatismo pelo Industriais de Havana - embora 'Os Leões da Capital' sejam um "desastre" ultimamente - e a filosofia de um jogo que diz se parecer muito à literatura.

"O beisebol é um esporte no qual, quando não está acontecendo nada, está acontecendo o mais importante, e na literatura muitas vezes acontece o mesmo", comparou em entrevista à Agência Efe o escritor durante a Festa Internacional Literária de Paraty (Flip), no litoral do Rio de Janeiro, que termina neste domingo.

Entrevistar Padura é se arriscar a obter as respostas de sempre, pelas mesmas dezenas que outros jornalistas perguntaram antes. Por isso, apenas há uma dúvida que o também repórter faria a si mesmo: "perguntaria se ainda há algo novo para perguntar".

Mas há, porque entre a crítica e a apologia, ninguém está satisfeito; todos querem que esse romancista nascido em Havana fale de política, embora seu ofício seja a caneta e ele prefira conversar de bola, cinema e literatura.

Padura diz que "o escritor tem que ser um questionador da realidade, e a literatura continua a ter um compromisso com a sociedade à qual pertence", em seu caso, uma Cuba que "assumiu as linguagens contemporâneas sem deixar de pertencer a uma tradição que se mantém viva".

"Não há dinheiro para fazer cinema, mas se faz cinema. Não há dinheiro para publicar livros, mas pessoas escrevem. Às vezes os pintores têm dificuldades para encontrar os materiais, mas não deixam de pintar", explicou.

Padura escreve para dar respostas a questões sociais, para "falar de um problema que tem conexão com a realidade que estamos vivendo", sobre um país em transformação que em breve verá ondear a bandeira americana, mas onde ainda há "muitas vidas que pararam no tempo".

Ele confessou que tem "um forte senso geracional, o dos poetas, dramaturgos e narradores" como Abilio Estévez, Víctor Rodríguez Núñez e Amir Vale, que devolveram "a vida à literatura, recuperando temas como o amor, a amizade e o medo da morte".

Aos 59 anos, escrever se transformou em uma "necessidade vital" que pratica pelas manhãs, quando se afasta de seus temores, e que o faz "sofrer muito" quando não encontra tempo para se dedicar: foram quatro anos para acabar 'Hereges' e cinco para 'O homem que amava os cachorros'.

Seu personagem mais conhecido é seu alter ego, criado em 1981 e publicado dez anos depois com o nome de Mario Conde, um irônico "policial que não quer sê-lo", cujo trabalho, como o de seu criador, "é parte de sua vida".

Mas de novo, as histórias não são só as de Conde, são também as da sociedade cubana, por cujo retrato foi reconhecido mês passado com o Prêmio Princesa das Astúrias das Letras.

O nome de Padura, jogador de beisebol frustrado, não estará, como disse seu compatriota Estévez, no Salão da Fama do Beisebol, mas seu legado permanecerá intacto sobre o papel em que deixou suas palavras.

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