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Sete espanhóis viajam a gulags soviéticos em busca do passado

31/05/2015 17h27

Astana, 31 mai (EFE).- Sete espanhóis chegaram ao Cazaquistão para se encontrar com seu passado, ancorado no centro do país, nas estepes de Qaraghandy, onde ficavam vários dos campos de trabalhos forçados de Stalin, conhecidos como os gulags soviéticos.

José María Bañuelos, de 84 anos, uma dos "crianças da guerra" que foi levado a Moscou, é o único sobrevivente dos campos de Qaraghandy que está em condições físicas para enfrentar uma longa viagem de avião e ônibus.

Bañuelos chegou neste domingo, junto com os demais viajantes, a Spassk, um dos campos onde foi confinado. Lá, ele assistiu à inauguração de uma placa em homenagem aos espanhóis que estiveram confinados nos gulags.

Os outros integrantes do grupo são filhos de divisionários, espanhóis que lutaram ao lado dos alemães na Segunda Guerra Mundial; descendentes das "crianças da guerra", historiadores e membros de fundações afins ao tema.

Todos, de forma alguma, querem recuperar suas raízes em um país onde cazaques e espanhóis compartilharam frio, crise de fome e outras necessidades sob o regime de Stalin.

José María Bañuelos se apoia em uma bengala para caminhar, mas seus passos são firmes e decididos. Viaja só "porque queria ver alguns amigos" que fez nos gulags ou se encontrar com seus descendentes", disse.

A peregrinação de Bañuelos começou aos nove anos. Viajou de Santurce (Bilbao) no navio "Havana" à França e posteriormente a Leningrado, atual São Petersburgo.

"Nos trataram bem, vivíamos nos chamados lares para crianças, que na realidade eram internatos. Nos deram uma educação e, durante a Segunda Guerra Mundial, apesar das necessidades, seguiram cuidando de nós", lembrou.

Bañuelos contou que a seca que a União Soviética sofreu em 1947 causou mais penúrias que a Segunda Guerra Mundial. "A necessidade fez com que roubasse um a roupa e 200 gramas de pão. Descobriram e fui condenado a oito anos de trabalhos forçados", comentou.

Ele trabalhou nos gulags próximos aos montes Urais, em uma mina de sal subterrânea. "Chegamos 3.000 presos. Na primavera, éramos 600. Foi aí onde conheci outros espanhóis, combatentes da Divisão Azul e pilotos espanhóis que tinham se formado na União Soviética, que por distintas razões estavam presos", disse.

Bañuelos percorreu os gulags que havia desde os Urais até Qaraghandy. "A cada seis meses os russos nos mudavam. Não queriam que fizéssemos amizades. Em Qaraghandy, estive duas vezes e conheci divisionários, republicanos, falangistas; todos nos dávamos bem, éramos espanhóis, nos uníamos para sobreviver, respeitávamos a ideologia do outro, embora nessas circunstâncias não fosse o mais importante", diz.

Inmaculada Rodríguez é filha de um membro da Divisão Azul; Elías e Ana Cepeda, autora de "Harina de otros costal", livro que narra a tentativa de fuga de seu pai da União Soviética, e Luis Montejano são filhos de crianças da guerra assim como Natash Ramos, que conheceu seu pai quando tinha 10 anos.

Javier Madrid é neto de Antonio Echurren, marinheiro do "Cabo Quilates", um navio de transporte de mercadorias cuja tripulação foi detida em 1941.

Echurren foi levado a vários gulags e morreu em Spassk. Seus restos mortais estão enterrados em uma vala comum junto com os de outros 4.000 prisioneiros.

Todos eles vieram por diferentes circunstâncias, mas com um denominador comum: se aproximar de seu passado, tentar compreender o horror e homenagear seus familiares na inauguração de uma placa.

Os visitantes foram recebidos hoje pelo embaixador da Espanha no Cazaquistão, Manuel Larrotcha, que contribuiu para que o desejo de visitar Qaraghandy se tornasse realidade.

O diretor-geral de arquivos do Cazaquistão, Marat Abcemeton, e a diretora de arquivos da região de Qaraghandy, Khanagul Tursinova, mostraram aos espanhóis os documentos onde constam os dados de 152 espanhóis que foram confinados nos gulags soviéticos.

Uma cópia das fichas, escritas em cirílico, com os dados dos familiares destes nove espanhóis e de Bañuelos também foi exibida.

Inmaculada Rodríguez, filha de um divisionário, ao ter a documentação em mãos, comentou: "trinta anos se passaram até que pude ter a foto de meu pai".

Ana Cepeda afirma que tem sensações encontradas: "é uma viagem ao interior, ao próprio passado e é doloroso, mas me alegro que tenha sido feito justiça".