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Antiguidades sírias pedem socorro em meio a ataques de jihadistas

23/05/2015 10h33

Susana Samhan.

Beirute, 23 mai (EFE).- A guerra, os saques e os ataques do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) levaram as antiguidades na Síria a uma situação catastrófica, como afirmam seus responsáveis, agora preocupados com o futuro do sítio arqueológico de Palmira em meio ao ataque dos radicais islâmicos.

"É um desastre", lamentou em entrevista à Agência Efe o diretor-geral de Arqueologia e Museus do país, Mamoun Abdelkarim, sobre estes mais de quatro anos de disputa, nos quais 750 sítios e monumentos foram danificados por todo o território.

São muitas as suas preocupações, mas, atualmente, o que tira seu sono é a tomada da cidade de Palmira, declarada patrimônio da humanidade pela Unesco, por conta do histórico dos jihadistas de destruir locais preservados na Síria e no Iraque.

Mesmo antes da invasão do EI, a monumental cidade sofreu saques e isso ocorre desde o início da guerra.

"Antes do ataque atual, houve, sobretudo, violações de tumbas. Recuperamos recentemente 120 peças antes que fossem tiradas ilegalmente da Síria", explicou Abdelkarim.

Junto a Palmira, elevada a patrimônio em 1980, os outros cinco locais do país na lista da Unesco são as Cidade Antiga de Damasco (1979), Cidade Antiga Bosra (1980), Cidade Antiga Aleppo (1986), o Crac des Chevaliers e Qal'at Salah El-Din (Fortaleza de Saladino) (2006) e as Antigas Aldeias do norte da Síria (2011).

De todos eles, o em pior estado é Aleppo, palco de combates desde julho de 2012. Neste local, 100 prédios tradicionais foram destruídos e mil lojas do mercado estão em ruínas.

"Aleppo é a mais afetada em toda a Síria. Se os combates continuarem por lá, em um ou dois anos, a destruição será total", previu.

De Homs a Deraa, passando por Idlib e Raqqa, o diretor considera que poucos pontos ficaram imunes à destruição. Para zelar pelo patrimônio, as autoridades sírias cooperam com a Unesco, organizações internacionais e outros governos, e, o mais importante, continuam pagando os salários de 2.500 funcionários do setor, inclusive nas áreas fora de seu controle.

Onde os funcionários não conseguem chegar, o governo tenta atuar com o Grupo de Trabalho para a Proteção do Patrimônio da Síria em Crise, dirigido pelo professor Amr Al Azm, da Universidade de Estado de Shawnee em Ohio, nos Estados Unidos.

Até o começo deste ano, a organização colaborava com o Executivo interino da oposição síria, mas por falta de fundos interromperam o trabalho, embora Al Azm ressalte que não recebiam nem recebem nenhum salário. O grupo dispõe de uma equipe de 70 pessoas, entre arqueólogos, estudiosos e ativistas dentro do país.

"Nosso trabalho se divide em duas áreas principais. A primeira é supervisionar. Temos equipes em diferentes regiões, a maioria fora do controle do regime, que vigiam qualquer violação ou saque. A outra linha é a das intervenções em pequena escala, como a realizada no Museu Metropolitano de Arter de Umm el-Marra, em Aleppo, com uma das maiores coleções dos séculos III e VI d.C. da época romana e bizantina", explicou o professor à Agência Efe em uma conversa através da internet.

Neste último tipo de trabalho, os voluntários reforçaram as tesselas dos mosaicos com cola e as cobriram, além de protegê-las com sacos de areia, contra possíveis ataques. Este tipo de ação é impossível de desenvolver nas regiões em poder do EI, onde o grupo se limita a documentar os danos.

Segundo dados oficiais sírios apenas em Raqqa e Deir al-Zour haveria quase uma centena de edifícios e sítios arqueológicos destruídos, como mesquitas, mausoléus, igrejas e antigos bazares. Contudo, os jihadistas não se limitam a devastar com fins propagandísticos, eles também se beneficiam da venda ilegal das antiguidades.

Al Azm lembra que, no meio do ano passado, os radicais exigiam um imposto para todos aqueles que quisessem escavar e extrair artefatos arqueológicos e, com o tempo, a técnica evoluiu.

"Criaram um escritório especial para administrá-lo (o saque), e agora tem sua própria rede de traficantes", disse o professor.

No momento, o ponto de mira do EI é Palmira, porque, "já que se trata de um local Patrimônio da Humanidade, o que for retirado dele é fácil de vender e, além disso, as coisas estão na superfície, não é necessário escavar", advertiu o historiador.