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China volta à prática maoísta de "reeducar" artistas no campo

03/12/2014 06h21

Antonio Broto.

Pequim, 3 dez (EFE).- Os artistas chineses terão que migrar para o campo ou para as minas para "conseguir inspiração", uma medida que traz resquícios da Revolução Cultural e integra a campanha do presidente, Xi Jinping, para que a arte "sirva ao socialismo".

Um comunicado da Administração de Imprensa, Publicações, Cinema, Rádio e Televisão decretou que os artistas chineses terão que passar "pelo menos um mês" em comunidades rurais ou em zonas de produção mineradora, como parte de uma campanha que parece ser dirigida a atores e diretores de televisão e cinema.

A iniciativa do governo, que também se encarrega de aplicar a censura audiovisual no país, também enviará equipes completas de filmagem a diferentes áreas rurais da China para que "convivam com as massas" e produzam cinco filmes e séries de televisão com temas sugeridos pelo governo.

Cerca de cem jornalistas, apresentadores e diretores de programas de televisão serão levados para trabalhar em regiões habitadas por minorias étnicas, fronteiras ou "áreas que contribuíram para a vitória na revolução".

A iniciativa não satisfez a comunidade artística nacional, que a considerou "uma notícia ruim" não só para eles, mas para o "povo", segundo um fotógrafo chinês consultado pela Agência Efe que preferiu não se identificar.

A ordem foi emitida dois meses depois que o presidente Xi ressaltou em discurso às elites culturais chinesas que estas devem mudar seu atual modo de trabalho, já que, segundo ele, estão muito obcecados em ganhar dinheiro.

Em discurso muito repercutido, o presidente afirmou que renomados escritores, artistas plásticos e audiovisuais não devem ser "escravos do mercado" e que seu trabalho não deve seguir "o cheiro do dinheiro".

O governo assinalou que as medidas, que podem ser aplicadas a longo prazo, "ajudarão os artistas a formar um correto ponto de vista na arte e encontrarem mais obras-primas".

Tudo isso lembra, embora sem as terríveis consequências da época, a Revolução Cultural (1966-76), quando milhares de artistas foram enviados ao campo para "serem reeducados". No experimento social, 17 milhões de jovens urbanos foram levados a zonas rurais da China.

Muitos passaram anos vivendo em condições adversas e morreram vítimas da fome ou de doenças, embora não haja números oficiais sobre este ou outros efeitos da caótica Revolução Cultural, que a China arquivou com o julgamento da "Camarilha dos Quatro" nos anos 80.

Já na guerra civil chinesa, Mao Tsé-tung recomendou, em um famoso discurso pronunciado em 1942 na base revolucionária de Yanan (onde compartilhou quartel com o pai do atual presidente, o general Xi Zhongxun) que os artistas viajassem ao campo para obter inspiração.

Para o presidente Xi, que recuperou aspectos do maoísmo em seus discursos e na estética do regime, a arte na China ficou excessivamente comercial e precisa recuperar sua função social, mas ao lado do Partido Comunista.

Além disso, a arte chinesa atual "está cheia de vulgaridade e luxúria", disse Xi Jinping em seu discurso de outubro, uma declaração que se baseia na opinião, no seio do regime, que os artistas nacionais que enriqueceram levam uma vida dispersa e corrupta, na qual é habitual, por exemplo, o consumo de drogas.

A campanha anticorrupção que o presidente Xi instituiu contra os altos cargos políticos foi acompanhada de outra similar contra os artistas, que resultou em dezenas de detenções, principalmente de atores e diretores de cinema.

Entre os detidos se destaca o ator Jaycee Chan, filho do astro das artes marciais Jackie Chan, e o diretor de cinema Wang Quanan, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2007.

Por causa das detenções, o governo chinês proibiu as emissoras de televisão e outros meios de comunicação do país de transmitirem filmes, músicas e outras produções de artistas envolvidos em casos de drogas ou prostituição.

As novas pressões sobre os artistas chineses se juntam ao constante problema da censura e as pressões do regime a artistas que promovem obras com críticas social e política.

Um caso paradigmático é o do polêmico Ai Weiwei, "enfant terrible" da elite cultural chinesa que passou vários meses preso por fraude fiscal e foi proibido de deixar o país.

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