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Cuenca escreve sobre a instabilidade política e alerta para risco de crise

Escritor carioca João Paulo Cuenca em sua casa, na cidade do Rio de Janeiro - Rafael Andrade / Folhapress
Escritor carioca João Paulo Cuenca em sua casa, na cidade do Rio de Janeiro Imagem: Rafael Andrade / Folhapress

Ricardo Pérez-Solero

17/11/2014 15h38

O escritor João Paulo Cuenca, que escreve um romance sobre a instabilidade política no país, advertiu para o risco de "uma crise institucional no Brasil" e destacou que "as forças conservadoras estão reagindo mal ao resultado das eleições".

"O que aconteceu foi uma reação muito forte das forças conservadoras de direita, elegemos o Congresso mais conservador desde 1964, com muitos congressistas contra o aborto ou contra o casamento gay, é um retrocesso brutal", lamentou o autor carioca em entrevista à Agência Efe.

Apesar de não considerar que os escritores tenham obrigatoriamente um papel moral, Cuenca está escrevendo sobre a instabilidade política no Rio, antiga capital do Império.

"Não somos padres, escrevo sobre estas coisas porque me interessa e porque me fascina uma mudança tão rápida e de maneira tão violenta", comentou.

Cuenca participou do recente Festival Internacional de Escritores de Cingapura e falou sobre os paralelismos entre o Sudeste Asiático e a América Latina e as influências asiáticas em sua literatura.

"(Rio de Janeiro e Bangcoc) estão na periferia do mundo, fora do centro de decisão, do centro de produção acadêmica, literária ou intelectual, mas no Rio ou em Buenos Aires, as pessoas acreditam que estão em Nova York, é a ilusão de estar no centro do mundo, sem estar lá", comentou o romancista.

O festival reuniu 138 escritores locais e 69 escritores internacionais durante dez dias na capital do país asiático e pôs o foco este ano na literatura da América Latina.

"Não pretendo representar a minha região, pois nem sequer sou capaz de representar a mim mesmo", disse um modesto Cuenca, que afirmou que a presença do colombiano Hector Abade Faciolince e do argentino Eduardo Sacheri no festival "pode ser um primeiro contato com uma tradição literária muito rica".

"Somos três escritores que escrevemos o que queremos, temos estilos muito diversos, escolhemos nossos temas e os levamos adiante sem a necessidade de responder a uma demanda de mercado ou acadêmica, sem nenhum tipo de rótulo", declarou Cuenca.

Uma das classificações literárias discutidas durante o evento foi a do realismo fantástico, com a qual o escritor não se identifica, "embora entenda que para falar de literatura latino-americana é preciso falar disso".

Para Cuenca participar de festivais permite "conhecer o mundo" e outros escritores, como se se tratassem de "uma versão contemporânea dos cafés literários, e isso muda o que escrevo".

Seu último romance, "O único final feliz para uma história de amor é um acidente", ambientada no Japão, tem "bastante influência de escritores asiáticos".

"A influência do autor clássico Junichiro Tanizaki é maior que a de Murakami", respondeu ao ser perguntado pelas comparações com o best-seller contemporâneo japonês.

Sobre a dificuldade de escrever do ponto de vista japonês, Cuenca explicou que "em minha cabeça houve uma tradução do japonês ao português, o romance foi escrito para soar como uma tradução".

"O ruído da tradução não me parece ruim, ao contrário, me encanta, é parte do meu projeto", concluiu o escritor.