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Maior exposição sobre a vida de Salvador Dalí chega ao Rio

Antonio Lacerda/EFE
Imagem: Antonio Lacerda/EFE

Do Rio

29/05/2014 23h08

Foram 16 anos até que os cariocas pudessem ver novamente uma mostra do pintor espanhol Salvador Dalí, mas a espera valeu a pena: a partir desta sexta-feira (30), o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no centro do Rio de Janeiro, recebe a maior retrospectiva da obra do pintor já vista na América Latina.

A partir de 150 peças, incluindo 30 pinturas, 80 desenhos, documentos, fotografias e filmes, a curadoria da espanhola Montse Aguer perpassa toda a carreira do mestre do surrealismo.

De semelhança com a mostra "Dalí Monumental", no Museu Nacional de Belas Artes, em 1998, a mostra "Salvador Dalí" só tem o tema, avisa em entrevista à Agência Efe o gerente-geral do CCBB, Marcelo Mendonça.

"Aquela exposição (com 34 obras) era apenas de um colecionador. Agora estamos expondo o acervo das principais instituições colecionadoras de Dalí: o Museu Rainha Sofia, de Madri, o Museu Salvador Dalí de St. Petersburg, na Flórida (Estados Unidos) e a Fundação Gala-Salvador Dalí, de Figueres (Espanha)", dimensiona Marcelo.

"A ideia é mostrar Dalí como um artista total", esclarece Montse Aguer, e Marcelo acrescenta: "É como ele se pensava".

Do amplo recorte, "apenas uma obra, 'Las sombras de la noche que cae' (1931), já havia sido vista por aqui" conta Marcelo.

Dois marcos influenciaram a escolha deste mês para a megaexposição: além de o espaço estar comemorando 25 anos, os espanhóis viram na Copa do Mundo, que começa em 15 dias, uma oportunidade para atrair o público do mundo inteiro para a obra do gênio catalão.

"A Copa ajudou a trazer essa exposição. Eles quiseram estar aqui durante o Mundial, que é uma vitrine para todos, e para Dalí também", conta o gerente do CCBB, que diz estar curioso sobre a receptividade do público de futebol. "Estou na expectativa para saber se o turista da Copa é o mesmo que vai ao museu. A gente espera que sim, e vamos nos esforçar para que essas pessoas deem uma passadinha aqui", anima-se.

Quanto à expectativa de público, a mostra, que fica em cartaz até 22 de setembro, é ambiciosa: "Espero que supere a marca de uma exposição quase idêntica em 2012 no Centro Georges Pompidou, em Paris. Foram 700 mil visitantes", revela Marcelo, que não descarta retomar os "viradões", com portas abertas até a madrugada.

A retrospectiva ocupa 12 salas do primeiro andar do prédio, área equivalente a mil metros quadrados, além de uma instalação no térreo.

Toda essa imponência exigiu anos de trabalho: desde 2009, o Instituto Tomie Ohtake, de São Paulo, negocia a vinda da exposição, mas foi a entrada do CCBB, recentemente, que garantiu a vinda.

O transporte das obras também teve cuidados especiais. Tanto da Espanha quanto dos EUA, os acervos vieram distribuídos em ao menos seis aviões, cujos voos tiveram horários e destino guardados a sete chaves; e em caixas climatizadas.

O investimento total no evento ficou em torno de R$ 9 milhões - captados pelo Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, e com patrocinadores privados.

No percurso do Dalí adolescente (desde os 16 anos), provando estilos e técnicas como um adolescente comum provaria bebidas, até o Dalí surrealista e midiático, em apresentação cronológica, o público verá ângulos menos conhecidos do pintor.

"Ele foi muito além da pintura", lembra Marcelo. "Trabalhava com desenho, gravura, fotografia, cinema, era pensador, ilustrador".

Entre as obras de maior importância artística, estão "El sentimiento de velocidad" (1931), "Monumento imperial a la mujer-niña" (1929), "Figura y drapeado en un paisaje" (1935) e "Paisaje pagano medio" (1937).

No clímax da exposição, que é mesmo a fase surrealista, tudo foi pensado para criar um ambiente mágico, sem cair em exageros. É o que conta a curadora Montse Aguer.

"A mostra tem certo formato labiríntico", explica Montse. A sensação de estar perdido foi materializada com paredes que surgem de repente - que não estão na planta original do CCBB: "Ao entrar em uma sala, o espectador não vê sua totalidade e, à medida que vai caminhando, descobre novas obras", descreveu a especialista.

Mas o ponto alto da cenografia é a iluminação, fortemente dramática a partir da sexta sala, quando a luz do espaço cai e os spots iluminam rigorosamente apenas as telas, gerando um efeito 3D: as telas parecem saltar dos quadros.

Nas palavras da curadora Aguer, "a intenção é criar o ambiente que há em sua obra. Queremos ajudar as pessoas a entrarem no mundo imaginário de Dalí, com essa atmosfera de enigma e mistério".

Além das salas dedicadas à subversão do realismo, recheadas de elementos da iconografia de Dalí, como relógios, sapatos, muletas, a paisagem árida da Catalunha e a onipresente musa e alma-gêmea Gala, o público verá registros como fotografias do dia a dia do autor e capas de revistas.

O conteúdo multimídia inclui trechos dos filmes "O cão andaluz" (1929) e "A idade do ouro" (1930), que co-dirigiu com Luis Buñuel; o curta "Destino", criado em parceria com Walt Disney em 1946, e uma cena de valor inestimável em "Quando fala o coração", de Alfred Hitchcock na qual o surrealista descreve (com imagens, claro), um sonho ao analista.

Mas são as gravuras que mostram um Dalí mais introspectivo, lírico, profundo, a maior surpresa para o grande público. As obras ilustraram edições de gigantes da literatura mundial, como "O velho e o mar", de Ernest Hemingway, "Alice no país das maravilhas", de Lewis Carroll, "Fausto", de Goethe e, como não poderia deixar de ser, "Dom Quixote de la Mancha", do conterrâneo Miguel de Cervantes.

Ao fim da exposição, a instalação "Rosto de Mae West utilizado como apartamento", uma réplica penetrável do famoso quadro, convida o público a sacar o celular e fazer selfies, o que não deixa de lembrar uma das principais características de Salvador Dalí: a adoração pela própria imagem, de preferência, com caras e bocas. Mais atual, impossível.

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