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O medo argentino e o fanatismo alemão, um dia inquietante em Berlim

09/02/2014 14h38

Gemma Casadevall.

Berlim, 9 fev (EFE).- A Argentina entrou em competição na Festival de Berlim com "História do medo", um filme centrado no pânico dirigido por Benjamin Naishtat, compartilhando a principal sessão do dia com uma via-sacra alemã sobre o fanatismo católico em nossos dias.

O estreante Naishtat e o alemão Dietrich Brüggemann, provocaram um domingo inquietante, povoado de fantasmas internos, próprios ou adquiridos, gerados em sociedades avançadas.

"A história do medo" mostra o terror "ao outro", da perspectiva de um bairro privado das imediações de Buenos Aires, onde qualquer pessoa, comportamento ou mero gesto alheio ao círculo habitual é percebido como uma agressão.

"Kreuzweg" (Via-Sacra) é a história de uma moça de 14 anos cuja mãe segue estritamente o dogma da Irmandade de Pio XII, enquanto o pai se cala. O filme mistura a adoração adolescente da menina para o padre da escola, que introjeta nela o preceito do sacrifício extremo como norma de vida.

"Partimos de um fanatismo religioso que alguns acharão próprio de núcleos islâmicos, mas que convive em sociedades consideradas perfeitas, como a nossa, onde a religião atua em cumplicidade com uma violência sutil emanada da família", disse Brüggemann.

Nem o filme argentino nem o alemão prometiam um domingo de cores, mas, após a overdose de estrelas exibida no sábado por George Clooney e seu "Caçadores de Obras-Primas" no Festival de Berlim, caiu vem o retorno à reflexão.

"História do medo" é o que seu diretor, nascido em Buenos Aires em 1986, classifica como um "problema muito argentino", embora estendido a boa parte do resto da América Latina: a blindagem atrás de cercas em bairros fechados, em uma tentativa vã de se proteger dos pavores que na realidade estão dentro deles mesmos.

"Nós, argentinos, sofremos especialmente de um mal chamado medo do outro. Se reflete na profusão de condomínios, onde a classe endinheirada se proteger do mundo exterior", criticou Naishtat em sua estreia no tapete vermelho da Festival de Berlim.

O longa, de corte experimental e planos curtos, povoado de personagens "aprisionados em uma espécie de medo que nem eles mesmos sabem a que se dirige" e gerador do pânico diante de "qualquer presença que não pertença ao seu círculo".

Naishtat trata de "decodificar a realidade argentina", através de um filme que tem a aparência de 'thriller', embora, como adverte o próprio diretor, não pertença a esse gênero.

Um helicóptero sobrevoando o bairro e seus limites é o arranque do filme, que depois atraca em um grupo de moradores que de saborear um churrasco e beber vinho tinto passam ao pânico coletivo porque a eletricidade foi cortada -"o que acontece constantemente em Buenos Aires, só que eles percebem como algo alheio a sua condição social", apontou Naishtat.

"História do medo" chegou ao Festival de Berlim amparado pela financiamento do roteiro pelo World Cinema Fund, o fundo da Festival de Berlim para jovens cineastas, e foi o primeiro dos dois longas argentinas em competição nesta edição do festival, muito voltado às cinematografias da América Latina.

Na próxima quarta-feira se projetará "A terceira margem", da também argentina Celina Murga, quem retorna à Festival de Berlim após ter exibido em 2012 o documentário "Escola Normal".

Também serão exibidos no festival os latino-americanos: "Praia do Futuro", do brasileiro Karim Aïnouz, a peruana Claudia Llosa, Urso de Ouro em 2009 com "A mama assustada", compete com "Aloft", rodado em inglês nos gelos polares.

EFE

gc/cd

(foto) (vídeo)

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