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Familiares de vítimas da Kiss enfrentam perda com amor e trabalho

24/01/2014 08h05

Por Luísa Dalcin.

Santa Maria, 24 jan (EFE).- A fachada destruída da Boate Kiss, consequência do incêndio que chocou o Brasil ao causar a morte de 242 jovens na cidade de Santa Maria, ainda impressiona, mas já não reúne mais tantos curiosos.

As flores e as fotos das vítimas, penduradas nos tapumes, acusam as intempéries das quatro estações que passaram por ali, e apenas uma viatura policial tomou o lugar dos veículos de emissoras do mundo todo que fechavam a Rua dos Andradas em 27 de janeiro de 2013.

A 14 quilômetros dali, um edifício laranja e branco que lembra a estrutura de um barco a vela, enfrenta outras tormentas. O local abriga o Centro de Convivência Turma do Ique, espaço dedicado à recreação de crianças e adolescentes com câncer durante o período de internação e tratamento no Hospital Universitário de Santa Maria.

Aos 47 anos, Mauren Sarturi também se abriga entre essas paredes coloridas: há seis meses, decidiu retomar a vida e tornar-se voluntária da instituição.

"Aqui é minha força diária. Sem isso, não sobreviveria. O tratamento é doloroso e longo e as crianças olham para você com uma vontade de viver, que você vai junto", diz, mostrando nas mãos ainda trêmulas o anel que era de sua única filha, Érica, de 22 anos, vítima do incêndio.

Mauren não esquece o primeiro conselho que recebeu, de uma mãe que sofreu a mesma perda: "Tem vários caminhos e você vai ter que seguir um. E ter consciência de que todos eles são dolorosos".

"Hoje eu entro no quarto da minha filha e ele está vazio. E o cheiro das roupas dela está desaparecendo. Uma vez eu li: 'quanto maior a dor, maior a sua carga de trabalho'. E é isso", constata.

No dia em que aceitou contar sobre a experiência que vem preenchendo seu tempo nos últimos meses, Mauren havia escutado música no trajeto até a universidade. "Foi a primeira vez que liguei o rádio do carro em 12 meses. Eu ainda não leio os jornais. Comecei a ver TV no mês passado."

Na Turma do Ique, a voluntária passa o dia cercada de cores quentes, risos e novas perspectivas. Hoje, bolsistas da instituição, jovens como Érika, lhe pedem conselhos nos intervalos do trabalho. No primeiro Natal sem sua filha, montou a árvore das crianças e celebrou com elas, mesmo tendo acreditado durante um ano que jamais voltaria a comemorar a data.

"Gente é energia e essa energia deve ser passada da melhor maneira possível. Eu encontrei meu caminho, é aqui", sentencia.

Mauren diz agradecer a Deus por nunca ter sido uma pessoa revoltada. "Não me interessa saber quem é Mauro (Hoffmann), quem é Kiko (Spohr, ambos proprietários da boate), quem foi o infeliz que deu sua assinatura para abrir aquilo ali. Isso é uma dívida que não vão acertar comigo. Além da dor que eu já tenho, não vou carregar mais essa raiva", desabafa.

Desde sua chegada, na metade de 2013, o grupo de pequenos pacientes que frequenta o centro sofreu quatro óbitos. "Eu olho pra eles todos os dias e vejo a valentia, a dor, a angústia das mães. É viver com a espada na cabeça", conta.

Mauren interrompe a fala constantemente para receber o abraço de algum colega ou corresponder ao beijo enviado por algum paciente: "Eu não tenho mais a mesma concentração que eu tinha antes. Mas acho que minha humanidade aumentou mil por cento. Eu olho para a outra pessoa e vejo uma história e uma vida que devem ser respeitadas".

Ao final do encontro, a voluntária se despede carinhosamente de uma senhora idosa e humilde, preocupada com o tratamento do neto. Mauren segura sua mão e, como se repetisse um mantra voltado também para ela própria, aconselha: "Força e coragem, vó. É o que leva a gente adiante".

A advogada Patrícia Carvalho, 36 anos, transita pelo seu escritório de advocacia a passos firmes. Viúva de João Aloisio Treulieb, 29, chefe de bar da Kiss, teve pouco tempo para se deixar abater. Apenas dois meses depois do incêndio, nasceu Joana, filha dos dois.

O mutirão para ajudar a advogada a cuidar da menina é enorme: amigos, padrinhos, sogros, mãe. "Tem coisas que eu nem sei o preço porque não costumo comprar. Além do carinho que eles têm com a Joana, participam ativamente na criação. É um passo de cada vez e todo mundo junto."

O ambiente de trabalho é impessoal. Nada pelas paredes, nenhuma foto ou adorno. Patrícia fala com a voz forte de quem tomou as rédeas da própria vida enquanto enfrentava o mar revolto, sem que isso afetasse a filha, agora com 10 meses. "Logo depois da tragédia, ficou complicado até sair de casa. Fiquei sem privacidade. Os repórteres ligavam e interfonavam o tempo todo".

"Tinha gente que acampava ali no Parque", relembra, da mesa ao lado, o amigo e colega Marcos Trindade, referindo-se ao Parque Itaimbé, que fica próximo ao edifício onde Patrícia mora.

Dividindo-se entre a maternidade e a carreira, Patrícia separou um dia para cuidar das feridas.

"A proteção (da família, por causa da gravidez) me sufocava e não consegui elaborar meu luto. Então dia 27 é o dia que eu choro, vou ao cemitério, me permito sentir dor. Esse período para assimilar, chorar bastante, entender que a pessoa não vem mais, eu não tive. Então, às vezes, ainda incluo o João na conversa sem querer. Dia 27 é o dia da realidade para mim".

Quando perguntados se algo no rosto de Joana remete às feições do pai, Patrícia e Marcos disparam ao mesmo tempo: "O nariz não, por favor!".

"Era a única coisa que eu pedia para não ser igual!", ri Patrícia.

Outro grande amigo de João e Patrícia, o psicólogo Luismar da Rosa Model, 26 anos, está no rol de padrinhos da pequena Joana. Luismar trabalhava no bar da boate para pagar a sua formatura e é um dos sobreviventes do incêndio.

No sofá de sua casa em Santa Maria, no intervalo dos estudos (vai prestar a prova de residência em psicologia), conta como a vida mudou depois da tragédia. Sua companhia, a pequena llhasa apso Kate, observa imóvel a conversa de forma respeitosa. Durante um ano, Luismar preferiu não receber a imprensa.

"Colegas que sobreviveram estavam com receio de sair na rua. Alguns familiares misturaram as coisas, parecia que todo mundo que trabalhava na boate era cúmplice daquilo, como se tivéssemos alguma culpa", lamenta.

No dia da tragédia, mesmo debilitado, o psicólogo fincou o pé em frente à Kiss e ficou ali até às 14h atrás de notícias. Foi para o hospital apenas no dia seguinte. "Fiquei sentado na sala de espera ao lado de um rapaz. Ele foi abaixando a cabeça e quando eu vi, tinha morrido. Fiquei desesperado, achei que eu ia morrer também".

Cinco dias depois, sem acesso às notícias que circulavam, Luismar saiu do hospital. "A cidade era outra. Era tudo preto. Nos dois primeiros meses, eu tomava banho de porta aberta, eu dormia com o abajur aceso. Foi muito estranho." Hoje, dedicando-se aos estudos e participando da criação de Joana, Luismar sente que "nasceu de novo".

"A vida em si mudou. É dar valor às pequenas coisas que você tem em casa, à pessoa que te deu bom dia. Ver que as pessoas não são descartáveis", comenta.

No primeiro aniversário do incêndio, dia 27 de janeiro, um culto ecumênico, organizado pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), será realizado na praça Saldanha Marinho, no centro de Santa Maria, em homenagem às vítimas da tragédia.

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