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Povo de Mandela também diz adeus ao herói sul-africano

15/12/2013 13h46

Marcel Gascón.

Mqhekezweni (África do Sul), 15 dez (EFE).- Afastado pelas fortes medidas de segurança da sitiada Qunu, a menos de uma hora de carro pela estrada de terra, o pequeno povoado de Mqhekezweni também viveu intensamente neste domingo o funeral de Nelson Mandela, que recebeu ali suas primeiras doutrinas de liderança.

Enquanto seu corpo era sepultado no terreno familiar dos Mandela na vizinha Qunu - onde o ex-presidente cresceu e foi enterrado como tinha pedido, um grupo de vizinhas da Mqhekezweni cozinhavam um prato típico xhosa em grandes panelas de ferro.

"Sacrificamos uma vaca para nos despedir de Mandela", contou à Agência Efe Nosakhiwo Mcaphu.

A homenagem aconteceu logo atrás da casa circular de barro e telhado de palha na qual Mandela viveu entre os 9 e os 16 anos com seu primo Justice Mtirara, filho do então regente da casa real Thembu, Jongintaba Dalindyebo, que cuidou do pequeno Mandela quando ele perdeu o pai.

"Aqui, nesta casa, dormia com seu primo Justice", contou o mestre residente do povoado, Raymond Mdazuka.

A alguns metros dali, dezenas de pessoas acompanhavam ao vivo o funeral na tela gigante de televisão instalada ali. Mulheres vestidas com as cores do Congresso Nacional Africano (CNA, partido liderado por Mandela e hoje governo), jovens, idosos e um grupo de soldados com metralhadoras apoiadas nas pernas.

Tinham estacionado seus tanques de cor caqui na rua e descansavam dos trabalhos de vigilância da região longe do assédio de jornalistas, sirenes e veículos oficiais.

Diante deles, indiferentes à atenção com que os adultos observavam a televisão, as crianças bricavam à sombra das árvores.

"Ali, debaixo dessas árvores, os idosos deliberavam sobre as decisões da comunidade, e o regente Jongintaba tomava, escutando a todos, as decisões", relatou o mestre Mdazuka.

"Sendo uma criança, Mandela costumava se sentar atrás deles e escutar", acrescenta.

O próprio Mandela lembra em suas memórias que foi nessas sessões onde escutou pela primeira vez falar da história de seu povo e da opressão da minoria branca, e viu a democracia ser praticada pela tradição de seu clã.

Nenhum outro lugar como Mqhekezweni representa na vida do ex- presidente sul-africano a tradição, que, apesar de ter servido de inspiração, também significava para ele uma forma de opressão.

"Mandela escapou daqui com Justice porque o regente queria que se casassem em dois casamentos arranjados", lembrou o mestre Mdazuka, em referência à fuga de Madiba (como é carinhosamente conhecido o ex-presidente) a Johanesburgo em 1941, que marcou o final de sua relação com o povo que hoje o homenageou.

Ninguém na aldeia lembra de Mandela adolescente, mas do velho presidente que tomou posse em 1994 e voltou a Mqhekezweni para saudar seus moradores.

"Ele nos prometeu uma escola, eletricidade e outras muitas coisas. Cumpriu todas", rememorou Mdazuka, que falou durante uns minutos com o presidente durante aquela visita.

Mandela sempre considerou Qunu como sua cidade, mas também não esqueceu Mqhekezweni.

Após sua saída da prisão em 1990, Madiba comprou uma casa em Qunu e passou longas temporadas ali.

E organizou muitos natais da aldeia, grandes festas com presentes para as crianças.

"Enviava ônibus para levar as crianças daqui, e nunca faltava comida, brinquedos, presentes", disse Nummisa Mbebe, que oferece bezerra com verduras aos que seguem as exéquias pela televisão.

Depois de ser enterrado, a transmissão do funeral desaparece da tela e os soldados abandonaram a cidade, de armas em riste.

Mas junto da casa onde viveu Mandela, a população de Mqhekezweni ainda comia e evocava, com nostalgia, a última visita do inesquecível herói.

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