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Exumação comprovará causa da morte de Pablo Neruda 40 anos depois

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O poeta Pablo Neruda em Capri, Itália Imagem: AP Photo/File

Jorge Escalante

07/04/2013 12h55

Uma equipe multidisciplinar de legistas chilenos e estrangeiros será responsável por comprovar, 40 anos depois, se o poeta Pablo Neruda morreu de câncer ou foi assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet no fatídico dia 23 de setembro de 1973, logo após o golpe militar.

Os restos mortais de Neruda (1904-1973) serão exumados na próxima segunda-feira (8). O túmulo do poeta está desde 1992 junto ao de Matilde Urrutia, sua terceira esposa, em frente ao mar em Ilha Negra, no litoral central do Chile.

A exumação em questão foi ordenada pelo juiz Mario Carroza, que lidera o processo judicial para esclarecer a causa exata da morte do poeta.

A coleta de provas acontece em meio a dúvidas, suspeitas e muitas contradições em relação à causa da morte de Neruda, que pode ter sido provocada por um câncer de próstata ou uma injeção letal aplicada por agentes da ditadura.

Manuel Araya, um ex-chofer do poeta, cogitou pela primeira vez a hipótese de assassinato em 2011, em uma entrevista sobre o assunto. A denúncia em questão fez com que o Partido Comunista, ao qual pertenceu o prêmio Nobel de Literatura, apresentasse uma queixa em maio de 2012, a mesma que resultou neste processo judicial.

"Neruda era uma figura muito perigosa para Pinochet, principalmente pelo prestígio internacional que tinha", afirmou à Agência Efe Araya, acrescentando que o poeta já tinha aceitado o refúgio oferecido pelo México após o golpe e que, pouco antes de sua morte, o poeta já se preparava para fugir e se envolver ativamente na luta política contra o regime.

"Se for comprovado cientificamente que Neruda foi assassinado, será um golpe à memória internacional, construída sobre a base de uma morte por câncer", afirmou o advogado que fez o pedido de exumação, Eduardo Contreras.

"Existem muitas contradições no processo, principalmente sobre o que aconteceu na clínica em que Neruda recebeu atendimento. Essa falta de certeza, no mínimo, nos faz ter uma legítima dúvida em relação às causas de sua morte", declarou o advogado à Agência Efe.

"Para citar um exemplo, há dúvidas a respeito da real identidade do médico que teria injetado um medicamento (dipirona) no poeta, supostamente para lhe aliviar a dor", completou Contreras, que ressaltou que Neruda "deveria ser atendido por um médico chamado Sergio Draper".

"É estranho o fato de que Draper fosse trabalhar na clínica apenas três dias antes da morte de Neruda, ainda mais por ser um médico ligado ao Hospital Militar e, inclusive, mencionado na morte (em 1982) do ex-presidente Eduardo Frei Montalva nessa mesma clínica por envenenamento, como está credenciado na Justiça", precisou.

Em uma entrevista publicada em 1975, Draper disse que esteve até o último momento junto de Neruda. No entanto, em sua declaração judicial, o médico declarou que esteve com o poeta até "cedo" e que o "doutor Price" teria ficado com o poeta posteriormente.

"Após a realização de todas as investigações policiais para o processo, não encontramos 'doutor Price' em nenhum dos registros consultados", sustentou Contreras.

"É preciso citar que a ficha médica de Neruda também desapareceu e que a Clínica Santa Maria não entregou a lista com todos os seus funcionários em 1973", afirmou o advogado, que lembrou que, no dia 24 de setembro de 1973, "o jornal 'El Mercurio' publicou que Neruda morreu de infarto após ter recebido uma injeção".

"Eu estive com ele (Neruda) e sei que, por volta das 16h, lhe deram uma injeção no estômago. Lembro que me disseram que era dipirona e para dor", declarou Araya.

Entre os que defendem que Neruda teria morrido de câncer, está a Fundação que leva seu nome e administra seus bens, incluindo as casas de Ilha Negra, Santiago e Valparaíso, todas transformadas em museus.

Aída Figueroa, que foi subsecretária de Trabalho de Salvador Allende e amiga próxima do poeta desde os anos 40, também defende esta hipótese. Aliás, em entrevista à revista "Sábado", ela lembrou que no dia 21 de novembro de 1972, quando Neruda retornou ao Chile após deixar seu cargo de embaixador na França, comentou com seu marido, Sergio Insunza: "Pablo veio morrer no Chile".

Fazia então três anos que Neruda estava doente da próstata, segundo Francisco Velasco, um médico e amigo do poeta.

Em seu livro, intitulado "Neruda, o grande amigo" (1987), Velasco diz que examinou o poeta e apalpou "um nódulo", fato que não lhe agradava em nada e, por isso, pediu novos exames. "No entanto, como Neruda passou a se sentir bem, ele não voltou mais", descreve o médico em um trecho.

Neruda, que foi internado no dia 19 de setembro, passou o dia 23 em coma e morreu às 22h. De acordo com Aída Figueroa, o prêmio Nobel já "chegou desacordado" ao centro médico.

"Determinar a causa da morte será um difícil trabalho", declarou Patrício Bustos, diretor do Serviço Médico Legal, aos jornalistas.

"As amostras vão se perdendo com os anos, mas estamos acostumados a trabalhar na adversidade", precisou Bustos, que destacou a permanente disposição do organismo de "buscar a verdade".

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