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Autobiografia tornada arte da britânica Tracey Emin chega a Buenos Aires

20/11/2012 06h09

Mar Centenera.

Buenos Aires, 20 nov (EFE).- "Era como se me tivessem triturado as entranhas, sentia uma dor insuportável e um calor incrível", assegura a artista britânica Tracey Emin ao lembrar seu aborto em um aterrorizante vídeo que faz parte de sua exposição em Buenos Aires, a primeira solo no continente americano.

Emin decidiu gravar essa tormentosa experiência, que milhões de mulheres de todo o mundo sofrem em silêncio, além de torná-la pública em 1996, uma decisão que não só teve um efeito catártico, mas traçou o caminho que a catapultaria ao topo da arte britânica no final dos anos 90.

O vídeo, que batizou como "How it feels", dá título também à exposição que o Museu de Arte Latino-Americano (Malba) da capital argentina acolhe, com curadoria do canadense Philip Larrat-Smith, e no qual são exibidos quatro filmes com tinturas autobiográficas, gravados entre 1995 e 2000.

"Gritavam pu-ti-nha, pu-ti-nha. No final já não podia escutar a música nem as pessoas que aplaudiam, a cabeça dava voltas e chorava. Tinha perdido", diz Emin em outro dos vídeos, "Why I never become a dancer".

Na obra, a artista britânica lembra os abusos sexuais que sofreu quando tinha 13 e 14 anos, mas os exorciza em um baile final desenfreado ao ritmo de "You make me feel (Mighty Real)", de Sylvester.

Passaram quase duas décadas desde que Emin, de 49 anos, gravou os vídeos que agora o Malba expõe, e assegurou que para ela é estranho voltar a ver este material agora.

"É muito estranho me ver tão jovem porque agora atuo e penso como uma pessoa muito mais velha, mas ao mesmo tempo é bom porque continuo me reconhecendo nestas ideias", declarou a artista à Agência Efe horas antes da inauguração.

O cabelo comprido e loiro que a artista britânica exibiu em Buenos Aires contrastava com o curto e preto com o qual aparece nas gravações, mas além das mudanças físicas e estéticas, Emin asseverou que se alegra de "já não sofrer assim e estar no lado positivo da vida".

Emin admitiu que nos últimos anos a fronteira entre público e privado ruiu, assinalando que agora lhe parecem "inocentes" obras suas que escandalizaram anos atrás a sociedade, como "Minha Cama", a instalação na qual expunha uma cama rodeada de garrafas de vodca, bitucas, preservativos usados, almofadas e roupa de baixo, e com a qual foi indicada para os prêmios Turner em 1999.

"Sim, agora, com Facebook, YouTube, já não há nada privado sobre ninguém. Mas há 20 anos não era assim: os britânicos não diziam o que pensavam, o que sentiam, tinham que parecer invulneráveis e eu, por outro lado, era vulnerável", esclareceu.

Apesar da mudança de mentalidade, a arte de Emin, uma das expoentes mais bem-sucedidas do grupo conhecido como "Young british artists" (jovens artistas britânicos) nos anos 90, mantém a capacidade de provocar e de gerar admiração ou repulsão entre quem enfrenta suas obras.

Em declarações à Efe, o curador Larrat-Smith disse que a seleção de vídeos que podem ser vistos no Malba até o final de fevereiro de 2013 é uma boa representação "da voz complexa de Emin", que às vezes "é mais humorística, outras mais trágica e outras lírica".

A artista concordou com ele e ressaltou que considera que se trata de "um espetáculo perfeito para a Argentina, já que os argentinos são muito expressivos, muito livres na hora de falar de seus sentimentos, de contar o que lhes acontece".

Na Argentina, o material audiovisual só poderá ser contemplado, mas a polêmica artista, titular de desenho na Royal Academy of Arts de Londres, recorreu também à fotografia, ao desenho e inclusive ao bordado para transformar suas pulsações vitais em arte.

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