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Suposto enterro de García Lorca no Uruguai gera polêmica

Reprodução/Blog García Lorca
Federico García Lorca, poeta e dramaturgo espanhol morto em 1936 (5/6/11) Imagem: Reprodução/Blog García Lorca

Raúl Cortés

08/11/2012 07h56

O aguardado lançamento no Uruguai do livro que indica que os restos mortais de García Lorca estão nesse país iniciou uma polêmica entre os intelectuais locais e causou incômodo à família do escritor Enrique Amorim, assinalado na obra como o amor secreto do poeta espanhol.

O peruano Santiago Roncagliolo promoveu pessoalmente em Montevidéu nesta semana "O Amante Uruguaio", um material feito sob encomenda que lhe custou dois anos de pesquisas e que ele próprio esperava que fosse controverso.

"Sou um facínora dos livros. As pessoas que têm histórias reais sabem que estou disposto a me envolver em confusões", afirmou em entrevista à Agência Efe na capital uruguaia.

Trata-se de um relato livre com cenário histórico sobre os laços de Enrique Amorim (1900-1960) com ilustres contemporâneos como Borges, Picasso e Neruda para justificar sua suposta relação amorosa com García Lorca (1898-1936), fruto de uma viagem do espanhol ao Uruguai em 1934.

Fascinado pelo poeta, Amorim teria recuperado seus restos mortais na Espanha duas décadas depois e os levado para sua cidade natal, Salto, sustenta o autor, ganhador do Prêmio Alfaguara em 2006 por "Abril Vermelho".

Nessa cidade fronteiriça com a Argentina, Amorim teria enterrado os restos mortais de Lorca em 1953, durante a inauguração do primeiro monumento em memória do poeta espanhol no mundo. Nesse dia, o escritor uruguaio leu um "suspeito" discurso alegórico.

O livro de Roncagliolo traz uma fotografia do suposto enterro de Lorca, na qual é possível ver uma misteriosa caixa branca que conteria os restos mortais do poeta.

Manuel Olarreaga, um eminente habitante de Salto que foi coordenador da secretaria do Mercosul, esteve presente àquela cerimônia e não se recorda de tal episódio.

"Eu não vi nenhuma caixa nem ninguém falou de nenhuma caixa", afirmou à Efe na última segunda-feira, após assistir à tensa apresentação do livro de Roncagliolo em uma livraria de Montevidéu.

Olarreaga lembra ainda que um dos principais estudiosos de Lorca, Ian Gibson, já disse que a teoria do peruano "é impensável", pois "uma operação de tal envergadura seria impossível de silenciar".

Em resposta, o autor confessa que "não há nenhum testemunho" que apoie diretamente sua tese e admite que "a possibilidade de não haver nada no monumento é altíssima", mas gostaria que as autoridades uruguaias escavassem o local para desfazer a dúvida.

Também estiveram presentes ao lançamento do livro Pelayo Amorim, um dos sobrinhos do escritor e testamenteiro da mulher desse último, Esther Haedo.

Os Amorim são uma poderosa família criadora de gado na qual Enrique sobressaiu por sua irrefreável atividade artística, que o levou a escrever vários romances, livros de contos, poemas, obras teatrais e até roteiros para cinema, além de edificar em Salto "Las Nubes", uma casa desenhada sob o estilo Le Corbusier.

Pelayo Amorim considera "impensável que pudesse tirar da Espanha franquista os restos mortais de Lorca", e lembrou que, devido às suas convicções políticas - Enrique era comunista -, seu tio já fora "expulso da França e da Argentina".

O que mais o incomoda, no entanto, é que quando Roncagliolo o entrevistou para o livro não imaginava que a obra apresentaria desta forma o seu protagonista, definido pelo peruano como "um gênio da simulação" por sua condição de "comunista e milionário, casado e homossexual, uruguaio e argentino".

Roncagliolo assegura estar "blindado" perante possíveis processos e manifesta em sua defesa que para a pesquisa consultou "milhares" de documentos em três idiomas (espanhol, francês e inglês) e em cinco países (Espanha, Uruguai, Argentina, Chile e França).

Além disso, acusa seus detratores de "pura homofobia" por supostamente não aceitarem a condição homossexual do personagem. Sobre esse tema, Olarreaga diz que, se fosse verdade, todos em Salto saberiam, uma vez que era um povoado pequeno na época. Pelayo, por sua vez, minimiza o assunto.

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