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Paul Auster rejeita títulos de êxito ao exaltar poesias escritas ainda menino

EFE/ Miguel Rajmil
O autor Paul Auster concede entrevista à EFE no jardim de sua casa, no Brooklyn, em Nova York (23/10/12) Imagem: EFE/ Miguel Rajmil

Teresa de Miguel

Nova York

24/10/2012 18h04

Apesar de ter alcançado o reconhecimento internacional graças a seus romances, como os que integram "A Trilogia de Nova York", Paul Auster adentrou no universo da literatura através da poesia e com apenas nove anos, quando começou a compor alguns versos "atrozes", mas com os quais aprendeu "a gostar de escrever". 

"Quando eu tinha oito anos minha mãe me deu um montão de livros de Robert Louis Stevenson, mas seus histórias e romances eram complexos demais para mim", afirmou o escritor americano durante uma entrevista à Agência Efe em sua casa, situada no bairro nova-iorquino do Brooklyn, palco de muitas de suas narrações. 

No entanto, entre esses livros considerados pesados, Auster encontrou "A Child's Garden of Verses", um livro escrito do ponto de vista de uma criança e que lhe marcou por ter sido o primeiro de poesia que leu.

"Quis fazer algo parecido e - embora meus poemas fossem absolutamente atrozes, o pior que qualquer pessoa poderia fazer -, descobri o prazer de escrever com eles, um sentimento de estar me conectando com o mundo de uma forma na qual não estava quando não escrevia", explicou o autor.

Aos 20 anos, em poemas como "Rádios" (1970), "Exumação" (1970-1972), "Escritura Mural" (1971-1975) ou "Aceitando as Consequências" (1978-1979), o escritor já abordava as temáticas "austerianas", como o acaso, a linguagem e os muros tanto interiores como exteriores.

"Tratei de trabalhar com o mínimo possível e fiz uma reivindicação espiritual a mim mesmo de eliminar tudo o que pudesse. Nele não há automóveis, telefones, aviões e nada que tenha a ver com a vida contemporânea. São todos em torno de paisagens e estados internos", relatou Auster.

Já sua "Poesia Completa" esmiúça sua obra como um todo e também aborda uma das facetas menos conhecidas do romancista, que também tradutor, roteirista e, inclusive, diretor de cinema.

"Pode ser o melhor que escrevi. Há algo tão puro nestes poemas quando os olho agora... Realmente, são produtos de um esforço supremo de articular coisas que não podem ser articuladas", declarou o autor, que reconhece que a passagem do tempo lhe permitiu "articular uma analise com certa distância".

No entanto, o mesmo não ocorre com seus celebrados romances, como "A Cidade de Vidro" (1985), que integra junto a "Fantasmas" (1986) e "O Quarto Fechado" (1986) sua reconhecida trilogia de Nova York, as quais, segundo o próprio autor, lhe produzem "um sentimento de asco, decepção e, inclusive, horror".

Apesar disso, Auster, que nasceu em Newark (Nova Jersey), no dia 3 de fevereiro de 1947, no seio de uma família judia, deixou de escrever poesia aos 30 anos, por sentir "como se tivesse explorado esse território e não pudesse encontrar nada mais nele".

Após um ano, inspirado por um espetáculo de dança, o escritor voltou a pegar a caneta, mas abandonando para sempre a poesia e voltando a se dedicar aos romances que não tinha conseguido completar durante sua adolescência, quando escreveu centenas de páginas sem terminar um único livro.

Apesar de hoje sua criação ser diferente, a "aproximação é igual", já que, segundo sua opinião, "tudo está na música". "Há um ritmo em uma frase, em um parágrafo e em um livro. Acho que cada vez que comecei a escrever escutei esta música em minha cabeça, sabia como queria soar, mas não sabia como alcançá-la. No entanto, já tinha cadência, ritmo e melodia ...", apontou Auster.

Para modelar melhor essa "música", o americano escreve sempre sobre papel para passar depois seus manuscritos ao computador - "escrevi um par de hífenes no computador e o odiei", revelou o escritor, que também disse preferir mais o papel do que a tela de um leitor eletrônico para ler.

"Porque eu iria querer que alguém fosse ler poesia em uma tela?", indagou o autor ao ser perguntado sobre o livro "Poesia Completa", inspirando profundamente "nos olhos fechados". "Além disso, o livro pode ser colocado na estante como decorações de interiores", brincou Auster.

Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras (2006), que este ano recai sobre o também americano Philip Roth, Auster também assume uma postura política em relação às próximas eleições presidenciais de seu país, as quais ocorrem no próximo dia 6 de novembro.

"Estamos atravessando um momento de grande divisão nos Estados Unidos e, inclusive, mais que nos anos 60, quando estávamos totalmente divididos pela Guerra do Vietnã", ressaltou Auster, para quem "a direita voltou a ser tão poderosa que já começa a colocar em risco a sociedade civilizada na qual todos os demais queremos viver".

Assim, o escritor acredita que o presidente Barack Obama conseguirá se impor perante o candidato Republicano, Mitt Romney, qualificado por Auster como "um homem oco, muito ambicioso e que não tem nada a oferecer para ninguém".

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