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Línguas indígenas no México, da tradição oral ao ciberespaço

04/10/2012 10h08

Asela Viar.

Cidade do México, 4 out (EFE).- As línguas indígenas no México, influenciadas pela tradição oral que as manteve vivas por gerações, enfrentam o desafio de se acomodar no ciberespaço para seu resgate sem perder sua identidade nem cair em desvios ou modismos no falar.

"A internet, ao contrário da televisão ou da imprensa, é um meio ao qual o indígena se aproxima porque vê que pode construir sua própria identidade e ser porta-voz de sua própria cultura", explicou em entrevista à Agência Efe Carmen Gómez, pesquisadora em temas de apropriação tecnológica em comunidades indígenas.

Após mais de dez anos estudando a relação que existe entre as novas tecnologias e os povos originais do México, lembra que os primeiros sites web surgiram nas comunidades indígenas como um esforço para construir uma "identidade própria".

Perante a difusão de uma imagem que denigre o indígena por parte dos meios de comunicação, os indígenas viram "com encantamento" a possibilidade de serem eles mesmos a explicar em que consiste sua identidade, disse a especialista durante o 2º Seminário Internacional de Línguas Indígenas, realizado na semana passada no México.

Este fenômeno foi reforçado por novas gerações que começaram a se interessar pelo resgate de suas línguas através de meios eletrônicos e digitais como a internet, um instrumento que se adapta a uma natureza oral cujo principal meio de ancoragem é a rádio, seguido pelo vídeo e por último pelo texto.

Segundo Carmen, o uso deste novo meio de difusão traz riscos de "desvios ou modismos no falar" para uma linguagem que não dispõe de instituições que a certifiquem e controlem, no caso de os usuários não a utilizarem adequadamente na rede.

De acordo com a especialista, "para que um conceito esteja claro em imagens tem que estar em sua expressão escrita", e todas as precauções são poucas para evitar que se cumpram as piores previsões, que vaticinam que em 2050 terão desaparecido metade das cerca de 6.000 línguas que há no mundo.

No México, 14% da população (15,7 milhões de pessoas) se consideram indígenas, mas delas apenas 6,6 milhões falam alguma das 364 variantes das 68 línguas que existem, segundo o Instituto Nacional de Línguas Indígenas (Inali).

A partir de uma perspectiva mais técnica, Norberto Zamora, membro do departamento de meios digitais da Comissão Nacional para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas (CDI), assegurou à Efe que o problema da conectividade em zonas rurais continua sendo "grave".

"As regiões indígenas se caracterizam por estar em regiões dispersas, de difícil acesso, isoladas e dá uma ideia que inclusive levar a energia elétrica é muito complicado", afirmou Norberto, após assinalar que apesar disso o objetivo para o próximo ano é alcançar um total de 36 mil pontos de conexão em áreas rurais.

Segundo um estudo recente da Associação Mexicana da internet (Amipci), em 2011 houve 40,6 milhões de usuários da rede, o que representa 35% de uma população de 112 milhões de habitantes, um número que representa crescimento de 14% em relação ao ano anterior.

Além da conectividade, outro grande problema, segundo Zamora, é o da capacitação, pois é preciso certa "habilidade e conhecimento" para usar um computador, algo que não é simples para os mais velhos e inclusive para adultos de média idade.

Apesar das dificuldades, este especialista está otimista ao lembrar que existem ações integradoras concretas como o projeto da rede social Facebook de incluir a língua cakchiquel para a região maia e América Central, ou a decisão do buscador Google de introduzir em seus índices cem mil palavras em maia.

Para o diretor do Inali, Javier López, que além disso é indígena tseltal do município Oxchuc de Chiapas (sul do país), a internet é "uma janela de oportunidade" para que as línguas indígenas não só sejam preservadas, mas também sejam apresentadas ao mundo todo por meio do ciberespaço.

"Para nós é importantíssimo o uso das tecnologias para que se divulgue a riqueza do México, os sons particulares das línguas para que o povo vá se familiarizando com eles", assegurou.

Javier admitiu que existem "muitas dificuldades" na passagem das línguas para a internet, pois para começar é necessário trabalhar na normatização da escrita de muitas delas para que tenham representações gráficas de seus sons, de seus tons e de suas regras.

"Cada língua contém os marcos conceituais filosóficos de um povo, encerra uma maneira de se relacionar na vida e com a mãe natureza. Expressa toda uma bagagem de conceitos, de mundo, de questões que se expressam através da língua. A humanidade empobrece e todos nós empobrecemos se alguma desaparece", asseverou Javier.

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