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"A cultura sempre sofre, mas ainda é um bem comum", diz Nélida Piñon

EFE/Zipi
A escritora brasileira Nélida Piñón fala com a imprensa na Residência de Estudiantes, em Madri (24/9/12) Imagem: EFE/Zipi

Carmen Sigüenza

24/09/2012 13h11

Madri, 24 set (EFE).- A escritora carioca Nélida Piñon, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) e recém-nomeada Embaixadora Ibero-Americana da Cultura, afirmou nesta segunda-feira (24) que a cultura sofre com ou sem crise, mas ainda "é um bem comum, uma necessidade, o pão e circo (circo é arte), o pensamento e a vida".

Piñon é a protagonista do ciclo "Narrador em Residência", um programa que começa nesta terça (25) na Residência de Estudiantes - o templo da "idade de prata" da cultura espanhola, por onde passaram Juan Ramón Jiménez, Lorca, Dalí e Buñuel -, e que vai divulgar sua obra e aproximar seu trabalho dos jovens criadores.

Antes de iniciar sua oficina e as conversas sobre sua obra com os especialistas em literatura brasileira, Antonio Maura e Carmen Villarino, a autora teve um encontro com a imprensa para falar da crise, da criação, das novas tecnologias, de Carlos Fuentes e de sua última obra, "O Livro das Horas" (editora Record), que foi lançado recentemente e já é tido como um êxito.

Em relação a sua nomeação como Embaixadora Ibero-Americana da Cultura, realizada na última sexta (21), a autora de "A República dos Sonhos" e "Vozes do Deserto" assegurou estar encantada. "Sempre andei pelo mundo falando do Brasil, de Machado de Assis, é a minha paixão", declarou.

Sobre a criação, as novas tecnologias e seu mundo narrativo, no qual o tema da memória ocupa um espaço essencial, Nélida comentou que não possui nenhum preconceito contra o mundo digital, mas que também tem muito claro que a "internet não pode dominar a inteligência".

"Consulto a internet, me parece fantástica, mas não suficiente para abolir a grande tradição literária. A internet não aprofunda nos temas e não devemos deixar que o suporte domine sua inteligência", declarou a escritora, cujo pai é galego e a mãe é filha de imigrantes da Galícia.

Sobre a arte da criação, a escritora também está convencida de que os novos suportes não vão mudar a forma de narrar uma história.

"A arte de narrar vem de cada pessoa, cada pessoa tem a necessidade de contar sua pequena visão do mundo. Cada um tem que chegar a sua casa, no final do dia, com algo de novo. Se não tens uma pequena coisa para contar a cada dia é porque que não viveste. Tens que voltar para casa com um pequeno pedacinho de pão ou de queijo", brincou a autora.

E para escrever essa pequena "reinvenção" do mundo, Nélida diz que o suporte não importa muito, já que este não mudará o talento.

"O que pode mudar com a internet?", indagou a escritora, antes de responder: "Um verbo, determinar outra maneira de contar, suprimir o argumento? Não, não acho. Fica apenas a fatalidade de se seguir criando".

Antes de falar sobre seu livro, a escritora carioca também fez questão de exaltar o trabalho do escritor Carlos Fuentes, falecido no último mês de maio. "Era um intelectual completo. Tinha um saber clássico e, sobretudo, se deixava surpreender pelo cotidiano. Estava disponível ao modesto do cotidiano", afirmou Nélida.

Por último, a escritora falou sobre seu mais recente lançamento, "O Livro das Horas". "O título é muito significativo. É o livro das orações, por assim dizer um 'incunábulo', e a oração é o complemento do que a palavra está expressando.

"É um livro sobre a memória, que eu acredito que não seja somente individual, mas coletiva, já que se necessita do outro para refletir e, neste livro, eu reflexiono sobre o mundo, o amor, a morte e a desilusão", concluiu.

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