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Livro traz cartas inéditas mostrando um Kafka naturista e crítico da medicina

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O escritor checo Franz Kafka (1883-1924) Imagem: Reprodução

Gustavo Monge

09/06/2012 06h05

Um Franz Kafka cético em relação à alopatia e simpatizante de uma filosofia naturista é a faceta que as cartas inéditas do escritor tcheco revelam na compilação que acaba de ser publicada no livro "Zivot ve stinu smrti" ("Vida à sombra da morte").

As mensagens foram escritas pelo médico húngaro Robert Klopstock e pelo último amor de Kafka, a atriz polonesa Dora Diamant, e enviadas à família do autor de "O Processo" na época em que o autor estava internado no sanatório austríaco de Kierling e sua vida estava a ponto de se esvair devido à tuberculose.

"Ele era contra os remédios, os raios-X, as injeções. Era, inclusive, ingênuo no modo como usava meios humanos que não eram nocivos, mas que também não ajudavam", declarou nesta quarta-feira à Agência Efe o especialista em literatura alemã Josef Cermak, que publicou a coleção de cartas inéditas.

Nas cartas "há muitos dados desconhecidos", afirmou Cermak. "Evidenciam-se as duas opiniões. Kafka era adepto da medicina natural, seguindo o princípio de que aquilo que a natureza estraga, ela mesma pode consertar".

Por sua vez, "Robert Klopstock era partidário do conceito clássico de medicina - o que significa que tentava incessantemente realizar uma cirurgia", contou o especialista.

Além de aproximadamente 65 cartas já conhecidas que documentam a relação de amizade entre Klopstock e Kafka, o livro inclui 35 inéditas.

Kafka sucumbiu a uma tuberculose e, segundo Cermak, "Robert Klopstock o auxiliou muito como médico nos últimos meses de vida no sanatório austríaco de Kierling. Klopstock tratou Kafka de forma comovente, junto a sua namorada Dora".

O literato e Klopstock haviam sido internados simultaneamente antes no sanatório eslovaco de Tatranske Matliare, e ali chegaram a ficar íntimos, apesar de o húngaro ser 16 anos mais jovem que o autor de "A Metamorfose".

Kafka, exceto pelo escritor Max Brod e o círculo restrito a que pertencia o médico, "não se referia às pessoas pelo nome, e conseguir sua amizade, sua verdadeira amizade, não era fácil", afirma Cermak.

Após analisar em conjunto a correspondência escrita em dois anos de tratamento, ficou evidente para o estudioso a amizade sincera que cultivaram e que levou Klopstock a adiar seus estudos, por causa da situação turbulenta que Kafka enfrentava.

"Os dois tinham interesses comuns, eram filosóficos e teológicos. Porque esse judeu húngaro (Klopstock) tinha grande simpatia pelo cristianismo. E depois da morte de Kafka, se tornou protestante", afirmou Cermak, que reconstrói no livro algumas de suas conversas, na fronteira entre filosofia e religião.

Um pedido da família de Kafka a Cermak ainda nos anos 60, para publicar as cartas do escritor e de sua irmã Otilia, possibilitou a realização do trabalho.

"À época, a publicação foi frustrada pela chegada dos tanques soviéticos e a proibição de publicar textos de Kafka neste país", lembrou Cermak.

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