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Teatro de sombras do Camboja está prestes a desaparecer

30/07/2011 10h04

Laura Villadiego.

Phnom Penh (Camboja), 30 jul (EFE).- A arte ancestral de contar histórias de heróis e deuses por meio de sombras refletidas em uma tela, está se extinguindo no Camboja devido ao desinteresse por uma tradição que nos últimos anos passou a depender mais do turismo.

Formado por grandes figuras em couro que dançam ao som dos titereiros, o teatro das sombras cambojano nasceu como uma cerimônia real, e logo se tornou em uma tradição popular que serviu para homenagear os deuses e se comunicar com eles.

Segundo a lenda, esse tipo de marionete surgiu na época do Império de Angkor, entre os séculos 9 e 15, quando um servente do imperador pôs um tapete furado diante da luz enquanto limpava.

Fascinado pelas sombras que produzia, o servente desenhou as figuras do Reamker, um conto sobre um príncipe inspirado no livro hindu Ramayana, cujas aventuras ainda são encenadas no teatro tradicional cambojano.

Pouco a pouco acrescentaram novas narrativas, e se criou um variante de marionetes menores, cujos protagonistas são, na maioria das vezes, animais.

Os dançarinos, que imitam passos da dança clássica nacional, se transformam em uma figura mais teatral, mimetizados com silhuetas de couro em princípio estáticas sujeitas ao movimento.

Similar a outras tradições culturais, o teatro de sombras quase desapareceu durante a época do Khmer Vermelho (1975-1979) por causa da perseguição que o regime comunista exerceu sobre todo tipo de arte cênica e de seus artistas, que foram aniquilados.

Durante os últimos anos, dois teatros da cidade de Siem Reap, próxima aos templos de Angkor, e ouro da capital, Phnom Penh, fizeram de tudo para que esta tradição perdure, focando suas funções no setor turístico.

Contudo, a afluência de visitantes minguou. A partir de 2008, ano em que o conflito armado reacendeu com a vizinha Tailândia pelo templo fronteiriço de Preah Vihear, se notou a repercussão da crise financeira internacional.

Mesmo o turismo apresentando uma gradativa recuperação, os dados do Ministério do Turismo cambojano mostraram que os turistas gastam cada vez menos em suas viagens e também têm encurtado sua estadia no país.

"Os últimos anos foram terríveis. Este ano parece que está um pouco melhor, mas ainda não é suficiente para manter-nos", afirma Man Kosal, diretor do Sovanna Phum, o único teatro de sombras da capital cambojana.

A crise provocou, além disso, um corte da ajuda que recebiam das organizações internacionais, o que os obrigou a suspender as excursões que realizavam por povos do interior do Camboja a fim de fomentar a arte.

"Os cambojanos não podem pagar o preço da entrada, portanto, para eles o espetáculo é de graça", disse Sovanna, também dançarino e artista.

A beleza e o valor de cada marionete também dificultam a expansão do teatro das sombras, já que a elaboração de cada um dos mais de 70 fantoches requer dois anos de trabalho e podem custar US$ 20 mil, uma quantia muito considerável na empobrecida Camboja.

"Levo cerca de um mês para fazer apenas o desenho, dependendo do tamanho, sem contar a secagem e o tratamento prévio do couro", afirma Khim Meak, um artista que há nove anos transforma a pele curtida nas mais incríveis figuras.

O Apsara, a dança real cambojana, também ofuscou as outras atividades artísticas, por isso que frequentemente o teatro se mistura com o baile tradicional para atrair mais visitantes.

"As pessoas preferem a dança porque há vestidos lindos e máscaras. Não sei que futuro reserva ao teatro das sombras já que as pessoas quase não o conhecem", afirma Men Siphaneth, um jovem de 23 anos que dá vida às figuras com seus movimentos graciosos.

Para se adaptar aos novos tempos, os espetáculos de Sovanna Phum introduzem temas mais atuais e recursos visuais, como bailes contemporâneos que se inserem no meio das representações.

"Nossa sobrevivência depende da capacidade que temos de contar aos cambojanos de hoje coisas que ainda os interessam", conclui o diretor do teatro.

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