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Do templo ao palco, danças clássicas indianas sobrevivem ao tempo

01/03/2011 10h04

Shilpi Singh.

Nova Délhi, 1 mar (EFE).- Da sua origem nos templos dedicados aos deuses à apresentação nos palcos de toda a Índia, as danças clássicas indianas cruzaram séculos de transformação e enriquecimento e contam com fãs apesar da pujança dos bailes de Bollywood e os ritmos latinos.

A Índia conta com sete danças clássicas cuja origem está documentada no tratado de artes cênicas "Natya Shastra", compilado entre o ano 200 a.C. e 200 d.C.

As danças bharatnatyam, odissi, kathakali, mohiniattam e kuchipudi nasceram nos estados do sul do país, enquanto o kathak provém do estado ao norte de Uttar e o manipuri da região oriental de Manipur.

A maioria dos bailes clássicos nasceram nos templos, com a mitologia e a devoção aos deuses como temas principais, e suas dançarinas tinham de viver presas nele, sem direito a casar-se; só viam o mundo exterior quando participavam de celebrações religiosas.

As danças clássicas, como toda a cultura indiana, viveram um renascimento no calor da independência em 1947.

"Os bailes clássicos indianos têm grande importância e relevância na sociedade indiana graças a sua capacidade inerente de adaptar-se aos novos tempos", disse à Agência Efe uma das dançarinas mais famosas da Índia, Sonal Mansingh.

Professora de bharatnatyam e odissi, Mansingh explicou que, embora os temas continuem sendo mitológicos, "as mensagens que transmitem podem ser muito relevantes" no mundo, o que está ligado "à criatividade e à interpretação dos dançarinos".

"Fazemos uma peça na qual o deus Krishna luta pela proteção de um rio sagrado, que reflete a necessidade de proteger o ambiente. O ambiente, a poluição, o aquecimento global são todos temas de atualidade", expôs.

Condecorada com a segunda mais alta honraria civil da Índia, o Padma Vibhushan, Mansingh se mostrou otimista sobre o crescimento da importância e as oportunidades para os bailes clássicos, embora tenha criticado que muitos vejam em seu renascer somente um negócio.

Falta a paixão e a concentração necessária às gerações de hoje para a bela arte clássica. Por sua "grande dependência das máquinas", estão acostumados com tudo fácil e "falta de coordenação entre o corpo e a mente" que é essencial para estas danças.

Além de difíceis por suas posturas intrincadas e dolorosas, as danças clássicas requerem grande conhecimento teórico de música e dos "mudras" - gestos das mãos utilizados para comunicar um significado ao público - assim como dos característicos movimentos de olhos, supercílios e das bochechas.

"Dos pés à cabeça, cada articulação, cada nervo, tem de estar sob controle. Sei que é difícil", admitiu à Efe outra especialista do bharatnatyam, Kanaka Srinivasan, vencedora do Prêmio Padma Shri.

Srinivasan destacou que na atualidade é difícil para as meninas indianas dividir o tempo entre os estudos e a aprendizado de uma dança que é "exige muito", mas comemorou o fato de "cada vez mais haver jovens interessadas".

Apesar das dificuldades, a jovem Rathi Balasubramanian dedicou anos de vida - desde os sete - a dominar o bharatnatyam, que considera "um modo muito bom de conectar-se com deus, louvar e pedir bênçãos", assim como um meio de usar belas joias e vestir roupas "atraentes" nas apresentações em público.

A jovem, que apresentou espetáculos em países como Peru, Colômbia e Brasil e, há poucos dias, em Délhi, admitiu que na Índia a maioria dos jovens "pensa que a música neste tipo de dança é muito lenta" e "sente que outras formas de dança são mais divertidas".

Barkha Tanvir, dançarina de odissi, demonstrou otimista sobre o futuro da dança clássica.

"Eu acho que está de moda hoje em dia. Igual pelas atrizes, que primeiro aprenderam danças clássicas e agora dançam muito bem em Bollywood", disse à agência Efe Tanvir.

Para a dançarina, muitas meninas aprendem danças clássicas para conseguir flexibilidade e ter uma base para passar a outras formas modernas "como o molho, porque é mais ocidental, e Bollywood, porque é mais popular".

Sua companheira Medha Batta ressaltou o fato de as pessoas "preferirem as danças modernas porque são mais fáceis de entender. Os clássicos precisam de muito tempo e conhecimento".

Como outras fãs das danças clássicas, Batta desistiu de continuar a carreira profissional com o odissi e continua dançando por hobby.

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