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Projeto de pesquisa discute o kitsch da arte cultuada pelos nazistas

Deutschewelle
'Família de agricultores de Kalenberg', por Adolf Wissel (1939) Imagem: Deutschewelle

30/10/2011 20h43

Na "Grande Exposição Alemã de Arte" do nacional-socialismo, procura-se em vão pelo bizarro, desfigurado ou abstrato. As obras de mestres do Moderno como Otto Dix, Ernst Barlach, Franz Marc, Karl Schmidt-Rottluff ou Oskar Schlemmer já haviam sido difamadas pelos nazistas sob o rótulo de "degeneradas", imediatamente após a tomada do poder, em 1933. Todas elas foram eliminadas dos museus do país.

Quando, em julho de 1937, a famigerada mostra "Arte Degenerada" foi aberta pela primeira vez ao público, em Munique, foi inaugurada na Casa da Arte Alemã, na mesma cidade, a mostra paralela "A Grande Exposição Alemã de Arte". Segundo o catálogo da época, estaria sendo exibido ali "somente o melhor, o mais completo e o mais perfeito que a arte alemã pode oferecer".

Descoberta casual

Essas exposições nazistas foram detalhadamente documentadas até 1944. A coleção de fotografias resultantes desse processo de documentação permaneceu esquecida após a Segunda Guerra Mundial, arquivada durante décadas no Instituto Central de História da Arte (ZIK), em Munique.

"A existência dessas fotos não era conhecida, não se acreditava que seria possível ter havido uma documentação fotográfica dessas exposições", diz Christian Fuhrmeister, do ZIK. Somente a partir de 2004 é que os álbuns foram sendo redescobertos. Rapidamente, o pesquisador e sua equipe verificaram que se tratava de imagens da "Grande Exposição Alemã de Arte" e assim surgiu a ideia de desenvolver um projeto de pesquisa a respeito.

Heróis e natureza morta

Até hoje, sobretudo os homens musculosos e heróicos e as mulheres de plástico de Arno Beckers encarnam a imagem-símbolo da estética nazista. Muitas outras pinturas, desenhos e material impresso também glorificavam a ideologia dos nazistas.

Após o início da Segunda Guerra Mundial, imagens de soldados marchando ou em combate podiam também ser vistas nessas exposições, explica Christian Fuhrmeister: "Esses trabalhos existiam, mas eram, todavia, 10 ou 30 imagens entre as 1.800 guardadas. Os temas que estavam principalmente representados eram aqueles que correspondiam ao gosto burguês ou pequeno-burguês dominante no fim do século 19", diz ele. Alguns exemplos são as imagens de paisagens naturais, naturezas mortas e reproduções de animais na tela.

Imagem ideal para o sistema

Segundo Fuhrmeister, nas infindáveis vitrines das grandes salas dos museus também havia peças de artesanato, pequenos objetos, cabeças de criança e cães da raça pastor alemão em porcelana, bem como outros objetos hoje considerados quinquilharia ou de gosto duvidoso. Esses objetos expostos estavam também à venda, embora não sobrasse muita coisa para o cidadão comum.

"Sobretudo a elite de funcionários públicos comprava tudo. O próprio Hitler era, de longe, o maior comprador, tendo despendido sete milhões em marcos do Reich [a moeda da época] com obras de arte na mostra", observa Furhmeister. Era um tipo de arte que não só agradava Hitler, como também o havia inspirado em seus tempos de ex-pintor de cartões postais, o que reflete sua limitadíssima habilidade artística.

Debate acerca da arte nazista

Uma coisa fica clara quando se observa os álbuns da "Grande Exposição Alemã de Arte": a mostra não era dominada por imagens de homens e mulheres jovens, alemães, musculosos, turbinados, loiros e de olhos azuis, mas sim por vários trabalhos grotescamente banais.

Assim, a estética "bela" de Hitler é hoje considerada como uma arte rude, retrógrada e pequeno-burguesa de extremo mau gosto. Christian Fuhrmeister ressalta ainda que as fotografias agora publicadas da exposição levantam novos questionamentos a respeito da arte cultuada pelos nazistas, como por exemplo a dúvida se pinturas de paisagens podem ter um caráter político e o que diferencia uma paisagem montanhosa de uma pintura nacionalista e racista. O projeto de pesquisa dá o primeiro impulso em busca dessas respostas.

Autor: Klaus Gehrke (sv)
Revisão: Mariana Santos

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