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Colecionador alemão se dedica à arte proscrita

Peter Kolakowski (ca)<br>Revisão: Augusto Valente

31/01/2011 10h10

Obras de arte que não se adequavam às ideias de líderes políticos foram destruídas ou desapareceram para sempre nos arquivos. Um comerciante de antiguidades decidiu ir à procura e encontrou diversas preciosidades.

Tudo começou em 1985, quando o comerciante de antiguidades Gerhard Schneider se deparou com o espólio do pintor Valentin Nagel. Ele ficou fascinado pela individualidade de seu vocabulário formal expressivo-cubista, mas não encontrou nenhuma informação sobre o artista na literatura especializada ou enciclopédica. Caso não tivessem sido encontrados documentos como uma carteira de estudante da Escola de Artes Hans Hoffmann, Munique, de 1928, a obra e o nome do artista teriam ficado esquecidos para sempre.

  • Gerhard Schneider

    Pintor quase desconhecido: Valentin Nagel, 'Oficial italiano'

A princípio, Schneider considerou a falta de notoriedade do artista como um acaso. Porém, após tomar conhecimento do livro A arte da geração perdida, que o historiador da arte de Marburg Rainer Zimmermann escreveu sobre artistas proscritos, o tema não saiu mais de sua cabeça. Sua casa se transformou cada vez mais numa galeria para a arte que ninguém devia ver, só porque era a vontade dos governantes.

As obras de arte que Schneider encontrou e comprou ao longo dos anos valem agora milhares de euros, totalizando uma coleção de valor inestimável, com destaque para a arte alemã e europeia.

Exemplo mais conhecido: nazismo

O tema da arte banida é relacionado principalmente ao nazismo. Foram justamente artistas do Expressionismo – como August Macke ou Max Ernst – que promoveram o reconhecimento mundial da arte alemã, no início do século 20. O princípio de criação do Expressionismo utilizava a linguagem formal reduzida ao essencial. Mas foi precisamente essa arte, considerada hoje como forma de expressão "tipicamente alemã", que os nazistas difamaram como "semitização" da arte alemã, acusando-a de "degenerada" e proibindo-a.

Através de censores da arte contratados pelo regime, os nazistas ordenaram que museus e galerias públicas se libertassem dessa "imundície artística". Em assim chamadas "exposições da vergonha", foram difamados artista e obra. O ápice dessa barbárie cultural foi a exposição Arte degenerada de 1937, realizada em Munique.

"Somente de museus alemães e galerias públicas, os nazistas confiscaram mais de 20 mil obras de arte 'degeneradas' de cerca de 1.400 artistas. Uma pequena parte dessas obras foi vendida a preços irrisórios no mercado internacional. E a maior parte tem de ser considerada hoje desaparecida ou destruída", informa Gerhard Schneider. Mas governantes que decidiam segundo o próprio gosto o que as pessoas poderiam ou não ver, já existiam antes, e existem até hoje.

Intervenções não somente em ditadura

  • Gerhard Schneider

    'O vencedor', 1937, de Georg Netzband, faz parte do acervo de Schneider

As últimas obras de arte pesquisadas por Schneider remontam à recente história da Alemanha. Também na Alemanha dividida, a arte continuou a ser influenciada politicamente. A arte não figurativa foi instrumentalizada no Ocidente contra o "Realismo socialista" do Leste. Este, por sua vez, obrigava os artistas a colocar seu trabalho a serviço da ideologia comunista e do fomento da sociedade socialista. Aqueles cuja obra não correspondia a essas normas, eram classificados como "representantes da arte em decomposição do capitalismo".

"Tanto no Leste quanto no Oeste houve duras intervenções na cena artística, já que ali colidiam duas visões diferentes do mundo", disse Schneider. "Os artistas só acataram essas imposições até certo ponto, e conseguiram, em parte, impor de forma admirável o próprio estilo, até muito recentemente. Como, por exemplo, Irmgart Wessel-Zumloh ou Wilhelm von Hillern-Flinsch."

  • Gerhard Schneider

    Gerhard Schneider

Há muito que a procura de obras de arte proscritas se tornou uma tarefa de vida para Gerhard Schneider. Tal busca tem por objetivo guardar e apresentar essas obras às próximas gerações. No final de janeiro, Gerhard Schneider conseguiu realizar um sonho de vida: com apoio público, abriu o Centro de Arte Proscrita, em Solingen, no Oeste da Alemanha.

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