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Autobiografia rara em árabe conta história de intelectual muçulmano capturado na África e vendido como escravo nos EUA

YALE UNIVERSITY LIBRARY via BBC
Imagem: YALE UNIVERSITY LIBRARY via BBC

Alessandra Corrêa - De Winston-Salem (EUA) para a BBC News Brasil

2019-01-23T08:31:20

23/01/2019 08h31

Autobiografia de Omar Ibn Said é a única feita por um negro escravizado escrita em árabe nos Estados Unidos de que se tem conhecimento, segundo especialista.

Omar Ibn Said era um intelectual muçulmano de família rica que vivia na África Ocidental quando, no início do Século 19, a região onde morava foi invadida por um exército inimigo que matou grande parte da população. Ibn Said sobreviveu, mas foi capturado, vendido como escravo e transportado em um navio negreiro aos Estados Unidos, onde morreu em 1863, com mais de 90 anos, em meio à Guerra Civil que levaria à abolição da escravidão.

Em 1831, Ibn Said narrou sua trajetória, desde a vida como estudioso na África até os anos de trabalho forçado no sul dos Estados Unidos, em uma autobiografia escrita em árabe e depois traduzida para o inglês. Neste mês, a Biblioteca do Congresso anunciou a aquisição do manuscrito e de outros 41 documentos relacionados, que estão disponíveis para consultas online.

"Essa coleção rara é extremamente importante, porque a autobiografia de Omar Ibn Said é a única autobiografia de um escravo escrita em árabe nos Estados Unidos de que se tem conhecimento", diz a chefe da divisão de África e Oriente Médio da biblioteca, Mary-Jane Deeb.

A maioria dos escravos no país não sabia ler nem escrever, e pouquíssimos americanos na época tinham conhecimento de árabe. Deeb ressalta que, ao contrário de relatos de outros escravos escritos em inglês, o texto de Ibn Said não foi editado por seus donos. "Por isso, é mais autêntico", salienta.

"É um importante documento que atesta para o alto nível de educação e a longa tradição de cultura escrita que existia na África na época. Também revela que muitos africanos trazidos aos Estados Unidos como escravos eram seguidores do Islã, uma religião abraâmica e monoteísta. Isso contradiz suposições anteriores sobre a vida e a cultura africana", destaca.

Estudo e esmolas aos pobres

O relato tem 15 páginas e o título (traduzido do inglês) "A vida de Omar ben Saeed, chamado Morro, um Escravo Fula em Fayetteville, NC" (Carolina do Norte).

YALE UNIVERSITY LIBRARY via BBC
Página da autobiografia de Omar Ibn Said, escrita em árabe Imagem: YALE UNIVERSITY LIBRARY via BBC

Ibn Said conta que nasceu em Futa Toro, em uma região ao longo da bacia do rio Senegal, em uma família da etnia fulani. Seu pai era um homem rico que tinha seis filhos e cinco filhas. Ele diz que sua mãe tinha três filhos e uma filha, o que, segundo Deeb, significa que seu pai tinha mais de uma esposa.

O pai de Ibn Said foi morto em uma guerra tribal quando tinha cinco anos, e ele e o resto da família se mudaram para outra cidade. Ele conta que estudou em Bundu, onde hoje é o Senegal. "Eu continuei buscando conhecimento por 25 anos", escreve.

Ibn Said diz que era seguidor de "Maomé, o Profeta de Deus", rezava cinco vezes por dia e fez peregrinação a Meca. "Eu costumava doar aos pobres", escreve. "Todo ano em ouro, prata, colheita, gado, ovelhas, cabras, arroz, trigo e cevada, tudo eu costumava doar."

No início do Século 19, Ibn Said voltou à região onde nasceu. Ele permaneceu lá por seis anos, até que, em 1807, um "grande exército" invadiu a região e "matou muitas pessoas". Calcula-se que ele tinha em torno de 37 anos na época.

'Grande mar' e vida como escravo

Após ser capturado, Ibn Said conta que foi vendido a um homem que o levou a "um grande navio no grande mar". A travessia no navio negreiro da África até os Estados Unidos durou um mês e meio. Ele desembarcou em Charleston, na Carolina do Sul, por onde passavam grande parte dos africanos levados como escravos aos Estados Unidos.

Ibn Said revela que foi comprado por "um homem pequeno e cruel, que não temia a Deus", chamado Johnson. Ele fugiu depois de um mês e conseguiu chegar até Fayetteville, na Carolina do Norte, onde foi recapturado e passou 16 dias preso. Foi então comprado por James Owen e seu irmão John Owen, futuro governador da Carolina do Norte, com quem permaneceu pelo resto da vida.

Ibn Said descreve os Owen como "homens bons". "O que quer que eles comem, eu também como, e o que quer que eles vestem, eles me dão para vestir", escreve. Mas ele morreu como escravo.

Documentos da época mostram que Ibn Said ganhou dos donos uma cópia do Alcorão em inglês e, posteriormente, uma Bíblia em árabe, e que se converteu ao cristianismo.

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Imagem: Getty Images via BBC

Segundo o Departamento de História Cultural da Carolina do Norte, Ibn Said era conhecido por vários nomes, como Omar, Umar, Umaru, Omaroh, Morro, Monroe e Moreau, e ganhou notoriedade como um dos escravos com maior nível de educação no Estado, sendo tema de artigos em jornais e revistas da época.

Deeb observa que a erudição e o refinamento de Ibn Said chamavam a atenção daqueles que o conheceram, e sua história aparece em artigos da época sobre sua fluência em árabe e a conversão ao cristianismo.

História complexa

Deeb diz que Ibn Said escreveu o texto a pedido de um homem a quem se refere como "Xeque Hunter". O manuscrito acabou depois nas mãos do abolicionista Theodore Dwight, um dos fundadores da Sociedade Etnológica Americana.

A coleção que está na Biblioteca do Congresso foi reunida por Dwight e inclui sua correspondência com indivíduos que traduziram e estudaram o relato de Ibn Said, além de outros documentos em inglês e árabe.

Segundo Deeb, o objetivo de Dwight com a autobiografia de Ibn Said e sua tradução, ressaltando o alto nível de educação e o monoteísmo do autor, era enfraquecer os argumentos que justificavam a escravidão nos Estados Unidos. Dwight também queria aprofundar o conhecimento dos americanos sobre os povos e a cultura da África Ocidental.

Os documentos passaram por diversos donos até chegar às mãos do colecionador Derrick Beard e, em 2017, serem adquiridos pela Biblioteca do Congresso, onde as páginas frágeis do manuscrito receberam um longo tratamento e foram reforçadas por especialistas em conservação antes de serem colocadas em exposição.

"Essa coleção é uma ferramenta formidável para pesquisa sobre a África nos séculos 18 e 19 e vai jogar luz sobre a complexa história da escravidão nos Estados Unidos", afirma a diretora da biblioteca, Carla Hayden.

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