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"A Favorita": Quem foi Anne, a rainha da Inglaterra que "consertou desastre" e inspira filme cotado ao Oscar

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Olivia Colman em "A Favorita" Imagem: Divulgação

Katharina Schoffmann - Da BBC News

20/01/2019 10h39

Em 12 anos de reinado, a rainha Anne viu a unificação da Escócia e da Inglaterra, o que fez dela a primeira rainha da Grã-Bretanha na história.

A atriz britânica Olivia Colman ganhou recentemente o Globo de Ouro por sua interpretação da rainha britânica Anne no filme "A Favorita", lançando luz sobre a personagem real por trás do longa metragem.

Apesar de o que o filme diz, a rainha Anne não tinha uma coleção de 17 coelhos.

Tampouco há evidências de que ela tivesse um relacionamento homossexual.

A obra cinematográfica chama a atenção, no entanto, para uma monarca britânica muitas vezes ofuscada na história do país.

Por que Anne foi importante?

O reinado relativamente curto da rainha Anne (1702-1714) é muitas vezes visto como um parêntese na história. Isso é um erro, afirma Sebastian Edwards, curador da fundação Historic Royal Palaces, organização dedicada à conservação dos palácios reais britânicos.

"Ela limpou a bagunça deixada pelos homens e não recebe muitos agradecimentos ou créditos por isso", diz. "Se você está procurando lideranças femininas fortes, não poderia encontrar uma melhor (do que Anne) em momento de crise."

Ela assumiu o poder depois de duas trocas de comando: O pai de Anne, James 2º (e 5º na Escócia), foi rei por três anos até ser deposto pela Revolução Gloriosa de 1688. O trono ficou com a irmã dela, Mary e o marido holandês desta, Guilherme de Orange. Na ausência de filhos do casal, Anne foi sua herdeira, tornando-se rainha em 1702.

A importância de Anne para a história do Reino unido se deve a que, nos seus 12 anos de reinado, ocorreram a unificação da Escócia e da Inglaterra - o que fez dela a primeira rainha da Grã-Bretanha na história - e o desenvolvimento do sistema bipartidário que vigora até hoje na política de lá.

Apesar de ter engravidado pelo menos 17 vezes, nenhum de seus filhos sobreviveu até a idade adulta, o que levou ao fim da sua linhagem (a Casa de Stuart), ao Ato de Estabelecimento de 1701 decreto que garantiu a sucessão protestante do trono inglês, e à transição pacífica de poder para a Casa de Hanover.

Hannah Greig, a consultora histórica do filme "A Favorita", diz que a película "capta com precisão a essência da política da época" com os partidos liberal (os whigs) e conservador (os tories) disputando poder.

"Muitos de nós crescemos comprometidos com uma narrativa de que as mulheres foram excluídas do poder até a longa e difícil luta pelo sufrágio do século 20", afirma Greig à revista "BBC History". "Durante alguns anos, durante o reinado da rainha Anne, as mulheres dominaram a arena política."

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Em 12 anos de reinado, Anne viu a unificação da Escócia e da Inglaterra, o que fez dela a primeira rainha da Grã-Bretanha na história Imagem: Getty Images via BBC

E isso aconteceu dentro e fora do palácio.

Após observar como a política se desenrolava na corte, o escritor Daniel Defoe, autor do livro "Robinson Crusoé", declarou que "a nação estava particularmente com ciúme das favoritas" da rainha.

As "favoritas" eram Sarah Churchill, duquesa de Marlborough, e Abigail Masham, a baronesa Masham. E elas definiram a trajetória do reinado.

Sarah Churchill

Quando Anne chegou ao trono, em 1702, Sarah Churchill, sua amiga e confidente desde a infância, se beneficiou.

A rainha fez todo o possível para que Churchill e seu marido, um herói de guerra, fossem rapidamente promovidos a duque e duquesa de Marlborough.

Como rainha, Anne concedeu à duquesa os mais altos postos disponíveis para uma mulher na corte, de modo que Churchill era encarregada de administrar a propriedade, a vida pessoal e as finanças da monarca.

Mas a duquesa tinha uma paixão pelo governo e uma forte convicção política.

Naquela época, havia duas grandes facções políticas - os whigs e os tories - competindo pela influência sobre a monarca, que tinha o poder de contratar e demitir governantes e vetar políticas.

A duquesa de Marlborough era whig e usou sua influência para facilitar ou impedir o acesso ministerial à rainha, além de persuadi-la a apoiar a participação ativa da Inglaterra na Guerra de Sucessão Espanhola.

Mas a rainha não era uma marionete, e o papel de favorita da corte não era vitalício.

Logo, as disputas sobre política e assuntos de Estado provocaram um racha entre as amigas, e a situação foi agravada pelo surgimento de Abigail Masham.

Abigail Masham

Masham chegou à corte por intermédio de Sarah Churchill e usurpou seu lugar.

Nas palavras do duque de Shrewsbury, "ela poderia fazer a rainha ficar de cabeça para baixo se quisesse".

Como a duquesa, ela tinha uma forte inclinação política... mas para o partido Conservador.

A despeito da longa amizade, em 1711, a rainha privou Sarah Churchill de todos os cargos oficiais que ocupava. A duquesa, por sua vez, levou tudo que havia em seus aposentos quando partiu.

A controversa novela que foi a relação entre Anne, Churchill e Masham fascinava os contemporâneos e desde então tem intrigado os historiadores.

Anne era lésbica?

No filme, a rainha Anne tem duas amantes: Sarah Churchill e Abigail Masham.

Edwards afirma que, apesar dos rumores de Anne ser gay, não há provas contundentes disso.

Greig também não tem tanta certeza. Mas ela acredita que a hipótese não é tão improvável quanto alguns podem imaginar.

E os coelhos?

No filme, a rainha tem 17 coelhos de estimação, que, segundo Greig, representam seus 17 abortos espontâneos, bebês natimortos e filhos que morreram ainda na infância.

Para a especialista, os coelhinhos são uma representação emocional disso - e uma maneira inteligente de contar sua história pessoal.

A rainha também sofreu problemas de saúde ao longo da vida, atribuídos geralmente à gota (doença que causa fortes dores nas articulações e pode causar artrite aguda).

Edwards diz, no entanto, que o quadro era mais complexo - hoje ela seria considerada uma pessoa com deficiência, segundo ele.

Por que ela não é mais conhecida?

De acordo com Greig, a culpa é de sua ex-amiga e confidente Sarah Churchill.

A consultora do filme afirma que ela "não poupou esforços para tentar girar a roda da história e manchar seu passado".

Por quê? Não sabemos ao certo - mas a política provavelmente foi um fator determinante.

Greig diz que a ambição da duquesa de Marlborough era transformar a corte (onde reside a família real e os conselheiros) em um espaço político - mas a rainha Anne queria uma monarquia mais equilibrada, em que todas as partes estivessem representadas.

O que Olivia Colman acha dela?

Em entrevista, Colman disse que simpatizava com a rainha Anne. "Há tanta tristeza em seu passado que ela deve ter sido muito solitária", declarou.

A atriz disse, no entanto, que achou mais difícil interpretar a atual rainha Elizabeth 2º, na série "The Crown", do Netflix, porque "todo mundo sabe como ela é, todos sabem como ela fala".

Mas afirmou estar "orgulhosa" de dar vida à monarca do século 18 e apresentá-la ao público do século 21.

"Ela deve ter tido uma força extraordinária", acrescenta.

"Acho que ela queria ser vista como uma boa rainha, mas simplesmente não teve confiança para fazer isso. Nunca a vi como patética. Estou muito orgulhosa dela."