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Como Agatha Christie influenciou a forma como o mundo vê os ingleses

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A escritora Agatha Christie Imagem: Reprodução

2019-01-18T18:19:07

18/01/2019 18h19

Para muitos, Agatha Christie é tão tradicionalmente inglesa quanto o chá das cinco. Mas como romancista que mais vendeu livros na história, sua reputação vai muito além do Reino Unido. Suas obras são consideradas tão fáceis de ler, que ela é uma das autoras preferidas de quem está aprendendo inglês.

Christie também é, de longe, a autora mais traduzida no mundo. Além de assimilar a língua inglesa por meio de seus livros, muita gente acaba aprendendo também sobre o povo inglês em suas narrativas.

Isso fica claro, por exemplo, nos livros da autora da série educativa English Readers, da editora Collins, em que notas culturais explicam tópicos como a vida nos vilarejos ingleses e o ditado "no smoke without fire", que seria o equivalente a "onde há fumaça, há fogo".

Catherine Brobeck e Kemper Donovan apresentam o podcast "All About Agatha", que tem o objetivo ambicioso de discutir e classificar todos entre os mais de 60 romances da escritora. Para Brobeck, Christie não foi apenas a primeira autora para adultos por quem se interessou de verdade, mas sua primeira grande exposição à cultura inglesa.

"Claro que isso influencia a sua ideia do que é ser inglês", diz ela. Se Agatha Christie continua a influenciar o imaginário dos leitores a respeito dos ingleses, o que será exatamente que eles estão aprendendo? A versão dos ingleses apresentada por Christie é "lúdica, em vez de sombriamente realista", diz Sabine Vanacker, professora de inglês da Universidade de Hull, na Inglaterra.

Tal como acontece com outros romances policiais clássicos, os cenários e a caracterização dos personagens exigem alguma licença poética - inclusive elementos de caricatura. Na realidade, é claro, nem todos os vilarejos britânicos têm um vigário gentil, um coronel malvado, um advogado inseguro e um médico brilhante - tampouco tantos assassinos. Há também uma surpreendente falta de pubs em suas histórias.

Mas nem toda interpretação dos ingleses de Christie é fantasiosa. "A autodepreciação para mim é o que realmente aparece", diz Donovan. Ele vê algo particularmente inglês no modo como Christie, por meio de sua narrativa ou personagens, lança mão de um humor seco, muitas vezes negro. No conto Triângulo de Rhodes, por exemplo, ela escreve sobre uma mulher inglesa no exterior: "Ao contrário da maioria dos ingleses, ela era capaz de falar com estranhos à primeira vista, em vez de esperar de quatro dias a uma semana para fazer a primeira investida cautelosa, como é o costume britânico."

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Capa do livro "Assassinato no Expresso Oriente", de Agatha Christie Imagem: Reprodução

Esse tipo de humor fazia parte da personalidade da escritora, diz Janet Morgan, autora de uma biografia oficial de Agatha Christie. Segundo ela, Christie "era uma pessoa muito bem-humorada... Ela se divertia com a vida, com os seres humanos e com a forma como se comportavam". É possível observar isso em A Casa do Penhasco, quando o ajudante de detetive capitão Hastings, que simboliza o jeito de ser inglês, hesita diante de uma tese elaborada por Hercule Poirot, o vaidoso detetive belga que é o personagem mais famoso de Christie. Na opinião de Hastings, a teoria era "muito melodramática". "Algo nada típico de um inglês, não é? Concordo. Mas até os ingleses têm emoções", responde Poirot.

Assim como os outros personagens estrangeiros nas obras de Christie, Poirot chama a atenção para os estereótipos ingleses. A autora atribui certas características a seus personagens de diferentes nacionalidades. Os franceses são impetuosos, enquanto os escoceses são parcimoniosos e os australianos, simples. Christie, que gostava de viajar tanto antes quanto durante seu casamento com um arqueólogo, usa uma abordagem incisiva (mas, às vezes, xenófoba) para representar todos eles. Os ingleses não são poupados.

Uma passagem de Cartas na Mesa, que zomba gentilmente do provincianismo inglês, diz: "Todo cidadão inglês de boa cepa ao enxergá-lo desejava com intensidade e fervor acertar-lhe um pontapé!". Se o Sr. Shaitana era argentino, português, grego ou de alguma outra nacionalidade profundamente desdenhada pelo insular bretão, ninguém sabia.

"Christie sentiu a inquietação inglesa em relação aos estrangeiros na própria pele. Morgan conta que, durante uma viagem que Christie fez a Bagdá, "uma inglesa um tanto autoritária e arrogante quase tentou adotá-la". Christie conseguiu se livrar da aspirante a protetora e fugiu para o deserto.

Ela foi embora levando a inspiração para escrever sobre um tipo de personagem inglês que achava que situações estrangeiras eram assustadoras e que era preciso se proteger contra elas. Morgan diz que outra característica que Christie ironiza em seus personagens ingleses é a "convencionalismo que impedia as pessoas, por exemplo, de pensar que os empregados domésticos poderiam ter visto algo ou ser de fato o assassino".

Por exemplo, em "A Casa do Penhasco", Hastings defende um comandante inglês aparentemente honrado. Mas Poirot pontua: "Sem dúvida, imagino que você deva vê-lo como um homem muito correto. Felizmente, por ser estrangeiro, não tenho em mim nenhum desses preconceitos e posso conduzir esta investigação sem esse viés.". Poirot - que admite no fim de Tragédia em Três Atos exagerar no sotaque estrangeiro e na ostentação para que os ingleses não o levem a sério - também não tem o respeito pelo decoro que é inerente da representação dos ingleses de Christie.

O crime, na obra da autora, serve para chamar a atenção para a ordem social. A convenção e o decoro surgem não apenas nas descrições de Hastings, que acredita apaixonadamente nelas, mas também em outro personagem quintessencialmente inglês: Jane Marple, a idosa que mora na vila de St. Mary Mead. Como Anna Marie-Taylor escreve em "Watching the Detectives", "a marca para ser aceito em St. Mary Mead é ser inglês, o que é constituído de equilíbrio, senso comum, razoabilidade, simpatia, uma noção de fair play, tradição e habilidade para jardinagem. Essas qualidades são mais bem articuladas por Miss Marple".

A podcaster Brobeck diz que "Miss Marple é essencialmente invisível". Embora os personagens ingleses de Christie subestimem com frequência Poirot por causa de seu exotismo extravagante, eles costumam rejeitar Marple por ser mulher e pela idade. Assim como Poirot, Marple usa isso como uma oportunidade. "Isso permite que (Marple) entre em lugares na estrutura de classes que de outra forma não conseguiria", observa Brobeck.

A divisão de classes

De fato, a consciência de classe é a principal impressão de Brentech sobre os ingleses na obra de Christie. Essa questão permanece relevante mesmo várias décadas depois da morte da autora, embora grande parte da atual ansiedade inglesa em relação à questão de classe seja neutralizada de maneira tipicamente irônica.

Da revista masculina "Shortlist" que coloca celebridades umas contra as outras na seção Middle Class War ("Guerra de Classe Média", em tradução livre) a quase todos os jornais britânicos que fazem quiz para testar se você tem "classe", uma irônica obsessão por classes continua a figurar na sociedade inglesa. Os personagens de Christie estão constantemente revelando suas inquietações, assim como sua minuciosa percepção das relações de classe, com distinções que podem parecer desconcertantes para quem não é inglês.

AFP/Getty
A escritora Agatha Christie Imagem: AFP/Getty

Em Convite para um Homicídio, por exemplo: "A Sra. Easterbrook cumprimentou Phillipa Haymes com um pouco de cordialidade extra para mostrar que ela entendia que Phillipa não era realmente um trabalhador agrícola." Enquanto os personagens de Christie são em grande parte de classe média e muitas vezes privilegiados, a consciência de classe é uma característica de todos os grupos sociais em seu universo.

Em "Os Relógios", um empregado exaltado leva a polícia para a sala de jantar, em vez da sala de visitas, reconhecendo escrupulosamente seu status intermediário: nem como cavalheiros, nem plebeus.

De uma maneira geral, diz a professora Sabine Vanacker, Christie "questiona muito o jeito de ser dos ingleses". Em "Convite para um Homicídio", as angústias em relação à modernização de um vilarejo e à chegada de forasteiros, por exemplo, revela tensões sobre qual versão dos "ingleses" é autêntica. Isso continua a ser uma preocupação na Inglaterra.

Mas, em última análise, Morgan diz: "Algumas das coisas que Agatha Christie identificou estão presentes em todas as sociedades". Os cenários e paródias podem parecer específicos. Mas os temas e traços de personalidade permanecem universais. E a visão de Christie sobre as fraquezas não apenas dos ingleses, mas da natureza humana, é apenas uma pista para sua popularidade duradoura que vai muito além desta ilha.

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