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O que significa o gesto inspirado no K-Pop que Kim Jong-un tentou imitar em foto

DIVULGAÇÃO/CASA AZUL
Kim Jong-un tenta fazer um gesto sul-coreano que derreteu corações em Seul Imagem: DIVULGAÇÃO/CASA AZUL

Laura Bicker

BBC News, Seoul

24/09/2018 16h17

Na foto acima, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, tenta fazer um gesto sul-coreano que derreteu corações em Seul. Mas focar simplesmente na imagem faz perder de vista o que pode estar por trás. Para quem não sabe, esse é o símbolo do coração na Coreia - formado ao unir as pontas do polegar e do dedo indicador.

Tudo começou com um gesto feito por astros do K-pop, gênero musical originado na Coreia do Sul, para agradecer os fãs, e que se transformou na pose favorita para selfies no país. A fotografia foi divulgada por um porta-voz da Casa Azul, residência oficial do governo sul-coreano. Em entrevista coletiva, ele disse que Kim tentou fazer o gesto ao lado de líderes da Coreia do Sul.

"Como vocês fazem isso? Não estou conseguindo fazer o formato", teria dito Kim. Esse foi mais um dos momentos dignos de Instagram protagonizados pelo líder da Coreia do Norte durante a visita histórica do presidente do Sul ao país. Presenciamos um deles quando Kim e o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, atravessaram de mãos dadas a fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, na primeira cúpula entre os dois países desde 2007. E nas selfies que ele tirou ao percorrer os principais pontos turísticos de Cingapura, na noite anterior ao seu encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump.

Suavizando a imagem

Essas fotos que funcionam bem nas redes sociais levaram muitos cidadãos do Sul a descrever o líder norte-coreano no Twitter como incompreendido, ou até mesmo fofo. Os sul-coreanos encaram o gesto, realizado no sagrado e mítico Monte Paektu, como um sinal de que Kim está seriamente disposto a melhorar as relações entre as duas Coreias. É fácil ser influenciado pelas cenas de amizade explícitas que pipocam em nossas telas. Eu estava assistindo às imagens do Monte Paektu na sala de imprensa - e era difícil reconhecer Kim Jong-un como o "louco", "maníaco" e "cachorrinho doente" descrito por Trump no ano passado. O jovem líder estava rindo e brincando com Moon e a esposa. Todos trocaram apertos de mão à beira de um lago com águas cristalinas.

Foi um momento de união diante de uma bela paisagem, que seria impensável há um ano. "Tivemos um pequeno grupo hoje, mas no futuro próximo, esperamos que muitos sul-coreanos e expatriados possam vir para cá", disse o líder norte-coreano. "Devemos escrever outro capítulo da história entre o norte e o sul, refletindo nossa nova história neste lago celeste." Este é realmente o ditador assassino, dono de um arsenal nuclear, que dizem ser uma ameaça global? Poucos dias depois, a Casa Azul divulgou fotos de Kim Jong-un tentando fazer o coração. A fotografia foi idealizada para tocar o público sul-coreano para suavizar ainda mais sua imagem, à medida que começa a ganhar praticamente status de celebridade no Sul. Houve até uma sugestão de que as pessoas poderiam usá-la como protetor de tela.

Caminho difícil

O que não foi dito é que, com o estalar dos mesmos dedos, Kim poderia pôr um fim aos crimes contra a humanidade cometidos na Coreia do Norte. Com apenas uma ordem, ele poderia libertar dezenas de milhares de prisioneiros políticos dos gulags (campos de concentração), incluindo seis sul-coreanos, muitos dos quais são submetidos a trabalhos forçados.

Também não é mencionado que esse gesto tão amado pelas estrelas do K-pop é desconhecido nas ruas de Pyongyang, onde ouvir música sul-coreana é crime.
Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 2014, concluiu que o governo norte-coreano estava perpetrando "atrocidades indescritíveis" contra seu próprio povo em larga escala.

E, segundo o presidente da Comissão de Direitos Humanos, os crimes eram "surpreendentemente semelhantes" aos cometidos pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial - como execução, escravidão, inanição, estupro e aborto forçado. O próprio Kim é suspeito de ordenar o assassinato de seu meio-irmão, Kim Jong-nam, na Malásia, assim como a execução de seu tio, Jang Song-thaek, em 2013.

Mas não é popular falar sobre direitos humanos agora. Eu fiz alusão a alguns crimes atribuídos à Coreia do Norte no Twitter e recebi uma série de críticas provenientes do Sul. Fui acusado de ser estrangeiro, de jogar um balde de água fria no processo de paz e de não compreender o povo coreano. Um consultor sênior da Casa Azul reconheceu que as violações de Pyongyang são um "dilema fundamental". Eu conversei com ele durante a primeira cúpula entre as duas Coreias - e, segundo ele, eu fui o único entrevistador naquele dia a levantar a questão dos direitos humanos.

Agora não é hora de entrar nessas discussões, foi a resposta que recebi. "Se pressionarmos demais pelos direitos humanos, a Coreia do Norte vai considerar um ato hostil contra eles. Então, a paz estaria ameaçada", afirmou Moon Chung-ino, conselheiro da presidência sul-coreana. Segundo ele, era essencial construir a confiança entre os dois países primeiro.

O Norte emitiu alguns alertas. Semanas antes da primeira cúpula intercoreana, a imprensa estatal pediu às autoridades sul-coreanas que "se comportassem com discrição" e afirmou que criticar a situação de direitos do Norte equivaleria a "atirar uma pedra na frágil relação Norte-Sul".

Como resultado, as autoridades sul-coreanas não fizeram dos direitos humanos uma pauta importante nas reuniões. Também concordaram em interromper as transmissões de propaganda e distribuição de folhetos em sua fronteira. Em vez disso, o foco está em ajudar nas reformas econômicas que podem, no longo prazo, ajudar o povo norte-coreano. Para isso, o presidente Moon levou líderes empresariais para visitar Pyongyang. "Nos acostumamos tanto a pensar na Coreia do Norte como uma ameaça, que é preciso deixar de racionalizar para ver as possibilidades", escreveu o professor John Delury, da Yonsei University, na Coreia do Sul, no jornal The New York Times.

Ele destaca o sonho de Kim Jong-un de ser "um grande reformador econômico". Há certamente muitas evidências que comprovam isso. Kim vistoriou diversas fábricas neste ano - chegou a repreender funcionários por atrasos e outras falhas. Esta abordagem está começando a produzir alguns resultados.

Mudança de rumo

Kim fez avanços diplomáticos com o presidente Moon. Se for totalmente implementado, o acordo de Pyongyang tem o potencial de colocar as duas Coreias no caminho da paz. Eles anunciaram o que equivale a medidas de controle de armas convencionais, incluindo ações conjuntas para reduzir os postos de guarda de fronteira e gerenciar as tensões ao longo da Zona Desmilitarizada que divide os dois países.

Kim concordou em permitir que especialistas internacionais assistam ao fechamento da instalação Tongchang-ri, também conhecida como a estação de lançamento de satélites Sohae, associada a vários aspectos dos programas espaciais e de mísseis balísticos do país.

O presidente Moon disse aos repórteres que Kim também estava disposto a permitir que especialistas verificassem a destruição de sua única base conhecida de testes de armas nucleares em Punggyeri. Mas há um elemento de teatralidade nessas reuniões que poderia dar aos espectadores a impressão de que a Coreia do Norte já está mudando e que está se abrindo lentamente. Não há evidências disso.

O Estado continua fechado - e seu povo não tem permissão para emitir opinião sobre o governo. Nem é autorizado a sair. A polícia secreta está sempre observando, segundo fontes que visitaram Pyongyang. A imprensa também não é livre. E os desertores continuam a documentar histórias de violações generalizadas de direitos humanos. "Refugiados norte-coreanos com contatos no Norte advertem que o ditador tem apresentado um rosto sorridente para o mundo, mas que ele vem reprimindo domesticamente", diz Casey Lartigue, cofundador e diretor internacional da Teach North Korean Refugees.

"O mundo pode vê-lo como um cara fofo sorridente, mas para os refugiados norte-coreanos, isso significaria que ele é um comediante com uma guilhotina."
"Qualquer norte-coreano que se aproximar da fronteira ou que desejar se comunicar com o mundo exterior sabe que a cabeça dele vai rolar", acrescenta. Todas as imagens da Coreia do Norte são rigidamente controladas. Eles só mostram o que querem que a gente veja. Kim Jong-un pode parecer fofo ao tentar fazer o coração coreano. Mas é trabalho dos jornalistas olhar com atenção para esta foto, por todos os ângulos. Mesmo que seja o que alguns sul-coreanos não querem ouvir.

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