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Resgate dos meninos em caverna na Tailândia: cineasta explica por que decidiu filmar a história

Divulgação/Ministério da Saúde da Tailândia
14.jul.2018 - Menino resgatado de caverna na Tailândia agradece a equipes de resgate no hospital Imagem: Divulgação/Ministério da Saúde da Tailândia

Ana Maria Bahiana

11/08/2018 18h45

"Corri o mais rápido possível, sempre senti muita falta de ver a Ásia realmente representada no cinema e na TV". Foi assim que o sino-americano Jon Chu, diretor e produtor de cinema, explicou à BBC News Brasil por que decidiu adquirir os direitos de filmagem da história dos meninos tailandeses e seu treinador, presos numa caverna por 18 dias entre junho e julho deste ano, e resgatados numa operação complexa que envolveu mais de 10 mil pessoas de diversas nacionalidades.

"Eu sou muito cuidadoso com a Ásia, com os povos e a cultura de lá, a ponto de ser superprotetor e ciumento," diz. 

Jonathan Murray Chu, 38 anos, nasceu Zh Hàowi em Palo Alto, Califórnia. Seu pai, Lawrence Chu - um dos chefs mais famosos do Vale do Silício, dono do restaurante Chef Chu's, frequentado pela elite da tecnologia - nasceu em Sichuan durante a Segunda Guerra Mundial e emigrou para os Estados Unidos, com a esposa, aos 20 anos.

"Eu sou americano e chinês", diz Jon. "Os dois lados são importantes para mim. Cresci jogando beisebol e basquete e falando inglês, mas, ao mesmo tempo, no restaurante dos meus pais, aprendendo a fazer pastéis ao vapor. Sou duas partes, dois mundos, e levo isso muito a sério."

Discovery/Divulgação
Documentário sobre resgate de garotos em caverna na Tailândia do Discovery Channel Imagem: Discovery/Divulgação

"Eu estava trabalhando nos últimos detalhes de Crazy Rich Asians (o mais novo filme dirigido e produzido por Chu, e o primeiro filme de Hollywood inteiramente protagonizado por asiáticos desde 1993, que estreia mundialmente a partir de 15 de agosto), quando chegaram as primeiras notícias do resgate", Chu conta. "Imediatamente (a história) me chamou a atenção, por todos os motivos. Ao mesmo tempo em que eu, como tantas pessoas mundo afora, me contorcia de ansiedade pelo destino dos meninos e do treinador, me admirava com o esforço de tanta gente de várias nacionalidades, focada em uma única tarefa - resgatá-los. Um lado meu, o lado que faz cinema, não parava de me dizer - isso é um filme."

Chu foi o segundo produtor a ir até a Tailândia em busca dos direitos de filmagem da história dos meninos, seu treinador e as pessoas-chave do resgate.

Mas ele faz questão de dizer que não foi motivado por ambição. "A preocupação que não saía da minha cabeça era - isso não pode virar mais uma história asiática contada por pessoas não-asiáticas. Essa é uma história tão forte, tão poderosa… não pode ser desperdiçada, jogada fora. Tem que ser contada direito, pelas pessoas certas."

Ao contrário de seu antecessor na disputa - a produtora independente Pure Flix, especialista em filmes religiosos cristãos -, Chu foi recebido pelo governo tailandês e teve acesso aos principais protagonistas do drama.

Michael Scott, um dos sócios da Pure Flix, vive na Tailândia, e sua esposa, tailandesa, era amiga do mergulhador que morreu durante as primeiras tentativas de resgate. Seu projeto pretende focar no trabalho dos socorristas, apelidados de "homens-rãs".

Jon Chu está interessado em todos os aspectos do drama. "É muito cedo para saber exatamente como o filme será", diz ele.

"Mas com certeza minha visão essencial é que essa é uma história da Tailândia. Não sei nem se eu sou a pessoa certa para dirigir esse filme. Um diretor tailandês seria o ideal. Quero estar envolvido, vou produzir, estou produzindo, mas quero o maior envolvimento possível de talento local."

O projeto chega num momento interessante da carreira de Jon Chu. Aluno exemplar de uma rigorosa escola do Vale do Silício, Chu continuou se destacando como estudante de cinema na prestigiosa University of Southern California, em Los Angeles. Seus dois curtas estudantis - os musicais Silent Beats e When The Kids Are Away ("sou louco por musicais, sempre fui") - receberam vários prêmios e lhe valeram um contrato de representação com a poderosa agência William Morris.

Reprodução
O diretor Jonathan Murray Chu Imagem: Reprodução

Chu produziu e dirigiu seu primeiro filme aos 29 anos - o musical Step Up 2 - e nunca mais parou. Entre séries de TV e web e seis filmes - inclusive um documentário sobre Justin Bieber, Believe - Chu agregou parceiros, apoiadores e a confiança do mercado, e criou sua própria produtora, a Ivanhoe Pictures, recentemente adquirida pelo grupo financeiro SK Global, com escritórios em Pequim, Los Angeles e Nova York.

"Crazy Rich Asians" é o primeiro filme dessa nova fase na já fulminante carreira de Jon Chu - "Eu me vejo apenas como alguém que pode fazer mais e melhores escolhas", ele diz, definindo não apenas a vitoriosa batalha pelos direitos do resgate na Tailândia, mas também o curioso cabo de guerra entre a Netflix e a Warner Bros. pelo financiamento e distribuição de Crazy Rich Asians (spoiler alert: a Warner venceu).

"Eu gosto muito da Netfix, acho que é o futuro de muitas coisas. É um poder imenso, e não tenho o menor problema em trabalhar com eles. Mas não neste filme, ou em outros filmes que quero fazer e devem ser vistos de acordo com os antigos rituais: comprar ingresso, sair de casa, estacionar e sentar no escuro com um bando de estranhos vendo uma história com imagens numa tela gigantesca. Eu acredito no poder do cinema."

Chu para um pouco e acrescenta. "Especialmente em filmes que, pouco a pouco, possam abrir os horizontes do público. Aceitar histórias e atores e talentos da Ásia, por exemplo."

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