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Conheça MC Bruninho, funkeiro de 11 anos que conquistou Neymar e Gabriel Jesus na Copa da Rússia

Reprodução/Instagram/@mcbruninhoreal
MC Bruninho Imagem: Reprodução/Instagram/@mcbruninhoreal

Lígia Mesquita

Da BBC News Brasil em Londres

21/06/2018 14h44

Ao registrar o nome de um cliente que deixava um celular para consertar em sua lojinha, no Recife, Joelson Barbosa ficou fascinado com a palavra que escrevia na ficha: Richardson.

Achou aquele nome bonito e forte e ao chegar em casa, falou para a mulher, grávida: nosso filho vai se chamar Richardson. "Sou apaixonado por esse nome", diz ele.

Onze anos se passaram e agora ele está aprendendo a chamar o caçula de seus filhos homens (no total, juntando com mulheres, são 7, de dois casamentos) por outro nome: Bruninho.

É assim que o menino foi rebatizado ao se tornar MC (mestre de cerimônias, no jargão do rap e do funk). Nem o próprio MC, nem a família sabem explicar exatamente como se chegou ao nome artístico.

"Richardson era um nome grande e poderia ser confundido com o jogador de futebol (Richarlyson). Aí ficou Bruninho, eu gosto também. Mas pra dar bronca eu ainda chamo ele de Richardson", fala Barbosa.

Há quase dois meses, Bruninho começou a ganhar projeção nacional quando a música "Jogo do Amor", que escreveu em parceria com o recifense Leo DaJegga, foi postada no YouTube. Nesta semana, a música teve mais de 107 milhões de execuções na plataforma de vídeos.

A projeção do menino, que já estava em ascensão no Nordeste, ganhou um impulso há alguns dias.

Direto da concentração da seleção brasileira na Rússia, Neymar postou um vídeo no Instagram em que cantava o hit do menino ao lado de outra estrela do time, Gabriel Jesus.

Esse fato fez com que a canção, que tem versos como "Olha aonde eu vim parar / Mais uma vez o coração se apaixonou pela pessoa errada / Mas como eu ia imaginar / Que no lugar do coração da princesinha não existia nada?", logo fosse apontada nas redes sociais como a aposta para animar os jogadores durante esse Mundial. Em 2014, um pagode do grupo Revelação foi eleito pela Seleção Brasileira como hino daquele torneio.

Antes de Neymar, outro esportista famoso já havia aparecido nas redes sociais entoando a música de Bruninho, o surfista Gabriel Medina.

Quando viu Neymar cantando "Jogo do Amor", Bruninho, que também joga como atacante e é torcedor do Sport, diz que não acreditou. "O Neymar é meu ídolo, fiquei muito feliz", diz ele à BBC News Brasil por telefone.

Ele conta que já existe a promessa de que possa se encontrar com Neymar e Gabriel Jesus após a Copa do Mundo.

A conexão Recife-Rússia não foi casual. Um dos atuais empresários de Bruninho conhecia Gabriel Jesus e enviou a canção para o jogador do clube inglês Manchester City escutar. Provavelmente foi assim que Jesus e Neymar conheceram o novo hit.

Quem é Bruninho

Bruninho/Richardson gosta de música desde quando era ainda (ainda mais) novo. Seu pai, que além de consertar celulares trabalhava como motorista em escolas do Recife, é percussionista num grupo chamado Relíquia do Samba e costumava levá-lo nas apresentações.

"Ele gostava de cantar, o pessoal dizia que tinha talento. Eu via que pelo timbre de voz dele, ele era afinado, mas nunca imaginei que poderia ser artista", diz Barbosa.

Quando tinha 9 anos, Bruninho disse ao pai que queria escrever uma música. Pegou o caderno e foi para o quarto na casa em que viviam no bairro Alto de Santa Terezinha, na periferia da capital pernambucana. Escreveu o verso "O amor que eu sinto por você / Nada disso você vai entender". Ao ler aquilo, o pai conta que disse ao garoto: "Tá beleza, mas isso não dá música. Tem que escrever mais".

A criança deixou o projeto de lado por um tempo, até que começou a frequentar um centro comunitário de cursos chamado Compaz. Lá, enquanto estudava na biblioteca, começou a cantarolar alguns versos. A auxiliar administrativa Stephany Santos, que trabalhava no local, ficou impressionada com a voz do menino e gravou alguns vídeos que postou nas redes sociais. Ela também começou a enviar os vídeos para alguns influenciadores digitais.

Foi assim que Richardson foi apresentado ao youtuber Leo DaJegga, que tem o canal Putz Véi. DaJegga foi até o centro educacional conhecer o menino e decidiu apresentá-lo a um empresário de artistas. Bruninho contou que tinha uma música inacabada, e os dois então passaram a escrever juntos e finalizaram Jogo do Amor. Depois, levaram a letra para um produtor que se apresenta como Batidão Stronda, que deu o ritmo à canção. Daí foi colocar no YouTube e colher o sucesso.

Hoje, "Jogo do Amor" está entre as dez músicas mais executadas no Brasil na plataforma Spotify.

Aqui, Bruninho cantando na biblioteca do centro comunitário do Recife onde estudava:

Sucesso

A vida de Bruninho mudou completamente em poucos meses. A família deixou o Recife para viver em São Paulo, onde ele foi contratado por uma agência especializada em funk.

O pai, Barbosa, largou o emprego como motorista de um colégio para se dedicar exclusivamente à carreira do filho.

Ele passou a fazer shows, em que canta as duas músicas das quais é coautor, além de hits de outros artistas. Sua agenda de shows está lotada até novembro, com cachê por apresentação chegando a R$ 30 mil.

A nova situação financeira da família rendeu a Bruninho a realização de um sonho antigo, a compra de um videogame Playstation, conta ele, que ainda não se acostumou a dar entrevistas.

Na rápida conversa com a BBC News Brasil, o menino respondeu a várias perguntas apenas com um "anham" ou longos silêncios, explicados pelo produtor que o acompanha diariamente e que estava também na linha como sendo timidez.

Contou rapidamente de onde tirou inspiração para uma canção romântica, sendo ainda tão pequeno. "Eu via uma novela, Carrossel, e tinha um menino desprezado (o Cirilo). Aí pensei 'Acho que posso fazer uma música'. Foi aí que deu", fala.

Perguntado se por acaso está apaixonado para seguir escrevendo músicas românticas, ele desconversa, numa jogada ensaiada com sua entourage: "Prefiro não comentar."

Agora, diz, está animado para gravar seu primeiro disco, no segundo semestre. Para isso, começou a estudar canto, violão e teclado.

Tanto o pai do garoto quanto sua nova agência dizem que estão tomando todos os cuidados para que a carreira de Bruninho não atrapalhe sua infância nem a escola, seguindo o que manda o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ele vai às aulas do 6o ano de segunda a sexta, em um colégio da zona leste de São Paulo. Além disso, só pode se apresentar em horários específicos aos finais de semana e em seu camarim não entra bebida alcoólica.

Outra coisa proibida pelos pais de Bruninho, católicos praticantes, é o uso de palavrões ou palavras vulgares e/ou de cunho sexual em suas músicas.

O menino diz que já está compondo novas canções. "A inspiração vem, e eu solto."

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