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Na Inglaterra, exposições com nudez e cenas de sexo não têm restrição de idade

Tate Britain
Obra de Duncan Grant na mostra sobre arte britânica queer da Tate Britain, em Londres Imagem: Tate Britain

Lígia Mesquita

Da BBC Brasil em Londres

06/10/2017 15h15

A dona de casa chinesa Tao Wang, de 42 anos, e sua filha de sete anos saem do espaço dedicado a objetos da vida na Grécia e Roma antigas no Museu Britânico, em Londres, e entram na salinha anexa 69 A.

No local estão em exibição pequenos artefatos que dialogam com a questão da sexualidade e da identidade de gênero.

Está lá uma pintura de dois homens deitados, pelados, um de costas para o outro, se beijando na boca, datada do ano 490 a.C. e retirada de uma tumba etrusca. Em outra parede há uma lamparina romana de terracota encontrada na Turquia, do século 1 a.C., que tem esculpida uma cena de sexo oral entre duas mulheres. Outra obra, contemporânea, mostra em um baralho fotografias de pessoas queer (gênero fluido).

Menos de dois minutos depois, Wang sai da exposição "Desejo Amor Identidade: Explorando Histórias LGBTQ", que não contém classificação indicativa nem sinalização sobre o conteúdo em exibição.

Lígia Mesquita/BBC Brasil
A chinesa Tao Wang critica a falta de classificação indicativa na mostra 'Desejo, Amor, Identidade: Explorando Histórias LGBTQ', do Museu Britânico, em Londres Imagem: Lígia Mesquita/BBC Brasil

"Eu achei que fosse uma continuação dessa parte do museu. Deveria ter um aviso de que pode haver imagens inadequadas para crianças. Minha filha ficou me perguntando o que era, se era homem ou mulher (sobre pessoas queer), mas ela ainda é muito nova para eu explicar. Para mim não tem nada chocante, mas para ela ainda tem", diz a turista, moradora da cidade chinesa de Xangai.

Ao seu redor, no museu, estão várias estátuas que exibem nus e até sugerem relações entre pessoas do mesmo sexo. "Mas isso aqui da exposição é um assunto novo. Uma estátua é algo mais neutro, fala da história", diz a mãe.

A psiquiatra infantil americana Sarah Belton, de 34 anos, também passa pela mostra. Diferentemente de Wang, ela não acha necessário haver restrição de idade em museus ou exposições, deixando aos pais a decisão sobre o que fazer.

"Olhe em volta, quanta obra com nudez, por exemplo. Se tivesse que colocar um aviso sobre o conteúdo, teria que botar em todo o museu", diz.

Sem regra

Na Inglaterra, fica a critério dos museus e galerias indicar uma idade apropriada para visitação ou colocar avisos de conteúdo inadequado para menores. Não existe obrigatoriedade de classificação indicativa, como Sérgio de Sá Leitão, ministro da Cultura, sugeriu que o Brasil pudesse adotar, via criação de uma lei, após as recentes polêmicas com a mostra Queermuseu em Porto Alegre e com uma performance com nudez no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo.

Após a divulgação da imagem de uma criança interagindo com um artista nu nesta última, o Ministério Público de São Paulo abriu investigação para apurar se houve crime ou violações ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

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Obra de temática queer de Otsuka Takashi no Museu Britânico retrata drag queens do Japão Imagem: Lígia Mesquita/BBC Brasil

No caso da mostra do Museu Britânico, a instituição afirma ter sido desnecessário indicar um limite de idade ou exibir sinalização específica para as obras. "Mesmo assim, julgamos cada situação caso a caso."

O museu, que não tem regra definida sobre classificação indicativa em exposições, diz consultar a comunidade local e conselheiros externos para definir como será a exibição de certos tipos de objetos.

50 anos da descriminalização da homossexualidade

No último dia 1º, um dos principais museus britânicos, a Tate Britain, encerrou outra exibição de temática LGBTQ - o "Q" na sigla é de queer -, por causa da celebração de 50 anos da descriminalização da homossexualidade na Inglaterra.

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Pintura de tumba etrusca do século 1 a.C. exibida na mostra LGBTQ do Museu Britânico Imagem: Lígia Mesquita/BBC Brasil

A mostra "Queer na Arte Britânica: 1861 - 1967" também não continha classificação etária. O conjunto de galerias da Tate, que inclui também a Modern, em Londres, não restringe exposições por idade.

A regra é que haja sinalização em trabalhos que possam ser entendidos como de cunho sexual ou com conteúdo chocante. Para performances com nudez, essa informação é dada antes que os visitantes comprem seus ingressos.

Isso não impede, no entanto, que o museu tenha problemas com o conteúdo exibido.

Em 2010, por exemplo, uma fotografia da atriz Brooke Shields aos dez anos, toda maquiada, feita por Richard Prince, foi retirada de uma exposição da Tate Modern após a Scotland Yard avisar que ela poderia estar infringindo as leis de obscenidade no país.

Pelados em Paris

Nesta semana, o Museu D'Orsay, de Paris, lançou uma campanha convocando pais a levarem seus filhos "para ver gente nua". Em um dos cartazes está a imagem do quadro "Mulher Nua Deitada", de Auguste Renoir, de 1907.

Reprodução
Cartaz da nova campanha do Museu D'Orsay, de Paris, que pede para os pais levarem os filhos para ver gente nua Imagem: Reprodução

A diretora de comunicação do D'Orsay, Amélie Hardivillier, disse à Radio France que o objetivo da campanha era se colocar no lugar das crianças quando elas vão aos museus.

Segundo ela, o maior desafio para sua equipe é como atrair mais pessoas aos museus, principalmente crianças e adolescentes.

Hardivillier conta que não censura em nenhuma obra da instituição, nem na famosa tela "A Origem do Mundo", de Gustave Courbet, uma pintura em "close" da genitália feminina.
"Há a relação com a nudez que leva ao debate, sobretudo com essa obra, que é tão sensível. Mas essa também é a função da arte: incomodar, questionar."

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