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A saga da escultura desaparecida na ditadura e resgatada em 'ação cinematográfica' por alunos da USP

Lais Modelli/BBC Brasil
Monumento a Federico García Lorca, em São Paulo Imagem: Lais Modelli/BBC Brasil

Lais Modelli

Da BBC, em São Paulo

30/09/2017 16h15

Na manhã do dia 20 de julho de 1969, a Praça das Guianas, nos Jardins, em São Paulo, amanheceu abalada por uma explosão que danificou uma de suas esculturas: o "monumento a Federico García Lorca", que havia sido inaugurado um ano antes, na presença de figuras como o escritor chileno Pablo Neruda e o compositor brasileiro Chico Buarque.

Feita pelo artista plástico Flávio de Carvalho, a escultura era uma homenagem de espanhóis exilados no Brasil ao poeta Federico García Lorca, assassinado pelo governo franquista em 1936, na Espanha, acusado de ser comunista e homossexual.

Talvez devido ao tenso momento político, com a recente promulgação do AI-5 pelos militares (Ato Institucional que proibiu todas as atividades de natureza política), ou talvez por ter ocorrido no mesmo dia em que Neil Armstrong pisou na Lua, a explosão do monumento chamou pouca atenção e nunca foi investigada. Contudo, uma pista deixada junto aos escombros da obra - folhetos no chão com os dizeres "comunista e homossexual" - fez com que o crime fosse atribuído ao Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, já que a figura de Lorca havia se transformado em símbolo de resistência a governos totalitários e de luta dos movimentos por liberdade sexual.

"Durante a ditadura no Brasil, homenagear García Lorca e a poesia que resistia ao fascismo europeu era uma forma de cruzar arte e política, mesmo que a política partidária não interessasse a Flavio de Carvalho e tampouco sua obra estivesse atravessada por qualquer viés ideológico", explica o crítico de arte e professor da PUC-RJ Luiz Camillo Osório.

Assim como os restos mortais de Lorca, que nunca foram encontrados, os restos do monumento dedicado ao poeta foram retirados pela prefeitura da Praça das Guianas e levados para lugar desconhecido. Mesmo diante dos esforços de Flávio de Carvalho para recuperar a obra e devolvê-la à cidade, a história da escultura permaneceu escondida por uma década.

Daria um filme

Numa tarde de 1979, durante uma aula de Arquitetura Expressionista, Fernando, um jovem tímido, de óculos e cabelo ruivo, ficou sabendo do acontecido com a obra de Flávio de Carvalho. "O professor Daher (Gustavo Daher) contou a história da escultura, dizendo que ela estava desaparecida. Um tempo depois, li uma matéria do Estadão que dizia que os restos da obra estavam num depósito da prefeitura, em Cotia (Grande São Paulo)", relata Fernando, ex-aluno da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, FAU - USP, hoje com 61 anos.

O Fernando da FAU se tornou o reconhecido cineasta Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus. "Quando a gente é jovem, é mais propenso a fazer besteiras", brinca o cineasta ao lembrar da aventura. Meirelles, então, foi sozinho até o local informado pelo jornal, em Cotia. "Entrei de moto na área de serviços e, embaixo de uma árvore, ao relento, dei de cara com os pedaços de ferro que haviam sido a obra um dia".

Carlos Nascimbeni
O registro do momento do "sequestro" da estátua Imagem: Carlos Nascimbeni
A partir daí, a história da escultura, que já daria um roteiro de filme por si só, ganhou um enredo novo: o jovem voltou para a FAU e contou para os amigos o que havia descoberto. Não demorou para que a história se espalhasse e um sequestro fosse arquitetado por Meirelles.

"A ideia viralizou muito rapidamente. Em pouco tempo apareceram os voluntários prontos para o crime e o (amigo) Carlão teve a ideia de fazer uma cobertura do roubo para a revista de cinema Cine-Olho, da ECA, da qual eu fazia parte", recorda Meirelles. Carlão era aluno de cinema da ECA-USP e editor da revista de cinema da Escola, Cine-Olho. O ex-aluno da ECA conta que foi graças a Meirelles que todos souberam da existência da escultura e do seu desaparecimento. "Foi ele também quem teve a ideia do sequestro e nós, os amigos, fomos para dar apoio".

Hoje, Carlão é conhecido como o cineasta Carlos Nascimbeni. "O plano foi o seguinte: tínhamos uma colega, Nina Grushenko, que trabalhava numa creche municipal. Ela roubou alguns papéis timbrados e envelopes com o brasão da prefeitura", conta Fernando, que, com os documentos roubados pela colega, fez algumas cartas "com cara de processo oficial". "No final, tínhamos um processo de autorização muito convincente na mão", garante o cineasta.

Mas para colocar o crime em prática, Fernando precisava reunir muitas pessoas, principalmente para conseguir transportar os restos da escultura, feita de grandes partes de ferro e tubos.

O exército de Brancaleone

A história da escultura, seguida do plano de sequestro, correu de boca em boca pela FAU até chegar na ECA, como relata o jornalista José Genulino, o Pinho, aluno de jornalismo da ECA em 1979. O estudante era amigo da irmã de Meirelles, Márcia, que estudava teatro na ECA, e escrevia para a revista Cine-Olho, o que lhe rendeu amizade com Carlão.

"Na USP dos anos 1970, tínhamos o 'triângulo das bermudas', que era a FAU, a ECA e o curso de Economia. Foram essas três faculdades que começaram os agitos do movimento estudantil depois daquele período de repressão e censura", conta Pinho. "Nas vésperas do sequestro, o Carlão me contou o plano e combinamos de nos encontrarmos no campus no dia seguinte e sairmos para a empreitada", recorda Pinho, que passou a integrar o que ficou conhecido como o "exército de Brancaleone", que conseguiu reunir diferentes tribos: trotskistas, marxistas, maconheiros, o pessoal do teatro etc.

"Fui para dar um suporte ao sequestro, para ter um monte de gente no ato... no sequestro... Não sei se foi bem um sequestro para a gente, mas do ponto de vista legal deve ter sido, né", questiona-se o jornalista, rindo. O exército organizado por Meirelles, que, segundo o cineasta, "tinha muito de Brancaleone", conseguiu reunir 14 jovens.

Um deles tinha o principal instrumento do crime: um caminhãozinho. "Subimos todos no caminhãozinho e fomos para Cotia. Quando chegamos no lugar, um senhor nos recebeu. Ele percebeu que tinha algo errado, ficou preocupado com os papéis que apresentamos e foi dar um telefonema", lembra Carlão, rindo.

Bruno Poletti/Folhapress
Fernando Meirelles, o mentor do "sequestro" da escultura Imagem: Bruno Poletti/Folhapress
Enquanto o senhor, o segurança do lugar, dava seus telefonemas, Carlão reuniu o grupo para fazer uma foto, publicada na cobertura que fez para a Cine-Olho. "Fizemos cara de gente legal. O segurança resistiu, mas com tanto carimbo e sorrisos, nos liberou", conta Fernando. "Saímos rindo de orelha a orelha. Crime perfeito". "Não demoramos nem 15 minutos para colocar a escultura em cima do caminhão. Quando o senhor voltou, já estava tudo pronto", acrescenta o Carlão.

De Cotia, o caminhãozinho com os 14 sequestradores foi para a FAU, onde deixou os restos da escultura. Os alunos da FAU, entre eles o Meirelles, começaram um trabalho de funilaria e pintura para recuperar a escultura. O trabalho, que recebeu ajuda até da empresa do pai de um dos alunos, durou semanas.

"Um dia, o diretor da Faculdade nos chamou e disse que estava fingindo que não estava vendo aquela escultura na porta da sua sala, mas achava que não conseguiria fingir por muito tempo", conta Meirelles. A solução, decidida por votação entre os envolvidos, foi a de colocar a escultura no vão livre do Masp, na véspera do aniversário de São Paulo, quando a avenida Paulista estaria fechada para as comemorações. "Durante a madrugada, havia gente montando palanques, som, essas coisas. Chegamos com nosso caminhão, de novo tivemos que dizer para o policial que só precisávamos descarregar um adereço para a festa e ele liberou".

Cerca de 20 pessoas carregaram a escultura até um dado ponto do vão livre, retiraram uns paralelepípedos do chão, colocaram os pés ali e cimentaram a estátua. Meirelles e os outros permaneceram no local para ver a reação das pessoas que passavam. Quando ficou sabendo do ocorrido, Pietro María Bardi, diretor do MASP, desceu furioso para o vão livre, gritando e ameaçando chamar a polícia. "Foi a maior bronca que já levei na vida", lembra Fernando.

Como era aniversário da cidade naquele dia, o prefeito Olavo Setubal estava por perto e ouviu a confusão. Ao chegar no museu e ver o tumulto que havia se formado, inclusive com presença da imprensa, prometeu aos estudantes que devolveria a escultura ao seu lugar de origem. E assim, o "exército de Brancaleone" conseguiu devolver a obra para a Praça das Guianas, onde está até hoje.

Junto ao monumento a Federico García Lorca, que representa um desenho abstrato feito pelo próprio Lorca, há um dos poemas do espanhol: "¡Hay que abrirse del todo Frente a la noche negra, Para que nos llenemos de rocio inmortal!", lembra Fernando Meirelles durante a entrevista. "É lindo".

"Fui domesticado"

Questionado se se orgulha do sequestro da escultura e se faria a ação novamente, Carlão revela que nunca contou o episódio para seus filhos. "Que coisa...e olha que meus dois filhos estudaram na USP. Acho que fiz muitas coisas na faculdade, muitas ações, até por causa do período político e social que vivíamos", reflete Carlão. "O que fizemos foi um roubo, na realidade. O Fernando foi intimado por um delegado e, quando levamos a escultura para o vão livre do Masp, foi uma confusão. O caso repercutiu e fomos capa de vários jornais no dia seguinte", lembra o cineasta. "Mas a verdade é que temos muita coisa para contar daquele tempo de USP e essa foi a única história que teve repercussão".

Fernando Meirelles conta que ainda tem muitas ideias cinematográficas como a do sequestro. Talvez por isso, o jovem tímido e ruivo da década de 1970 tenha migrado da arquitetura para o cinema. "Hoje, com 60 anos, ainda me ocorrem ideias para muitos crimes como esse, alguns assassinatos entre eles. Tenho uma lista de vítimas possíveis, mas não tenho o ímpeto de levar a cabo", tranquiliza. "Fui domesticado, creio. Uma pena", termina Meirelles.

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