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Como 2 meninas enganaram autor de Sherlock -e o mundo- com fotos de fadas

Granger Historical Picture Archive / Alamy Stock Photo
Menina britânica chocou o mundo com a divulgação de fotos com fadas, em 1920: era uma farsa Imagem: Granger Historical Picture Archive / Alamy Stock Photo

BBC Brasil

17/09/2017 14h54

Em 1920, uma notícia surpreendeu o mundo. Duas meninas britânicas disseram ter conseguido fotografar fadas. E para completar, o criador do famoso detetive Sherlock Holmes, o escritor Sir Arthur Conan Doyle, deu seu aval à história, dizendo que as fotos provavam que fadas de fato existiam.

As responsáveis pelas fotos, Elsie Wright, de 16 anos, e Frances Griffiths, de 9 anos, disseram ter fotografado as fadas no jardim da casa onde viviam, no norte da Inglaterra.

A história das meninas, com o endosso do famoso escritor, se alastrou pelo mundo e se manteve até 1983, quando Elsie Wright finalmente admitiu que as fadas eram falsas.

Mas como foi possível que duas meninas enganassem o mundo dessa maneira? A BBC tenta desvendar esse mistério com a ajuda da escritora Hazel Gaynor, que escreveu um romance baseado no caso. Ela falou ao programa Witness, do BBC World Service.

Jardim Encantado

A história começa no jardim de uma casa no vilarejo de Cottingley, próximo à cidade inglesa de Leeds. Elsie Wright e sua prima Frances Griffiths passaram o verão de 1917 brincando no fundo do jardim, onde corria um riacho. E brincando - segundo elas - com fadas.

"Frances estava encantada com o local, a natureza e a atmosfera do lugar. Na vida adulta e até sua morte, ela sustentou a história de que ela e a prima tinham mesmo visto fadas ali", diz Gaynor.

A menina Frances Griffiths tinha se mudado da África do Sul, junto com a mãe, para morar com a tia, o tio e a prima no condado de Yorkshire, na Inglaterra, enquanto o pai lutava na Primeira Guerra Mundial.

"Ela ia brincar no jardim o tempo todo, ficava molhada, voltava com a roupa, os sapatos e as meias sujos, e sua mão pedia a ela que não fosse mais brincar lá. Um dia, para se justificar, Frances disse que queria brincar no jardim porque brincava com fadas", conta a escritora.

E foi essa declaração, feita de forma espontânea, que motivou Frances e Elsie a buscarem uma forma de provar para a mãe de Frances que a menina estava dizendo a verdade.

Elas pegaram emprestada a câmera do pai de Elsie e decidiram "fotografar" as fadas.

"Talvez a foto mais famosa seja a de Frances. Ela está posicionada na margem (do rio), com uma cachoeira ao fundo. Ela está inclinada para a frente, olhando para cinco fadas que dançam animadamente."

"A segunda foto é de Elsie, a mais velha. Ela está em um campo junto do que, na época, se estabeleceu ser um gnomo que parece estar caminhando na direção dela. "

Meio século mais tarde, Elsie descreveu para a BBC o que ela teria visto naquele dia, em 1917.

"Este é o lugar onde vi o gnomo. Eu estava aqui e Elsie estava ali, com a câmera. O gnomo veio de trás daquela árvore, caminhou até onde eu estava. Eu achei que ele ia me tocar e estendi o braço, mas ele desapareceu. Eles eram assim, chegavam perto e depois desapareciam", disse Wright.

As fotos são de ótima qualidade, se considerarmos o período e o fato de que foram tiradas por meninas. E as fadas não têm aparência etérea. Pelo contrário, são bastante sólidas.

Aos olhos de hoje, as fadas são claramente bidimensionais e as fotos, como um todo, excessivamente posadas.

Granger Historical Picture Archive / Alamy Stock Photo
Fotos tiveram repercussão mundial e convenceram muita gente Imagem: Granger Historical Picture Archive / Alamy Stock Photo

Mundo Espiritual

Durante alguns anos, foram guardadas pela família, como uma espécie de piada. No entanto, três anos após o fim da Primeira Guerra, a mãe de Elsie - como muitos britânicos naquele período - começou a se interessar por Teosofia.

"Era um movimento que investigava ideias a respeito do mundo espiritual, procurando dimensões alternativas onde pudesse existir vida. Se você leva essa ideia um pouco mais longe, você pode considerar a possibilidade de que fadas e outros seres místicos realmente existam entre nós", pondera Gaynor.

"As pessoas estavam desesperadas. Tentavam se agarrar a qualquer coisa que pudesse trazer respostas à questão, por que o Deus cristão tinha permitido os horrores das trincheiras?"

Na Grã-Bretanha, ao final da Primeira Grande Guerra, milhões de pessoas haviam perdido entes queridos. Abundavam questionamentos, no país, sobre sociedade, religião e a vida após a morte.

Foi nesse contexto que as mães das meninas decidiram ir a uma reunião da sociedade de teosofia da região para participar de uma discussão sobre a vida das fadas. Elas levaram consigo as fotos das filhas, e as imagens despertaram grande interesse.

Pouco tempo depois, as fotos foram parar nas mãos de um importante membro da sociedade, o escritor Sir Arthur Conan Doyle.

"Na época em que tomou conhecimento das fotos, ele já havia recebido uma encomenda (da publicação) Strand Magazine para escrever um artigo sobre a vida das fadas. Ele rapidamente pediu a especialistas em fotografia que analisassem as fotos para estabelecer se eram genuínas. Elas foram declaradas autênticas. Segundo os especialistas, não havia evidências de falsificação. Então, quando Conan Doyle escreveu seu artigo, usou as fotos para embasar sua afirmação de que a vida das fadas era real. E se alguém tivesse dúvida, aqui estava a evidência fotográfica", conta Gaynor.

A febre das fadas tomou conta da nação e as fotos foram levadas em turnê pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos.

Meio século mais tarde, Elsie continuava a defendê-las.

"O que as pessoas não conseguem entender é que as fotos foram tiradas em dias nublados, mas as fadas estavam iluminadas. Elas pareciam emitir luz, e pareciam se mover."

A história sobreviveu mais alguns anos, até que, em 1983, Elsie finalmente confessou à BBC: ela havia desenhado e recortado as figuras em papel cartão. E para que aparentassem estar suspensas no ar, tinha colado as figuras em palitos fincados no solo.

"Por que você decidiu admitir a verdade, tantos anos depois?", perguntou o jornalista da BBC.

"Tenho três netas, não quero que essa história se estenda para sempre. Achei melhor esclarecer isso de uma vez por todas."

Pós-guerra

Mas como foi possível que uma fantasia de duas meninas convencesse tantas pessoas importantes como Sir Arthur Conan Doyle?

"Ele tinha um tio que era ilustrador de livros de contos de fadas, e o pai de Conan Doyle também se interessava por histórias de fadas", conta Gayle.

Mas havia ainda uma outra conexão com a família das meninas. Assim como o pai de Frances, o filho de Conan Doyle tinha lutado na guerra. E morrido.

"Ele tinha perdido o filho. Acho que sentia grande culpa, pois havia incentivado esse filho a ir para a guerra. Além disso, também havia se envolvido na propaganda da guerra, para aumentar o número de recrutas. Acho que ele se sentia responsável e culpado. "

Esse é quase o final da história. Existe uma quinta foto, onde aparecem apenas fadas, emanando luz, que parecem emergir de um ninho de grama. Essa foto, Frances insistiu até o fim, era realmente verdadeira.

"Quanto mais eu pesquiso, mais me interesso pela vida de Frances. Uma menina que se mudou de seu país, seu pai foi lutar na guerra... Talvez as condições fossem perfeitas para que ela se conectasse com uma outra esfera. Acho que é muito mais encantador acreditarmos que há um elemento de verdade nessa história. "

O livro de Hazel Gaynor chama-se The Cottingley Secret e foi publicado pela editora Harper Collins.

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