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Americanos "vestem" obra icônica da brasileira Lygia Pape pelas ruas de NY

Facebook/Lygia Pope
"Eram 60 pessoas ou mais, entre estudantes, professores, gente ligada a arte e gente que não tinha nada a ver com arte, todos unidos..." Imagem: Facebook/Lygia Pope

29/03/2017 12h07

Lendária performance "Divisor", criada em 1968, é reeditada em grande retrospectiva sobre a artista brasileira nos EUA.

Smartphones, selfies e um cenário mais cinza que o de uma favela no Rio de Janeiro em 1968 separam a primeira edição de "Divisor", performance criada pela artista multimídia Lygia Pape, e sua mais nova versão, registrada no último sábado em Nova York.

Imersos em um lençol imitando uma tela branca de 30 por 30 metros, dezenas de rostos de todas as idades sorriem, brincam e circulam juntos, numa experiência coletiva que implode o muro que tradicionalmente separa artista, obra e espectador.

A reedição da performance é parte da exposição "Lygia Pape: A multitude of Forms" ("Uma multidão de formas", em tradução literal), primeira grande retrospectiva da artista nos EUA, no museu Met Breuer, "braço" do Metropolitan de Nova York dedicado a arte contemporânea.

"No começo, ninguém sabia direito o que era, porque uma coisa é ver foto e filmagem, e outra é experimentar ao vivo", disse à BBC Brasil Paula Pape, filha da artista, que foi a Nova York acompanhar a performance.

"Mas quando começaram a andar e entraram na 5ª avenida, as pessoas realmente começaram a entender como funciona aquilo, aquele conjunto onde é preciso negociar entre si para fazer curvas e entrar em acordos e em sintonia para seguir a mesma direção harmonicamente."

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"Divisor" atravessou oito quadras no coração de Nova York Imagem: Facebook/Lygia Pape

Escultura social

Colega de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Ferreira Gullar, Lygia Pape, é uma das representantes de um importante momento de ruptura nas artes brasileiras.

No início dos anos 1960, artistas que não se sentiam mais representados pelos quadros e esculturas da arte tradicional decidiram misturar os espaços antes dedicados a artista e observador.

Assim nasciam, por exemplo, os parangolés de Oiticica - uma espécie de capa que só mostrava seu desenho e forma quando vestida por alguém em movimento, dançando.

No mesmo contexto surgiu o "Divisor", também classificado por Lygia como "escultura social" e agora reeditado nos Estados Unidos.

A performance foi realizada por Pape pela primeira vez em uma favela do Rio de Janeiro. Em entrevista à filha Cristina, em 2002, a artista descreveu o acontecimento:

"'Divisor', quando eu fiz, foi muito interessante. No final da minha rua, que é sem saída, há um rio, uma pequena ladeira e havia uma favelinha. Eu fiz o primeiro e não sabia muito bem como ia mostrar para as pessoas, então eu o abri na ladeira, espalhei pelo chão, que não tinha objetos interferentes. Ficou muito bonito com a projeção da mata sobre ele. Aos poucos as crianças da favela começaram a pular em cima do pano, escorregar sobre ele, acharam uma brincadeira fantástica até que um levantou uma ponta do pano e descobriu uma fenda, enfiou a cabeça nela e imediatamente a criançada toda fez isso. E começaram a descer a ladeira, todos enfiados, com as cabecinhas dentro do divisor."

Pape morreu em 2004, depois de apresentar a obra na China, na Espanha e em diferentes cidades brasileiras.

Nos Estados Unidos, a última performance "Divisor" foi realizada no início dos anos 2000 - "mas era um divisor muito pequenininho", lembra Paula Pape.

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Nova-iorquinos sobem 5ª Avenida vestindo 'escultura social' de Lygia Pape Imagem: Facebook/Lygia Pape

Reedição?

A obra atravessou oito quadras no coração de Nova York, entre o Met Breuer e o Metropolitan Museum of Art.

"O sentimento foi muito forte. Eram 60 pessoas ou mais, entre estudantes, professores, gente ligada a arte e gente que não tinha nada a ver com arte, todos unidos", diz Paula Pape, sobre a experiência do último sábado.

"Todos são um só no 'Divisor'. As pessoas se esquecem quem são e se levam pelo coletivo."

Pelo caminho, alguns curiosos se aproximavam para tentar encaixar suas cabeças em fendas sobressalentes, enquanto outras filmavam e fotografavam a performance sem muita certeza sobre o que acontecia.

"Talvez façamos de novo até o fim da exposição", diz Paula Pape com suspense. "O museu ficou muito satisfeito."

A exposição do Met Bouer reúne fotos, vídeos, esculturas, fotos e instalações da artista, nascida em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.

"Lygia Pape: A multitude of Forms" segue em cartaz em Nova York até 23 de junho.

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