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Apalpadas e descreditadas: mulheres reclamam de machismo na Comic-Con

Regan Morris

Da BBC News em Los Angeles, Estados Unidos

14/07/2015 09h43

Mulheres que frequentam convenções de histórias em quadrinhos, muitas vestidas como suas personagens favoritas, estão cansadas de ser apalpadas ao posar para fotografias. E também estão cansadas de ter suas "credenciais geek" questionadas.

O mundo das histórias em quadrinhos não é mais exclusividade dos homens. Metade das 130 mil pessoas que visitam a famosa Comic-Con de San Diego, nos Estados Unidos, é mulher. E se uma mulher escolhe se vestir como sua super-heroína ou vilã favorita, isso pode significar trajes mínimos – pois não é só a Mulher-Maravilha que combate o crime em um collant e salto alto.

"Você recebe bastante assédio quando está de fantasia", diz Brittany Fonseca, que foi ao evento vestida com um collant costurado por ela mesma para imitar o da personagem Tempestade, dos X-Men.

"O que você está fazendo de fantasia? Você está apenas tentando chamar atenção. Você não sabe nada sobre aquele personagem. Por que você está aqui? Você não é um geek real – saia daqui".

Fonseca diz que, por outro lado, também recebe muitos comentários positivos sobre suas fantasias - o uso delas é uma prática conhecida como "cosplay" -, e diz que muitas pessoas pedem para tirar fotografias com ela por admirar sua criatividade.

É comum na Comic-Con que fãs compitam para tirar fotografias com cosplayers masculinos e femininos nas salas abarrotadas do Centro de Convenções de San Diego.

"Todo o esforço que colocamos em costurar, pintar, andar de salto alto é uma expressão de como amamos o conteúdo e os personagens", ela disse.
'Mais mudanças de fantasia que Rihanna'

Então por que as mulheres se fantasiam? Apesar das apalpadas, da irritação e de ter sua credibilidade geek questionada, as mulheres descrevem a experiência como uma forma de se sentiram poderosas.

E alguns cosplayers na Comic-Con fazem mais mudanças de roupas que as cantoras Rihanna ou Madonna durante um concerto.

Luna Lanie, de 20 anos, se vestiu como Harley Quinn, uma vilã psicótica das histórias do Batman. Ao longo dos quatro dias da convenção ela também planejava se vestir como Rikku, personagem do jogo de vídeo game "Final Fantasy X-2" e também como Katarina, uma assassina de outro jogo, "League of Legends".

"Eu não tive muitos amigos na escola por isso jogava muito vídeo game. Era uma forma de escapar da realidade. Então isso é o que penso: você se transforma em outra pessoa para escapar da vida cotidiana", disse.

Mas usar uma fantasia apertada que realça as formas do corpo parece ser interpretado por muitos homens como uma espécie de permissão para abusos.
"Eu adoro cosplay. Mas cosplay não significa consentimento", esse é um lema bastante repetido por mulheres cosplayers nas redes sociais.

As praticantes dizem que conseguem muita atenção na internet para sua causa, mas a mudança não se concretiza no mundo real.

Lauren Bregman, vestida como Emma Frost, uma personagem dos X-Men, diz que homens costumam fazer comentários lascivos na internet e esquecem que os personagens que eles veem em espartilhos são mulheres reais.

"Eu nunca fui agarrada, mas pessoas com paus de selfie tentaram tirar fotos por baixo da minha saia no (evento) Dragon Com do ano passado".

Como a maioria das mulheres com quem falamos, Bregman nunca reportou nenhum incidente às autoridades.

Garras de fora

Os apalpadores não são a maioria dos fãs, mas muitas das participantes contam ao menos uma história de desrespeito. Elas dizem que os homens as tratam assim porque eles pensam que, ao usar fantasias, elas estariam "pedindo" por isso.

A Comin-Com afirma que das 130 mil pessoas que foram ao evento em 2014, 44% eram mulheres.

As mulheres dizem que o desrespeito está ligado à questão da credibilidade nerd. Enquanto a cultura geek começa a fazer parte da moda está se tornando mais comum inquirir homens e mulheres sobre suas credenciais.

O apresentador de televisão americano Conan O'Brien, que fez uma transmissão ao vivo da convenção, mostrou saber mais que qualquer fã. Ele se submeteu até a um "teste de cidadania Comic-Con" ao vivo, no qual foi questionado: "As garras do Wolverine são feitas de qual metal?".

A resposta é adamantium. Ele acertou.

Uma nova esperança

A escritora nerd Amy Ratcliffe, uma autoridade em Star Wars, pensa que houve um choque cultural pop para alguns fãs quando seu universo de ficção científica e fantasia começaram a ser apreciados por uma audiência maior.

"Eu acho que uma parte disso é limitadora. Há um pouco de 'nós deveríamos estar protegendo nosso território?' – e ao invés de fazer isso ou falar sobre isso eles acabam às vezes humilhando as mulheres".

Ratcliffe diz que as mulheres precisam se representar mais e mostrar que não precisam provar que são fãs.

"Eu costumava ser mais tímida, mas são microagressões e elas vão se somando".

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