Livros e HQs

Evento global celebra "Ulisses", de Joyce, livro mais cultuado do que lido

BBC Brasil
Voluntário lê uma passagem de 'Ulisses' durante o Bloomsday na Irlanda Imagem: BBC Brasil

Felipe Sáles

de Dublin (Irlanda)

16/06/2015 16h11

O dia 16 de junho e o final de semana que o antecede costumam ser uma época movimentada para John Shevlin.

A data, na Irlanda e em outros países do mundo, marca o Bloomsday, quando é celebrada a vida e a obra do escritor James Joyce. E, por sua semelhança física com o autor irlândês, Shevlin, um fabricante de chapéus de 54 anos, é há três anos o "James Joyce" oficial do país.

Shevlin morava havia 14 anos em frente ao centro cultural dedicado ao autor em Dublin, capital da Irlanda, quando, num certo dia de 2012, uma ex-diretora do espaço notou que ele se parecia com Joyce.

Munido com o chapéu e o óculos redondos característicos do autor, Shevlin passou a frequentar os salões do poder e as timelines de usuários do Facebook do mundo inteiro personificando Joyce, a despeito de uma pequena particularidade: ele nunca leu "Ulisses", a obra mais famosa do autor.

"Nunca tive tempo", justifica, entre uma foto e outra com um fã. "Só li o trecho sobre a farmácia, porque tenho de ler ao vivo nas apresentações."

Shevlin não está sozinho. Publicado pela primeira vez em 1922 e considerado um dos maiores romances de todos os tempos, "Ulisses" é hoje mais celebrado do que lido, e mais lido do que compreendido.

É uma missão árdua encontrar leitores da obra, especialmente entre os irlandeses e até mesmo durante o Bloomsday, comemorado em todo o planeta no dia 16 de Junho, a data em que é narrada a odisseia de Leopold Bloom, seu protagonista.

Marty Gilroy, guia do Centro James Joyce e formado em Inglês pela Universidade College Dublin, conta nos dedos quantas pessoas já leram o livro - inclusive em sua antiga turma na faculdade - por sinal, a mesma onde James Joyce estudou em 1898.

"Posso garantir que apenas três ou quatro de meus amigos realmente leram a obra. Na minha sala na faculdade, havia apenas quatro. No total, não conheço mais do que dez irlandeses", conta Marty.

Uma pesquisa feita no Reino Unido em 2009 para o Dia Mundial do Livro reforça a impressão de Marty. Os leitores foram questionados quias livros eles dizem ter lido para impressionar amigos e conhecidos, mas nunca o fizeram de verdade. "Ulisses" aparece em terceiro lugar, com 25% das menções dos 1.342 participantes. Em primeiro, ficou 1984 (1949), de George Orwell, com 65%.

Celebração

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Sobrino-neto de Joyce, Jurek Delimata (segundo à esq.) visita farmácia citada em "Ulisses" Imagem: BBC Brasil

A despeito do certo desdém dos conterrâneos, o protagonista Leolpold Bloom se tornou um dos maiores chamarizes turísticos da Irlanda.

O Museu James Joyce e a Torre Joyce atraem, respectivamente, 19,3 mil e 35 mil visitantes por ano, enquanto os roteiros que seguem os passos do personagem foram todos vendidos dias antes do Bloomsday.

A festa começou na tarde de sábado com o Bizarre Bloomsday Brunch, quando mesas foram colocadas na rua em frente ao centro. Cerca de 50 pessoas acompanharam saraus e apresentações teatrais e musicais, seguindo sempre, claro, referências gastronômicas e musicais presentes no universo de Bloom.

Outros eventos incluem visitas guiadas a locais marcantes de Dublin citados no livro, com direito, claro, a paradas para leituras de trechos da obra. Um deles é um circuito de 1,9km pelo Centro da cidade, passando por locais como a farmácia Sweny's e o Davy Byrne's pub, ambos com programação de saraus dedicados ao célebre irlandês.

O roteiro foi acompanhado por 20 pessoas - todos estrangeiros, como o engenheiro Rob Povall-Sriffin, de 37 anos, que foi a Dublin exclusivamente para a festa. Inglês de Manchester, ele surpreende não apenas por ter lido Ulisses, mas porque o releu duas vezes.

"Em Dublin, a gente se sente dentro do livro, participando da história. Mas não entendo por que tão poucos irlandeses o leram, ainda mais tendo esse festival como incentivo, um dos mais originais do mundo", conta Rob.

Clássico difícil

Quando foi publicado pela primeira vez, Ulysses provocou controvérsias por sua linguagem explícita e chegou a ser proibido na década de 1920 na Inglaterra e nos Estados Unidos.

A fama de "livro difícil" é decorrente da série de trocadilhos, jogos de palavras, neologismos e referências históricas e literárias, compondo um intrincado quebra-cabeça.

Em 1998, a editora americana Modern Library classificou a obra em primeiro na lista dos cem melhores romances da língua inglesa do século 20. Por fim aclamado, Ulisses virou objeto de estudo.

Dezenas de guias foram escritos para ajudar leitores a desvendarem a obra, entre eles The Ulysses Guide (1988), de Robert Nicholson, que vendeu 5 mil cópias na Irlanda e na Inglaterra. Curador do Museu James Joyce desde 1978, Nicholson reclama que a complexidade é a razão de ser da obra de Joyce.

"É inegavelmente um livro incomum e desafiador, mas o esforço exigido é amplamente recompensado. Se fosse mais fácil de ler, acho que haveria menos interesse", argumenta.

"Fico preocupado quando as pessoas tentam popularizá-lo, concentrando-se apenas nas passagens cômicas. Por outro lado, festivais como o Bloomsday são uma oportunidade para renovar o interesse por Joyce, pois mostra que toda sua inventividade e humor não são algo apenas para acadêmicos."

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James Joyce é considerado um dos autores mais importantes do século 20 Imagem: BBC Brasil

Bloomsday

O Bloomsday surgiu na Irlanda em 1954, quando um grupo de jovens poetas decidiu refazer o percurso de Leopold Bloom. Desde então, a festa entrou para o calendário cultural do país e se espalhou por todo o mundo, da Croácia à China; da Austrália ao Brasil.

Pelo menos seis cidades brasileiras mantêm encontros dedicados à obra. Na Irlanda, são realizados 80 eventos desde o fim de semana, sendo 32 em Dublin e outros 48 no interior, de acordo com o Ministério do Turismo.

Diretora de Programação do ministério, Helen McDaid, sustenta que o Bloomsday é apenas a porta de entrada para outras obras: "É uma oportunidade única para levar Joyce a novos públicos, porque permite a celebração do autor fora das restrições da academia. Não é qualquer cidade do mundo que tem uma festa para celebrar as andanças imaginárias de um personagem fictício".

Os irlandeses que ainda se dedicam à leitura ou ao estudo de James Joyce até tentam manter a chama de Ulisses acesa. Os estudantes Felix Meehan e Claire Fitzgerald saíram de Cork, cidade no extremo sul do país, especialmente para o evento na capital. Como manda a tradição, foram caracterizados com roupas de época - e eram os únicos assim, com exceção dos atores que trabalhavam na festa.

"Achei que o evento em Dublin seria maior, pois em Cork é bem pequeno. É incrível como parece que ninguém leu a obra na capital", lamenta Felix.

Já o engenheiro irlandês John Cruway, que durante uma apresentação do Bloomsday pintava um quadro com cenas do evento, parecia não se importar: "Li apenas uns trechos. Só vim dar uma volta, porque está fazendo um dia bonito".

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