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Com sapatos de tijolos, jovem cearense viraliza com sátiras a vídeos de divas

01/06/2015 11h49

Não há pedras no sapato do adolescente Saullo Berck, autor de vídeos caseiros que já foram vistos mais de 10 milhões de vezes na internet. Até porque seus sapatos são feitos de tijolos.

Aos 15 anos, o dançarino do interior do Ceará transformou a dificuldade para encontrar figurinos, patrocínio e visibilidade longe do eixo Rio-São Paulo em uma fórmula online bem-sucedida, com audiência superior a de muitos artistas profissionais que investem pesado em publicidade ou assessoria de imprensa.

Saullo aposta em figurinos improvisados, maquiagem pesada e cenários simples com uma trupe de amigos também dançarinos (a quem se refere como "meu balé"). Com orçamento zero, no quintal de casa, ele ironiza videoclipes de divas do público adolescente - de Beyoncé a Anitta, "sem preconceitos".

A mistura entre amadorismo e popularidade dos vloggers (blogueiros de vídeo, como Saullo) é percebida pelo mercado audiovisual, segundo especialistas em mídias digitais consultados pela BBC Brasil em São Paulo e em Londres, como "vanguarda" estética.

"Eles são importantes termômetros de audiência. Quem quer encontrar inovação no audiovisual hoje busca os amadores do YouTube", avalia João Paulo Nogueira, fundador do laboratório de empreendedorismo digital da UFRJ.

"Damos um corte aqui, um rasgadinho ali, e aí surge uma nova peça de roupa", conta Saullo Becker, na primeira entrevista de sua vida.

"Ninguém precisa de 'looks' caros pra brilhar", completa.

O jovem de Barbalha, cidadezinha de 60 mil habitantes no sertão do Cariri, a 550 km de Fortaleza (CE), ficou conhecido graças a seus saltos tipo plataforma feitos de tijolos e barbante.

Sapatos de Gaga podem chegar a custar 15 mil dólares - já os de Saullo são feitos de tijolos encontrados perto de sua casa

A inspiração tem nome e sobrenome: Lady Gaga. Os calçados da cantora norte-americana, cravejados de cristais Swarovski, chegam a custar 15 mil dólares (ou R$ 47 mil).

"De alguma forma, eu sempre soube que eles seriam minha marca e chamariam atenção do público", diz o jovem artista, que emenda: "Mas eu uso com o intuito de passar uma mensagem."

A reportagem quer saber qual. "Talento e simplicidade são mais importantes que qualquer peça de roupa", afirma Saullo.

Personagem

Equilibrado sobre os blocos de cimento ou barro, sem ganhar dinheiro com seus vídeos, Saullo ainda engatinha na trilha percorrida por vloggers bem-sucedidos como a trupe do Porta dos Fundos ou webcelebridades como Kéfera ou Felipe Netto.

Páginas como estas podem faturar mais de R$ 100 mil por mês com publicidade na internet - fruto, por exemplo, daqueles filmes publicitários rápidos exibidos antes de vídeos no YouTube.

Esta cifra, bem gorda se comparada a salários de profissões tradicionais, não inclui os frequentes convites para campanhas e eventos publicitários que acabam vindo a reboque do sucesso.

"O trabalho de vloggers como Saullo é sinônimo de inovação para os mercados audiovisual e publicitário", diz Nogueira, da UFRJ. "Hoje, todo mundo que busca vanguarda em estética, roteiro e apelo ao público presta atenção nos amadores do YouTube."

Segundo Nogueira, os vídeos do jovem cearense "cumprem os requisitos necessários" para um "viral bem-sucedido".

"Ele consegue gerar emoção e identificação imediatas, dois bens preciosos para qualquer ação na internet. Isso não significa que as pessoas concordam ou discordam do que estão assistindo, mas mostra que ele consegue mexer com as pessoas", explica Nogueira.

Durante toda a entrevista à BBC Brasil pelo Facebook (ambiente em que se "sente mais à vontade"), Saullo não se mostra preocupado com críticas a seu visual andrógeno ou comentários sexistas.

"Como qualquer ator ou atriz, nas gravações, eu estou interpretando um personagem", diz num tom profissional que se estende ao longo da conversa.

"As peças de roupa dentro de cena não interferem em quem eu realmente sou." Ele prossegue: "Ainda que aquele fosse o Saullo do dia a dia, ninguém tem o direito de julgar ninguém."

Orgulho

A mãe do "Saullo do dia a dia" também conversou com a reportagem - por telefone, já que não tem e-mail ou perfis nas redes sociais.

"Eu gosto do que ele faz", conta Maria de Lourdes, com voz tranquila. "O importante é estar feliz. A gente tem orgulho e ri muito."

À reportagem, o adolescente narra como o sucesso repentino de suas sátiras impressionou familiares, vizinhos e colegas do colégio estadual onde cursa o ensino médio - mas não se diz surpreso. "Sempre achei que fosse fácil conseguir isso através da internet", dispara.

Sem a rede, as coisas seriam mais complicadas. "A maioria (dos artistas) procura fazer sucesso nas grandes capitais, onde esse trabalho geralmente é mais valorizado", lamenta o dançarino.

Difícil mesmo tem sido arrumar tempo para equilibrar os ensaios, gravações, aulas do 1º ano do Ensino Médio e o assédio que também chega pelo computador.

"Meus vídeos repercutem bem mais no exterior", conta Saullo, "sem querer se gabar".

"Me comunico bastante com pessoas de outros lugares, como no México, Estados Unidos e Israel. Eles se dizem meus fãs e falam que meus vídeos fazem sucesso por lá."

Para o britânico David Thair, especialista em mídias digitais, o segredo do sucesso de vloggers como Saullo está na intimidade com o público. "Eles são interessantes porque são parecidos com quem os assiste. Eles não dependem de ferramentas especiais, tudo ali são tecnologias acessíveis a qualquer consumidor", diz.

"São as suas personalidades e talentos que as pessoas amam", continua Thair. "E eles costumam ser muito mais acessíveis (que a mídia tradicional) - respondem comentários, comentam vídeos etc".

O especialista londrino disse à BBC Brasil que não conhecia os vídeos de Saullo. Ainda.

Em um site mexicano, o jovem foi definido como uma "miniestrela". Já um site espanhol disse que "nem Lady Gaga se atreveu a calçar sapatos plataforma de tijolos, correndo o risco de de torcer o tornozelo".

"Você esperava tamanho sucesso?", pergunta a reportagem à jovem estrela do sertão do Cariri.

"Sinceramente, sim."

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