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Dançarino maranhense explora arte de Gilbert & George em turnê britânica

Daniel Gallas

De Londres

04/10/2013 11h56

Um menino de classe média de Imperatriz, no Maranhão, que se mudou para Belém para cursar medicina, mas acabou se tornando dançarino e coreógrafo em Londres, dançando em alguns dos principais palcos do mundo.

Esta é a trajetória de Jean Abreu, brasileiro radicado há 18 anos em Londres, onde construiu uma respeitada carreira no competitivo mundo da dança contemporânea britânica.

O maranhense de 38 anos sobe ao palco nesta quinta-feira na cidade de Cheshire, para a primeira apresentação da tour britânica do espetáculo Blood (Sangue) que criou especialmente a pedido da Royal Opera House, uma das principais casas de espetáculos de Londres.

Para construir o espetáculo, Abreu contou com a ajuda de amigos poderosos: a excêntrica dupla de artistas plásticos britânicos Gilbert & George, que permitiu raro acesso às suas obras.

Em Blood, Abreu dança sozinho em um palco onde são projetadas 25 imagens dos artistas, criando a sensação de que ele está navegando dentro dos fluídos de seu próprio corpo como sangue e urina. O espetáculo recebeu elogios de críticos de arte dos principais jornais britânicos, como o Guardian e o Sunday Times.

Imperatriz, Rio e Londres

Apesar da sólida carreira que construiu em Londres, Jean Abreu lembra que foi quase por acaso que se tornou dançarino.

Filho de uma enfermeira em Imperatriz, ele passou em diversos vestibulares para medicina. Escolheu se mudar para Belém, onde participou, por diversão, de uma oficina de dança com Carlinhos de Jesus, o famoso coreógrafo carioca de dança de salão.

"Dali minha cabeça mudou. Eu encontrei o que eu queria fazer, embora não soubesse exatamente como fazer", disse Abreu à BBC Brasil. "Para mim foi uma surpresa. Eu fiquei deslumbrado com aquilo."

Apesar dos temores da família que via na medicina um futuro mais promissor do que a dança Abreu teve apoio de seus parentes para se mudar para o Rio de Janeiro, onde passou três anos dançando junto com Carlinhos de Jesus.

Em 1996, outro acaso mudou o rumo de Jean Abreu. Ele foi para Londres para visitar uns amigos sua primeira viagem para o exterior.

Uma amiga sugeriu que Abreu fizesse um teste para estudar no conservatório de dança e música Laban, na época parte do Goldsmith College. A universidade no sul de Londres é uma espécie de celeiro do mundo das artes britânicas, por onde passaram nomes como Damien Hirst, Antony Gormley e Lucian Freud.

"Eu não falava inglês direito, minha amiga traduziu tudo. Eu fiz o teste, mas nunca tinha dançado balé ou contemporâneo, eu só copiei tudo que eu tinha visto os outros fazerem, e fiz do meu jeito. Uma semana depois eu recebi a carta com a bolsa de 10 mil libras por ano [equivalente a R$ 36 mil] para dançar aqui. Tive que ligar para minha mãe para dizer: 'não vou voltar mais'. Ela ficou desesperada de novo", lembra Abreu.
Depois de anos de muito trabalho e estudo no conservatório, ele se formou e logo foi contratado pela companhia Protein, de dois ex-alunos um suíço e um italiano do Lacan, onde passou quatro anos.

Foi lá que criou, em 2003, sua primeira coreografia chamada Híbrido que forjou sua reputação no mundo da dança, com apresentações na Alemanha, Holanda e Itália. O espetáculo um diálogo entre Brasil e Inglaterra ganhou o prêmio de dança Jerwood. Com o dinheiro, Abreu montou novos espetáculos, recebeu convites para colaborar com diversos grupos e criou sua própria companhia de dança.

Gilbert & George

Foi através de amigos em comum que conheceu Gilbert Prousch e George Passmore, dois artistas que trabalham juntos e são conhecidos no mundo das artes como Gilbert & George.

A famosa dupla de artistas, hoje septuagenários, é conhecida tanto por suas obras – quadros coloridos e fotografias gigantescas inspiradas na região do East End, de Londres quanto por seu comportamento excêntrico. Casados, eles têm há anos uma rotina pessoal inflexível, frequentando todos os dias os mesmos restaurantes nas mesmas horas, pedindo os mesmos pratos, sempre vestidos de terno e gravata. Reclusos, eles são geralmente percebidos como "estátuas vivas" pessoas cujas próprias vidas se confundem com uma performance artística.

Jean Abreu ficou amigo da dupla quando ajudou a fazer um documentário sobre as suas vidas. Ele teve a ideia de criar o espetáculo Blood ao ver as séries de quadros Fundamental Pictures, Testamental Pictures e Rudimentary Pictures com imagens gigantescas de partículas microscópicas de fluídos como sangue, sêmen e urina.

O dançarino conta que a dupla ficou entusiasmada com o uso de suas imagens em um espetáculo de dança e deu liberdade total. Na estreia de Blood no Royal Opera House, Gilbert & George estavam na plateia.

"Foi uma das críticas que eu mais tive medo", lembra Jean. "Eu telefonei para eles no dia seguinte, e uma coisa curiosa é que eles nunca atendem o telefone. Mas nesse dia eles atenderam imediatamente. O George disse que o show foi 'extraordinário' e que eles próprios descobriram coisas sobre o seu trabalho que eles não tinham visto antes."

Blood vai passar por diversos palcos britânicos até fevereiro de 2014. Não há planos concretos de levar o espetáculo para o Brasil, mas Jean diz que está cada vez mais colaborando com artistas brasileiros, e tem curiosidade para ter um contato maior com o público de seu país natal.

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