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Ian McEwan: "Faria um dos meus personagens se perder em São Paulo"

Monica Zarattini / AE / Brainpix
O escritor inglês Ian Mackean em São Paulo Imagem: Monica Zarattini / AE / Brainpix

Mônica Vasconcelos

03/10/2013 06h08

"Eu faria um dos meus personagens se perder em São Paulo - se perder e se assustar, ou se maravilhar. Ou ambos", disse à BBC Brasil o escritor britânico Ian McEwan. "Fiquei fascinado".

A declaração foi em resposta a um pedido para que o escritor imaginasse uma história envolvendo um personagem hipotético em viagem pelo Brasil.

E foi feita durante uma entrevista que antecede a participação de McEwan no festival de literatura brasileira FlipSide, que começa nessa sexta-feira (4) no vilarejo Snape Maltings, em Suffolk, Inglaterra.

O evento tenta criar, na Grã-Bretanha, pela primeira vez, uma versão do prestigioso Festival Literário Internacional de Paraty, Flip, que acontece anualmente na cidade brasileira. Da festa inglesa participarão também os escritores ingleses Will Self, Ali Smith e Blake Morrison e os brasileiros Ana Maria Machado, Patrícia Melo e José Miguel Wisnik, entre outros.

Um pontos alto da programação será o encontro, diante de uma plateia, entre McEwan (um dos mais importantes escritores britânicos da atualidade, autor de bestsellers internacionais como Reparação, Sábado e Na Praia) e o escritor brasileiro Milton Hatoum (Dois Irmãos, Relatos de um Certo Oriente, Cinzas do Norte).

Durante a entrevista à BBC, McEwan falou de seu encanto pelo Brasil, país que visitou duas vezes. Mais particularmente, ele refletiu sobre o Brasil vislumbrado nos poemas da americana Elizabeth Bishop, que viveu no Brasil nas décadas de 1950 e 60. Bishop (retratada no mais recente filme do diretor brasileiro Bruno Barreto, Flores Raras) será tema de uma mesa de discussões no festival.

Tido como avesso a entrevistas, o escritor falou de maneira descontraída, iniciando seu raro depoimento com reflexões sobre o conto Tempo Perdido, da jovem autora brasileira Tatiana Salem Levy (Lost Time, na tradução para o inglês).

O conto integra a coletânea Other Carnivals, que será lançada durante o festival, apresentando ao público britânico autores como Adriana Lisboa, Marcelino Freire e Bernardo Carvalho. Hatoum, que já tem livros lançados na Grã-Bretanha, também está incluído.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - O que te chamou a atenção no conto Tempo Perdido, de Tatiana Levy?

Ian McEwan - (Tempo Perdido) é uma bela história, que trabalha seu simbolismo de maneira muito sutil.

Obviamente, o conto reflete sobre a ditadura, que deve ter deixado uma cicatriz profunda na consciência coletiva do Brasil. É a história de uma mulher que é convidada para um funeral. Ela tem 60 anos.

Trata-se do funeral de seu namorado, que morreu há 40 anos, quando os dois eram militantes na resistência (contra o golpe militar de 1964). Mas não existe um corpo. Ele morreu, desapareceu, não há registros, então a família e os amigos se reuniram para enterrá-lo em um caixão vazio.

Ela devolve ao caixão um pequeno amuleto que ele deu a ela na noite em que desapareceu. E vai embora sorrindo, sentindo-se em controle, dona do tempo.

Fiquei muito comovido pela história. Num espaço de seis, sete páginas, essa jovem escritora captura algo muito profundo sobre um país que emerge de uma ditadura, de um Estado militar totalitário. E que hoje está prestes a se tornar - se já não se tornou - uma potência mundial.

Foi o primeiro conto que li (da coletânea Other Carnivals) e gostei muito.

BBC Brasil - Você é amigo de Liz Calder (diretora do FlipSide, ex-diretora da editora britânica Bloomsbury e editora de alguns dos livros de McEwan) há muitos anos e já esteve em Paraty. Você se lembra da primeira vez que ela falou sobre o Brasil?

McEwan - Foi há mais ou menos 12 anos. Fiquei surpreso quando ela me disse que tinha comprado uma casa perto de Paraty.

Quando me dei conta, estávamos eu, minha esposa e meu filho mais novo, Greg, em Paraty. Aí começou a festa. No café da manhã, depois da primeira noite, Greg disse: "Encontrei meu segundo país. Essas foram as melhores 12 horas da minha vida!" Mais tarde, ele voltou ao Brasil e ficou fluente em português.

Passamos uma semana incrível nesse festival que tinha começado havia apenas um ano. E já dava para perceber que ele ia mudar o destino dessa pequena cidade colonial costeira, um tanto quanto sonolenta, muito linda.

BBC Brasil - Qual é o impacto da cultura brasileira na Grã-Bretanha?

McEwan - Isso é difícil de quantificar. Mas as coisas devem mudar, com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Vai haver um foco fantástico sobre o Brasil.

Temos acompanhado os protestos com atenção, e existe uma imensa comunidade brasileira em Londres.

Mas existe aquele velho problema, tradução. Não lemos sequer literatura francesa moderna - e eles estão a apenas algumas milhas de distância.

Temos a sorte, e o infortúnio, de falar uma língua mundial. Se você está no centro de um império, torna-se pouco curioso. Somos membros do império anglófono, então sofremos de uma cegueira cultural em relação a tudo o que está do lado de fora.

Mas acho que isso vai mudar. Tem de mudar porque o Brasil está se tornando mais importante e isso deve ter um impacto sobre nós. E todo mundo adora (o filme) Cidade de Deus!

BBC Brasil - Você é um admirador do trabalho de Elizabeth Bishop. Já leu os poemas que ela escreveu sobre o Brasil? Algum deles ficou com você?

McEwan - Visitamos a casa dela em Ouro Preto. Há um poema que ela escreveu como se estivesse ouvindo trechos de conversas pela janela (Under the Window: Ouro Preto, Pela Janela: Ouro Preto).

É uma celebração maravilhosa de um local, não poderia ser nenhum outro lugar. É como ler a poesia de Wordsworth (William Wordsworth, poeta inglês) em um determinado local.

BBC Brasil - Bishop dizia que era tímida. Mas em cartas a amigos, escreveu que se sentia muito bem-vinda no Brasil, cercada pelo calor das pessoas. Você sentiu o mesmo?

McEwan - Arrisco cair em puro clichê, mas a verdade é que qualquer visitante no Brasil sente esse calor quase imediatamente. É um ótimo país para um viajante. As pessoas são tão instantaneamente amáveis, é realmente extraordinário.

BBC Brasil - Você poderia nos falar um pouco sobre sua participação no FlipSide?

McEwan - Vou dividir o palco com Milton Hatoum. É sempre agradável quando dois escritores simplesmente conversam, em vez de termos de responder às perguntas habituais sobre o nosso trabalho.

O último livro (de Hatoum) que li foi Ashes of the Amazon (Cinzas do Norte). Gostei muito. Uma imaginação rica e um estilo maduro. Não tenho ideia do que vamos dizer, pensar, ou refletir a respeito. Vai ser muito interessante para mim e, espero, para ele também.

BBC Brasil - Você situaria um de seus livros em um país estrangeiro?

McEwan - Apenas se eu precisasse e desde que eu me mantivesse dentro do círculo da minha ignorância. Em outras palavras, eu não poderia fingir habitar, ou compreender de dentro, uma cultura estrangeira.

Mas enviar um personagem por uma paisagem, com as impressões que poderiam ser minhas, ou inventadas, com certeza. Eu preciso dessa liberdade.

BBC Brasil - Então, imagine um personagem viajando pelo Brasil. O que ele veria pela janela?

McEwan - A primeira ideia que me ocorre tem a ver com a cidade. Acho que 85% da população brasileira vive em cidades.

Passei alguns dias em São Paulo e me senti quase como se estivesse em outro planeta.

São quase 20 milhões de pessoas, talvez apenas a Cidade do México seja maior. É um aglomerado humano em uma escala diferente da de Londres ou Nova York.

Então, se eu fizer um exercício mental: Eu faria um dos meus personagens se perder em São Paulo - se perder e se assustar, ou se maravilhar. Ou ambos.

Existem duas correntes de pensamento sobre essas cidades colossais. Uma é a de que elas contém uma vasta tragédia humana e social, de favelas e por aí.

A outra visão, mais otimista, é de que cidades são os grandes motores da vitalidade e inovação. Que existe mais organização em uma favela do que os antropólogos sociais sequer sonham.

Esse paradoxo interessaria a um estrangeiro.

De repente, em algum momento, no final da década de 1980, no planeta Terra, mais pessoas estavam vivendo nas cidades do que no campo. Foi uma grande mudança e ainda estamos vivendo uma revolução na consciência humana: a fuga do campo para a cidade.

Isso tem alguns aspectos positivos. Mulheres tendem a ter menos crianças quando se mudam para as cidades, então podem florescer mais. E crianças tendem a receber educação melhor nas cidades, mesmo em circunstâncias mais pobres.

Além disso, (a fuga para as cidades) deixa muita terra livre, para agricultura ou para a vida selvagem.

Ao mesmo tempo, existem gangues, violência, drogas, privações, pessoas sem casa e tudo mais.

Ainda estamos vivendo uma explosão populacional mas, em algum momento do século 21, a população vai envelhecer e encolher.

Isso também pode ser uma oportunidade fantástica. É uma questão em aberto.

O Brasil vai tomar a dianteira nisso, a taxa de natalidade (brasileira) começa a cair.

O que cria oportunidades imensas para um escritor: envelhecimento populacional, diminuição no número de pagadores de impostos e possíveis oportunidades - assim como possíveis desastres.

BBC Brasil - Esse seu livro parece muito interessante! Então, para finalizar... Vai haver música no festival. Você já ouviu música brasileira?

McEwan - O professor de piano da minha esposa canta canções brasileiras lindas. Eu participei de um leilão de caridade e "arrematei" um violonista erudito maravilhoso, Craig Ogden, para tocar na minha casa.

Convidamos alguns amigos e, depois de tocar, ele (Ogden) emprestou seu violão ao nosso amigo, que cantou lindas canções de amor brasileiras.

As pessoas ficaram um pouco chorosas à volta da mesa. Bom, tinham sido amolecidos por um excelente vinho tinto... Eu pensei, sim... está na hora de voltar ao Brasil.

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