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Primeiro festival literário das UPPs "abre portas" em favela carioca

10/11/2012 21h12

No alto do Morro dos Prazeres, no bairro carioca de Santa Teresa, um vaivém de gente do morro, do asfalto, da literatura, do teatro, da polícia pacificadora e de um Rio que se quer mais unido marcam a primeira edição da Festa Literária das UPPs.

Compor a plateia eclética que desde quarta-feira assiste a painéis com escritores estrangeiros ou brasileiros na Flupp foi um duplo desafio para os organizadores.

"Estamos fazendo um esforço enorme para formar um público nas periferias para a literatura. E estamos fazendo outro esforço enorme para trazer o público tradicional da literatura para o Morro dos Prazeres, para ver um evento bem produzido e que envolveu a comunidade", resume Écio Salles, criador do evento ao lado de Júlio Ludemir, ambos com longo histórico de atuação cultural em favelas cariocas.

A Flupp foi inspirada na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, transpondo a ideia de um encontro entre leitores e autores para o universo das favelas cariocas com Unidades de Polícia Pacificadora.

O Morro dos Prazeres foi escolhido por não ser nem tão ao norte, nem tão ao sul.

A comunidade no alto de Santa Teresa, com vista panorâmica para o Rio, fica na região central do Rio e não costuma ter a mesma atenção dispensada às favelas da zona sul que viraram vitrine das UPPs, como o Cantagalo, em Ipanema, e o Santa Marta, em Botafogo.

Oficinas e livros

Ao longo do ano, em outras favelas pacificadas, eventos menores batizados de Flupp Pensa foram preparando o terreno, atraindo jovens para discussões e oficinas literárias.

Das oficinas resultaram o primeiro livro da Flupp, lançado na quinta-feira no evento, reunindo mais de 40 textos de jovens autores estreantes das comunidades.

Morador do bairro, o radialista Fabio Minervino, de 35 anos, diz nunca ter visto nada igual da favela onde nasceu.

"Está um espetáculo, é um dos melhores eventos que já aconteceram na comunidade. O melhor de tudo é trazer pessoas de fora para conhecer a comunidade. Antes, o pessoal tinha um certo receio de subir", diz Minervino, vestindo o colete amarelo-cheguei dos funcionários da Flupp.

Ele é um dos muitos moradores dos Prazeres chamados para trabalhar no evento, fazendo a segurança da estrutura montada durante a madrugada.

O palco montado para receber, até domingo, autores como Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Ana Maria Machado e o poeta palestino Najwan Darwish foi armado na quadra esportiva da comunidade, ao lado dos contêineres da UPP - a polícia comunitária na favela ainda não ganhou uma sede permanente.

O público, atraído pela programação, gratuita, não chega a lotar o espaço, e se mescla aos muitos curiosos da comunidade que preferem ficar do lado de fora, de olho naquele movimento incomum.

As irmãs Ana Carolina e Kary dos Santos, por exemplo, brincavam com os filhos ao lado da quadra, como sempre fazem - ali é o "point de lazer" da comunidade, diz Kary.

"Acho que esse evento está sendo bom, porque é uma coisa que raramente tem nessas comunidades carentes", diz Kary. "Eu não sou carente, não!", intervém a irmã. "Ah, carente, é como todo mundo fala", justifica Kary.

Engajamento

Ana Carolina havia acabado de comprar um cachorro-quente em uma das barraquinhas montadas ao lado do evento. Há ainda churrasquinho e um estande de caipirinhas, feitas por Willame Silva Mendes. Ele diz que não é muito fã de leitura, mas elogia o evento.

"É uma novidade. O morro fica mais bem divulgado. Não é o que as pessoas pensam lá fora. Quando chegam aqui, veem que é uma coisa diferente."

Mendes já foi barmen, mas conseguiu construir sua casa na comunidade trabalhando como camelô. "A leitura é boa, mas o estudo, pelo menos no Brasil, não está valendo muita coisa. Você vê pessoas que têm faculdade e vivem desempregadas. Mas aqui nesse lugar tem muita gente que gosta de ler, sim".

Nas plateias dos debates, os jovens estão em maioria entre os moradores da comunidade. A escritora britânica Yvvette Edwards, que participou de um painel no segundo dia do evento em uma parceria com o British Council, ficou impressionada com seu engajamento.

"Dá para ver que eles têm muitas histórias para contar. Estando aqui, vejo que essa comunidade está repleta de histórias. Agora basta que as pessoas encontrem confiança para se envolver com a escrita e contar suas próprias histórias."

'Cidade partida'

Écio Salles diz que sem as UPPs teria sido impossível viabilizar a Flupp. Em outros tempos, teria sido preciso negociar com traficantes para realizar o evento, o que espantaria o público de fora e os patrocinadores (a Flupp conseguiu parceria com nomes fortes - Ministério da Cultura, Secretaria de Estado de Cultura, BNDES, Petrobras e Vale).

A política de segurança pública que busca neutralizar o controle do tráfico em comunidades cariocas por meio das UPPs completa quatro anos em dezembro e está presente em mais de 30 favelas.

"É uma política que ainda enfrenta uma série de problemas. A questão é que não pode ser só a segurança para resolver tudo. É fundamental entrar com educação, saúde, serviços e cultura, que é a nossa coisa", diz Salles.

Mas, além da lista de necessidades concretas, há o desafio mais subjetivo de vencer as barreiras da "cidade partida", o que envolve incentivar cariocas a transitarem entre morro e asfalto - ou entre morro e morro.

"Eu moro na Rocinha nas nunca tinha vindo ao Morro dos Prazeres", diz Lucas Valentim, 25 anos, estudante de artes cênicas. Com o processo de pacificação, ele diz ter se dado conta de que "é morador de favela mas não conhece outras comunidades", e está procurando mudar isso.

Valentim ficou impressionado pela vista lá de cima. "É desses lugares que faz você se perguntar como você podia morar na cidade e não conhecer", diz. "Acho incrível um evento desse porte aqui. Está se criando uma nova relação no Rio. Existem as comunidades, existe o asfalto, e beleza, a gente pode mesclar."

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