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Ausência de presidente português em cremação de Saramago gera críticas

Jair Rattner
De Lisboa para a BBC Brasil

20/06/2010 11h56

A despedida de José Saramago, escritor que gerou polêmica durante toda sua vida, acabou causando controvérsia política. O motivo foi a ausência do presidente da República de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, que não interrompeu suas férias para estar presente na despedida de quem é considerado o maior escritor português do final do século 20.

As críticas a Cavaco Silva – que em 1991, quando era primeiro-ministro, vetou a candidatura do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo para o Prêmio Europeu de Literatura – já começaram no cemitério do Alto de São João, onde o corpo do escritor foi cremado no começo da tarde. Por causa do veto na época, que Saramago considerou uma censura, o escritor optou por viver na Espanha.

“A ausência do presidente é uma vergonha. Ele deveria estar aqui para prestar uma homenagem ao maior escritor português”, falava exaltado o militante comunista António Fernandes Sabino.

As principais reações podem ter repercussão apenas no segundo semestre, durante a campanha para a eleição presidencial, em que Cavaco Silva concorre a um segundo mandato.

A ausência do presidente ficou mais evidente com a presença da vice-premiê do governo espanhol, Maria Teresa de la Vega, que chegou a discursar durante a cerimônia fúnebre.

No cemitério, cerca de três mil pessoas aplaudiram a passagem do corpo. Muitas delas portavam com cravos vermelhos – o símbolo da revolução de 25 de abril de 1974, que trouxe a democracia de volta a Portugal.

Quando o corpo do escritor entrou na câmara onde foi cremado, foi aos gritos de “Saramago, a luta continua” – entre os populares, algumas pessoas gritavam em espanhol. Várias pessoas erguiam livros de Saramago.

Velório

Durante o período em que o corpo do escritor foi velado, mais de 20 mil pessoas foram se despedir do escritor.

Com uma camiseta cinza com uma frase de Saramago – “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, tirada do romance Ensaio sobre a Cegueira -, e um boné preto com uma estrela vermelha com a foice e o martelo, símbolos do comunismo, a professora Maria Augusta Carvalho, contou como foi ir ver o adeus de Saramago.

“Eu vim de Santo Tirso, 300 quilômetros, para ver a cerimônia. Era um amigo, uma pessoa fora de série, que conheci nos anos 80. Uma vez, na apresentação de um livro, eu falei de um aluno que gostava muito dos livros dele. Depois de alguns dias chegou um pacote pelo correio com um livro com dedicatória para meu aluno”, lembrou.

Com um ramo de cravos vermelhos na mão e vestida de preto, tentando segurar as lágrimas, a professora Helena Neves viajou 350 quilômetros, desde Viseu até a prefeitura de Lisboa, onde ocorreu o velório. “Vim prestar uma última homenagem ao homem, ao senhor, ao camarada”.

Na cerimônia fúnebre, além da governante espanhola falaram o professor Carlos Reis, da Fundação José Saramago, a ministra da Cultura de Portugal, Gabriela Canavilhas, o secretário-geral do Partido Comunista Português, Jerônimo de Sousa, e o prefeito de Lisboa, António Costa.

Homenagem brasileira

A escritora Nélida Piñon representou a Academia Brasileira de Letras. “Vim como uma homenagem individual e coletiva. Este é o mérito maior de um grande artista, que é ser capaz de congregar o individual e o coletivo”, contou a escritora.

Ela disse que na próxima quinta-feira, a Academia Brasileira de Letras – da qual Saramago era sócio-correspondente – vai realizar uma homenagem ao escritor, com a palavra de todos os membros.

Para o ensaísta e crítico literário Eduardo Lourenço – que como Saramago também recebeu o Prêmio Camões – o escritor está entre os maiores nomes da literatura portuguesa.

“O que se há de dizer para celebrar um autor excepcional, que deu a Portugal uma dimensão que antes dele só Camões? Foi um criador de mitos, e como dizia Fernando Pessoa, é o máximo que se pode pedir a um criador”

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