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Onze anos após Pulitzer, Michael Chabon aborda conflito de famílias em livro com ritmo de jazz

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Capa da versão em inglês do livro "Telegraph Avenue", do autor Michael Chabon, prêmio Pulitzer em 2001 pelo melhor livro de ficção com a obra "As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay" (11/9/12) Imagem: Reprodução / Amazon

Patrick Condon

12/09/2012 07h00

Passou-se mais de uma década desde que Michael Chabon ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 2001 pela obra épica “As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay” (Editora Record). Desde então, esteve ocupado com um fluxo constante de produções de gênero, ficção juvenil-adulta e histórias em quadrinhos. Com seu novo romance, “Telegraph Avenue”, que ainda não tem data para sair no Brasil pela Companhia das Letras, parece que o escritor finalmente irá apresentar um livro para suceder  o best-seller.

Mas enquanto “Kavalier & Clay” cobria continentes e décadas com uma história sobre pioneiros dos quadrinhos, “Telegraph Avenue” é mais caseiro e intimista ao mergulhar profundamente nas vidas e lutas -- em um espaço de poucas semanas -- de duas famílias de Oakland, cidade no estado da Califórnia, em agosto de 2004.

Archy Stallings e Nat Jaffe, velhos amigos e músicos amadores de jazz, administram juntos e são donos da Brokeland Records, uma loja de discos usados na Telegraph Avenue, a via de ligação entre Oakland e Berkeley.

As esposas deles, Gwen Shanks e Aviva Roth-Jaffe, são as Berkeley Birth Partners, parteiras que atendem principalmente os hippies de classe média-alta de Bay Area. O filho de 14 anos de Nat e Aviva, Julius, começa a história fazendo amizade com outro garoto adolescente, Titus, cuja ligação com Archy fica clara à medida que o romance prossegue.

Ambas as sociedades, e no final as amizades, são testadas ao longo da história. Os homens enfrentam uma concorrência potencialmente devastadora com os planos de um ex-jogador de futebol milionário de abrir uma imensa “megastore” de entretenimento na rua. As mulheres balançam com um parto em casa que sai desastrosamente errado, resultando na possível perda de seus privilégios no hospital local e na ameaça de um processo.

A frente doméstica dos Stallings não está em melhor forma. Gwen, grávida, luta com as ocasionais infidelidades de Archy, que por sua vez lida de má vontade com a agenda misteriosa de seu pai, Luther Stallings, um astro decadente de vários filmes de “blaxploitation” (cinema dos negros para negros) dos anos 70, que deseja realizar um retorno improvável. Nat e sua esposa lidam com seu filho enquanto ele dá os primeiros passos hesitantes para sair do armário.

  • Getty Images

    Michael Chabon, atualmente com 49 anos, lançou em setembro a obra "Telegraph Avenue"

Há muita coisa acontecendo em “Telegraph Avenue”, mas Chabon não está muito preocupado em manipular as tramas. Ele está muito mais interessado em explorar os laços que tanto unem quanto separam os Stallings, que são negros, e os Jaffes, que são judeus. Chabon tem um toque leve e hábil ao tratar o tema racial, nunca passando a imagem de pregação ou culpa. A mão dele é mais pesada no coro quase constante do livro de referências da cultura popular, que às vezes parecem voltadas demais a certo tipo de leitor e provavelmente poderiam ser melhor dosadas.

Mas essa é uma queixa leve para um livro cuja leitura é um prazer. Chabon, que considera Berkeley seu lar, é um escritor altamente dotado de prosa: ele escreve sentenças longas e exuberantes que arremetem e serpenteiam antes de fecharem o círculo em si mesmas, se aproximando com frequência dos improvisos de jazz que Archy e Nat tanto gostam.

Aqui ele descreve Gwen vislumbrando o adolescente Julius, dormindo no chão de sua sala de estar: “A cavidade de seu peito sem pelos, o nó confuso de suas sobrancelhas, o cabelo liso macio colado pelo suor noturno na testa ossuda, tudo remexia as lembranças profundas das noites em que ela costumava cuidar dele para Aviva e Nat, cantando para ele as canções de ninar graves de sua avó”.

Com passagens como esta, “Telegraph Avenue” transmite um senso poderoso da passagem do tempo. O romance é cheio de nascimentos e mortes, verão dando lugar ao outono, meninos se transformando em homens, homens e mulheres adultos abandonando os modos infantis, velhos tentando compensar os erros de sua juventude. Apesar de carecer da amplitude de “Kavalier & Clay”, este novo romance, por seu simples acúmulo de observação e detalhe, tem um tipo próprio de andamento épico.

Um bocado de pessoas bem intencionadas toma decisões ruins neste livro, mas “Telegraph Avenue” nunca é deprimente. A afeição profunda de Chabon por seus personagens, juntamente com a vibração ornamentada de sua prosa, dá a todo livro o senso adorável de flutuação. Ele parece, usando a descrição de Chabon para o terno de lazer de um organista de jazz lendário de Oakland que frequenta a Brokeland Records, “profundo e mágico em seu excesso”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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