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Memória às vezes engana, argumenta defesa no julgamento de Weinstein

Harvey Weinstein - Stephanie Keith/Getty Images/AFP
Harvey Weinstein Imagem: Stephanie Keith/Getty Images/AFP

07/02/2020 19h46

A memória pode nos enganar de tal maneira que um relacionamento sexual consensual se torne uma agressão?

Foi o que a defesa de Harvey Weinstein sugeriu nesta sexta-feira (7), pedindo o testemunho de um psicólogo especialista em falhas de memória.

Desde o início do julgamento do produtor de Hollywood em 22 de janeiro, os jurados ouviram seis mulheres contarem como o acusado as agrediu sexualmente. Weinstein, 67, nega os ataques e garante que todos os seus relacionamentos foram consentidos.

A respeitada psicóloga Elizabeth Loftus, testemunha da defesa, explicou ao júri na sexta-feira as diferentes maneiras pelas quais se pode deformar as memórias e "contaminá-las" com informações ou sugestões falsas.

Essa professora da Universidade da Califórnia em Irvine, que já testemunhou em cerca de 300 processos, disse que a precisão da memória diminui ao longo dos anos e também que ela se torna "mais vulnerável a informações posteriores ao fato" que sejam suscetíveis à realidade.

Ela deu como exemplo testemunhas que são pressionadas a dar mais detalhes sobre um fato que eles viveram.

Para satisfazer o pedido, "podem mencionar algo que somente é uma hipótese, e depois ter a impressão de que é uma lembrança", disse Loftus.

Ela ressaltou que fatos que no momento não foram "traumatizantes ou comoventes" podem se transformar nisso em nossas recordações, se outros os etiquetarem dessa maneira.

A psicóloga também mencionou experimentos que mostraram que falsas lembranças da infância poderiam ser "insertados" em algumas pessoas.

Entre as informações suscetíveis de "contaminar as recordações", citou a cobertura midiática de um evento.

As acusações de agressões sexuais contra Harvey Weinstein foram regularmente noticiadas pela mídia americana desde outubro de 2017.

A lembrança também pode ser deformada desde o início, se durante o fato a pessoa estiver sob efeito de álcool ou medicamentos, disse a especialista, que se referiu sobretudo ao Valium.

Uma das acusadoras de Weinstein, a atriz Annabella Sciorra, informou em seu testemunho que tomou Valium antes de ser estuprada pelo produtor no inverno boreal de 1993-94.

Durante o contra-interrogatório da promotoria, Loftus relativizou suas declarações.

Ela admitiu que a precisão das recordações resiste melhor ao tempo quando essas são particularmente traumatizantes.

Também reconheceu que em mais de 40 anos de experiência foi convocada quase sempre pela defesa, que em geral tenta atacar a credibilidade de uma suposta vítima.

O julgamento continuará na próxima segunda-feira.

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