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Governo central de Madri e separatistas catalães travam batalha digital

08/11/2019 15h44

Madri, 8 Nov 2019 (AFP) - "O rei e sua filha chegarão em dois aviões ao terminal (...) Têm três vias de saída", alertam os hackers separatistas do Anonymous Catalonia, que travam uma queda de braço digital com Madri, que decretou em caráter de urgência um controverso controle da internet.

A mensagem foi enviada no domingo às 19h33 na chegada de Felipe VI ao aeroporto de Barcelona. Os destinatários foram os 255.000 assinantes de seu grupo no aplicativo Telegram, criado para coordenar as manifestações contra o monarca, odiado pelos separatistas.

No dia seguinte, milhares de ativistas vaiaram a monarquia e dificultaram o acesso dos convidados a uma cerimônia presidida pelo rei. Antes e durante o evento, esse grupo do Telegram difundia informações aos manifestantes sobre quais portas bloquear e quais ruas interromper.

Reivindicando-se como membros da organização de hackers Anonymous, considerada uma "ameaça" pela Otan, estes ativistas catalães desenvolveram um programa que analisa e divulga fotos e coordenadas por GPS fornecidas por seus simpatizantes para localizar os objetivos políticos e seguir os movimentos da Polícia.

Também invadiram recentemente as caixas postais de magistrados do Supremo Tribunal espanhol, que condenou em meados de outubro nove dirigentes separatistas a penas elevadas de prisão, desencadeando várias manifestações na região, algumas de uma violência inusitada.

- Intervir na internet -O serviço de mensagens privado e alguns aplicativos específicos amplificaram a mobilização, como no caso do bloqueio ao aeroporto de Barcelona, convocado pela misteriosa plataforma "Tsunami Democrático", outra organização que inquieta Madri.

A Justiça espanhola abriu uma investigação contra esta organização acusada de "terrorismo" e enviou à Microsoft uma ordem "para solicitar a retenção do conteúdo e dos dados" abrigados pelo Tsunami na plataforma GitHub, da gigante americana de tecnologia.

Segundo a Microsoft, só China e Rússia tinham formulado até agora solicitações do tipo.

Além disso, na terça, o governo espanhol publicou um decreto de urgência, autorizando-o a fechar sites na internet ou intervir em redes de comunicação sem autorização judicial em caso de "ameaça grave e imediata à ordem pública".

Por enquanto, no entanto, o Tsunami Democrático segue na Internet, graças a sites alojados em servidores estrangeiros, e o aplicativo criado para organizar suas mobilizações continua ativo.

A partir de segunda-feira, anunciou sua ação "mais ambiciosa" até o momento em que este aplicativo deve ser uma peça-chave e exige QR code exclusivo para funcionar.

- República digital -O decreto-lei do governo não visa apenas aos ativistas, mas também a um projeto do governo regional catalão de construir na nuvem uma "república digital", apresentada como "a melhor ferramenta para controlar o território e tornar efetiva a república catalã" após o fracasso de sua tentativa de secessão em 2017.

Inspirada na administração da Estônia, este projeto aspira a criar uma "identidade digital catalã" para que os cidadãos da região possam votar ou ter um documento de identidade catalão.

"Não haverá independência nem online, nem offline", disse no final de outubro o chefe de governo socialista espanhol, Pedro Sánchez.

Mas seu decreto gera controvérsias para além do separatismo.

A presidente da Associação de Internautas espanhóis, Ofelia Tejernia, denunciou seu caráter "muito genérico", que "supõe uma limitação no exercício de direitos fundamentais como a liberdade de expressão, a liberdade de informação ou o sigilo das comunicações".

Em um e-mail à AFP, o Tsunami Democrático criticou o que chamou de "uma medida extraordinária" tomada "sem passar pelo Congresso" e "para cortar direitos fundamentais".

"Não se trata de cortar a internet", defendeu-se Sánchez, mas "pôr um ponto final nesse projeto de independentismo", que supõe "a utilização de dados dos catalães para potencializar referendos digitais" ou a criação de instituições paralelas.

Para evitar o bloqueio, os separatistas utilizam servidores fora da União Europeia, em países considerados "paraísos digitais".

O Tsunami emprega o serviço suíço de mensagens eletrônicas ProtonMail, que diz estar "fora da jurisdição dos Estados Unidos e da UE" e que só é obrigado a divulgar informações por "decisão judicial" suíça.

Segundo documentos consultados pela AFP, o primeiro site web da plataforma foi abrigado por uma empresa domiciliada em São Cristóvão e Nevis, um país das Antilhas, também usada pelo "Conselho da República Catalã", uma espécie de governo no exílio catalão, utilizado pelo ex-presidente regional Carles Puigdemont, foragido na Bélgica.

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