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Joanna Hausmann, a venezuelana que usa humor para explicar América Latina aos EUA

Don Emmert/AFP
Joanna Hausmann Imagem: Don Emmert/AFP

De Nova York (EUA)

2019-04-25T11:54:00

25/04/2019 11h54

Os diferentes sotaques do espanhol, as coisas que os latinos brancos estão cansados de escutar nos Estados Unidos ou a crise na Venezuela. A efervescente comediante Joanna Hausmann se alimenta de estereótipos para celebrar a rica diversidade latino-americana em vídeos que viralizaram no país.

As esquetes em inglês desta que é uma espécie de antropóloga informal venezuelano-americana de longos cabelos avermelhados, olhos azuis e expressividade inesgotável, já têm mais de 70 milhões de visualizações e a tornaram conhecida na América Latina e nos Estados Unidos.

Sobretudo após seus vídeos sobre a crise na Venezuela, inclusive um recente de opinião para o jornal The New York Times, que gerou uma avalanche de aplausos e críticas de defensores do chavismo.

"Não sou nem daqui, nem de lá"

Filha de venezuelanos e neta de exilados cubanos e imigrantes judeus da Alemanha e da Bélgica que fugiram do Holocausto e se instalaram em Caracas, a atriz, escritora e comediante de 30 anos, que tem dupla cidadania e quase 220 mil assinantes em seu canal de YouTube, "Joanna Rants" (Joanna berra), nasceu na Inglaterra e cresceu entre Caracas, Washington DC, Boston e Nova York.

Desencanada e desinibida, é um turbilhão que fala fluentemente espanhol e inglês, ambos em velocidade vertiginosa, gesticulando e fazendo mil caretas para se expressar melhor.

Ela conta que desde pequena, recorreu à comédia para se encaixar no mundo.

"Tive várias crises de identidade, me sentia venezuelana, me sentia americana. Mas não era suficientemente americana quando estava aqui, nem suficientemente venezuelana quando estava lá. Era meio judia, mas a minha mãe não era, eu sentia que não me encaixava em nenhuma descrição de nada 100%", explica em entrevista à agência France Press no Central Park, em uma ensolarada tarde de primavera.

"A comédia foi para mim uma forma de me encaixar em algo e poder descrever o que eu era para os demais", reflete Hausmann, que em um sketch assegura que herdou o pior dos latinos e dos judeus porque é "péssima dançando e terrível com o dinheiro".

Em suas apresentações de stand-up em teatros ou em seus vídeos, Hausmann utiliza clichês e estereótipos para demonstrar que a América Latina vai além do México e que os latino-americanos não são sempre os donos da festa, nem são todos jardineiros ou domésticas.

Em um sketch, um grupo de latino-americanos faz uma intervenção em um argentino para tentar curar seu egocentrismo. Em outro, Hausmann ironiza os padrões de beleza que levaram algumas venezuelanas a encurtar os intestinos ou implantar plástico na língua para comer menos.

Também explora a xenofobia e o racismo em seu engraçadíssimo esquete "O que significa 'falar americano'?" ou a objetificação das mulheres no reggaeton, e se aprofunda com humor na ciência e na pseudociência da série da Netflix "Bill Nye salva o mundo".

Uma comédia da dor

Hausmann às vezes se aventura na política, como em "Os presidentes latino-americanos mais loucos" ou em "Razões pelas quais a Venezuela é um desastre total", o primeiro de seus três vídeos com fortes críticas ao chavismo e ao governo de Nicolás Maduro, de 2016.

"Eu não senti que era uma opção fazer estes vídeos, era uma responsabilidade", afirma. "Essa comédia tem raízes na dor, pois a dor também é terra fértil da comédia", diz.

Ela critica sobretudo o movimento "Hands off Venezuela", que defende a revolução bolivariana e a não ingerência em assuntos internos.

"Meu problema com o 'Hands off' é que é a inação total, é ignorar o que está acontecendo", diz. A Venezuela vive "uma tragédia humana e não ajudar com assistência, com diplomacia, é uma irresponsabilidade", avalia.

Defensores do governo de Maduro a acusam inclusive de ser uma espiã da CIA por não mencionar em seus vídeos que é filha do economista Ricardo Hausmann, representante no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) do líder opositor Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino da Venezuela pelos Estados Unidos e mais de 50 países.

"Meus amigos riem, eu seria a pior espiã da CIA, olhem para mim, não consigo esconder um segredo na vida!", confessa, brincando.

"Sou uma mulher de 30 anos com uma carreira completamente independente", mas "para algumas pessoas é mais fácil pensar que tem algo macabro, obscuro, terrível por trás de mim e do meu pai para poder justificar suas opiniões e justificar um ditador", concluiu.

Não se preocupa que alguns pensem que não é cômica, mas fica indignada que se questionem suas intenções. Que exista gente que pensa "que não tenho integridade como ser humano, que não tenho interesse do meu país e a dor dos cidadãos venezuelanos no meu coração", diz.

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