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Pussy Riot: É "emocionante" fazer turnê pela América Latina durante onda feminista

Da AFP, em Montevidéu

11/04/2019 17h51

Uma irreverente "oração punk" de 40 segundos contra o presidente Vladimir Putin levou à prisão as integrantes da banda russa Pussy Riot, mas também as lançou à fama mundial.

O grupo formado por Maria Alyokhina, Nadya Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich, que no início, em 2011, se apresentava em qualquer lugar e a qualquer hora, aterrissa agora na América Latina com um show que inclui apresentações no Uruguai, Argentina, Chile e Brasil.

"Sempre quis realizar uma turnê na América Latina, é a primeira vez que recebemos esta oferta e disse sim imediatamente", comenta Tolokonnikova em uma entrevista por telefone à AFP, de Moscou.

A artista critica a relação próxima que Putin mantém com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que se apoia no Kremlin, um dos poucos aliados internacionais que lhe restam. "É ridículo que ofereça apoio a Maduro. Está investindo muito dinheiro russo para apoiar esse regime e não entendemos por quê", afirma.

Pussy Riot busca em cada uma de suas viagens uma conexão mais clandestina com ativistas locais. Reúnem-se com eles a portas fechadas e dialogam sobre a situação de cada lugar onde tocam.

Às vezes os convidam a participar de seus shows. "Encorajamos eles a trazerem seus cartazes, a que seja um lugar para que as pessoas mostrem aquilo em que acreditam", diz. "É muito fácil para mim me conectar com ativistas e mais ainda com ativistas que não são do primeiro mundo", acrescenta.

A dissidente russa considera especialmente "emocionante" visitar a região em um momento em que a América Latina vive uma onda feminista.

Protesto e fama

"Virgem Maria, mãe de Deus, tire o Putin do poder!", pediu o grupo feminista em 21 de fevereiro de 2012, quando invadiu o altar da Catedral de Cristo Salvador de Moscou para se manifestar contra o presidente e a Igreja ortodoxa russa.

A performance durou menos de 1 minuto, mas Maria Alyokhina, Nadya Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich foram presas e condenadas por "vandalismo motivado por ódio religioso". Duas delas cumpriram quase dois anos de prisão.

Tolokonnikova, de 29 anos, foi parar em um campo de trabalho na Sibéria, até que foi anistiada, em 2013. Mas ser uma das pedras no sapato de Putin custa caro, e a artista ainda vive com medo.

"Não me sinto nem um pouco segura. A situação de todos os ativistas políticos não está melhorando. Está muito pior", afirma na entrevista Tolokonnikova, que escolheu ficar em Moscou apesar das ameaças e tentativas de aplacar sua dissidência.

Ao sair e com um apoio internacional renovado, a banda continuou com seus protestos carregados de nus, música, máscaras e intervenções, como sua irrupção na final da Copa do Mundo de 2018 entre França e Croácia, onde conseguiram entrar no campo vestidas de policiais.

As artistas continuam cantando para Putin, que continuará no poder até 2024, mas de vez em quando também dedicam suas letras ao presidente americano, Donald Trump, cujas políticas migratórias criticam.

"Politicamente se tornou cada vez mais difícil. A razão pela qual o Pussy Riot começou foi para protestar contra o anúncio de que Putin ia ser presidente pela terceira vez. Mas Putin mudou a Constituição de um dia para o outro, o que o ajudou a governar por mais tempo", diz.