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Mangueira, campeã do carnaval do Rio com homenagem a Marielle e heróis esquecidos

06/03/2019 20h05

Rio de Janeiro, 6 Mar 2019 (AFP) - A Mangueira foi proclamada, nesta quarta-feira (6), campeã do carnaval do Rio-2019, com um desfile exuberante, no qual homenageou heróis esquecidos e a vereadora Marielle Franco, cujo assassinato completa um ano no próximo dia 14, e questionou a ditadura militar, elogiada pelo governo de Jair Bolsonaro.

O anúncio da nota decisiva, no quesito fantasias, foi recebido com uma explosão de alegria no Palácio do Samba, quadra da verde e rosa, no Maracanã, bairro da zona norte da cidade.

Mangueira, a segunda escola com mais títulos (20, contra 22 da Portela), apresentou um enredo sobre a "história que a história não conta", exaltando personalidades heroicas negras, indígenas e desfavorecidas, relegadas ao segundo plano nos livros de história.

A grande homenageada foi Marielle Franco, a vereadora negra e homossexual carioca que denunciava a violência policial nas comunidades e foi assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes, em um bairro do centro da cidade, sem que até agora, quase um ano depois do crime, as investigações tenham chegado aos culpados.

A viúva de Marielle, Monica Benício, desfilou na última ala da escola, que entrou na Marquês de Sapucaí já na madrugada de terça-feira.

"A única vereadora negra que carregava no corpo todas as pautas que defendia, sendo mulher, negra, favelada, lésbica, foi executada. [Estar aqui] é uma forma de resistência, de cobrar justiça", disse Benício à AFP na segunda-feira, pouco antes do desfile.

Um dos carros alegóricos reproduziu o Monumento aos Bandeirantes, com pichações como 'ladrões' e 'assassinos', sobre despojos de indígenas, mulheres, memória, a demarcação de terras.

Outro carro trazia como destaque a jornalista Hildegard Angel, tendo ao fundo a pichação "Ditadura assassina", em um ataque frontal à ditadura militar (1964-85), elogiada por Bolsonaro, capitão da reserva do Exército.

'Hilde', como é conhecida, é filha da estilista Zuzu Angel, morta em um acidente automobilístico em 1976. Durante anos, ela buscou notícias de seu filho, Stuart, preso e desaparecido durante o regime militar.

- "Recado político" -O desfile "é um recado político para todo o país, que tem que entender que isso aqui é importante. É um recado político também para o presidente mostrar que o carnaval é isso aqui. O carnaval é a festa do povo. O carnaval é cultura popular. O carnaval não é o que ele acha que é", disse o carnavalesco Leandro Vieira, ao comemorar o título, em alusão a um tuíte polêmico de Bolsonaro.

Na terça-feira, o presidente, que foi ironizado em fantasias por foliões em todo o país, publicou um vídeo pornográfico em sua conta pessoal no Twitter, associando o carnaval de rua à prática de atos obscenos.

"Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões", escreveu o presidente.

O vídeo postado na terça-feira, de 40 segundo de duração, mostra três homens sambando sobre a proteção de um ponto de táxi em uma movimentada rua de São Paulo durante a passagem de um bloco.

Um deles, usando uma fantasia de sado-masoquista que deixa sua nádegas descobertas, mostra as nádegas para o público e aparentemente introduz o dedo no ânus.

Em seguida, abaixa a cabeça e o outro homem urina sobre seus cabelos, para delírio de quem assiste à cena.

O vídeo foi postado no final da tarde de terça-feira na conta do Twitter de Bolsonaro, que tem 3,46 milhões de seguidores.

A postagem, que até a manhã de quarta-feira tinha 2,43 milhões de visualizações, entrou para os 'treding topics' da rede social global, com três hashtags: a dos adversários de Bolsonaro, que exigem sua saída (#ImpeachmentBolsonaro), de seus defensores (#BolsonaroTemRazao) e de um terceiro mais genérico (#goldenshowerpresident).

Em outro tuíte publicado nesta quarta, em plena controvérsia, o presidente ainda pergunta: "O que é 'golden shower'?", referindo-se a um termo que descreve o ato de urinar na pessoa com quem se mantém uma relação sexual.

Alguns comentários mais críticos acusam o presidente de usar uma cena isolada para desprestigiar o Carnaval. Outros o censuraram pela falta de decoro ao não postar o alerta de conteúdo que não era adequado para menores e perguntaram se a publicação não viola as regras do Twitter.

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