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Facebook e 'fake news' alimentam os 'coletes amarelos' na França

08/12/2018 10h31

Paris, 8 dez 2018 (AFP) - Grupos no Facebook são o centro nevrálgico do movimento de protesto dos 'coletes amarelos', que se espalhou por toda a França, tornando-se um caldo de cultura de 'fake news'.

Quando o diretor-executivo da rede social, Mark Zuckerberg, anunciou, em janeiro, que daria mais peso às notícias locais, ele nunca poderia imaginar que acabaria alimentando a pior crise na Presidência de Emmanuel Macron.

Especialistas em Internet dizem que a mudança no algoritmo do Facebook impulsionou "grupos de protesto", como os que afloram na França e cuja revolta tomou as ruas de várias cidades do país, de norte a sul e de leste a oeste.

Os primeiros protestos dos 'coletes amarelos' começaram em 18 de outubro, depois da publicação no Facebook de um vídeo no qual Jacline Mouraud, até então desconhecida, denunciava o aumento de um imposto sobre os combustíveis, dirigindo-se a Macron.

Sua mensagem viralizou rapidamente e as convocações para bloquear rodovias se multiplicaram nas redes sociais. Desde então, a revolta ganhou terreno e se transformou em um protesto contra o aumento do custo de vida e a política do governo em geral.

Para os especialistas, o Facebook foi crucial para mobilizar manifestantes, originários principalmente de povoados de províncias e zonas rurais.

"Utilizamos o Facebook para nos informar e organizar", conta Chloé Tissier, moderadora do grupo "Motoristas da Normandia Furiosos", que tem mais de 50.000 membros.

"Por exemplo, quando estamos erguendo uma barricada e vemos que não temos tábuas suficientes para atear fogo, escrevemos uma mensagem no grupo e rapidamente alguém as traz. Fazer isto por telefone seria impossível", disse.

O Facebook também é uma excelente plataforma "porque as pessoas mais velhas também estão nessa rede", acrescentou. Os aposentados, irritados com o corte de suas pensões, aderiram ao movimento.

- O poder dos algoritmos -"Os coletes amarelos não são um movimento estruturado, não há porta-vozes oficiais e por isso o Facebook é ideal para eles", explicou Tristan Mendes France, professor de Cultura Digital na Universidade Paris-Diderot.

A mudança no algoritmo do Facebook no começo deste ano reduziu a visibilidade do conteúdo em páginas administradas por grandes meios de comunicação.

"Agora, se prioriza o conteúdo compartilhado por grupos, perfis individuais e informação local. Esta mudança no algoritmo impulsionou o surgimento deste movimento", avalia o especialista.

"Os sentimentos vinculados à raiva são os que se propagam melhor nesta rede", avaliou Olivier Ertzscheid, professor de Ciência da Informação da Universidade de Nantes.

"O Facebook oferece uma arquitetura técnica de circulação perfeitamente adaptada a um movimento que se construiu em torno da indignação", acrescentou.

Ao mesmo tempo, o Facebook também se "beneficia" disto, já que se "alimenta das interações e os conteúdos virais geram muitas interações", emendou.

- Celeiro de notícias falsas -Mas junto com este fenômeno, observou-se também uma propagação de notícias falsas, que têm se espalhado como rastilho de pólvora em alguns grupos dos 'coletes amarelos' ativos no Facebook.

Como se viu nas eleições presidenciais nos Estados Unidos e no Brasil, multiplicam-se mensagens alarmistas ou imagens que nem sempre correspondem aos protestos atuais.

"Tentamos, na medida do possível, revisar o que publicamos", afirmou Tissier. Mas, com centenas de mensagens postadas por hora, nem sempre é possível, explicou.

Vários grupos também estão tomados de revolta contra as elites e os meios de comunicação, com comentários parecidos aos feitos entre os eleitores de Donald Trump e de Jair Bolsonaro do outro lado do Atlântico.

"Os políticos são falsos, os meios de comunicação são falsos", pode-se ler em um grupo denominado "Cidadãos em Cólera", que tem 16.000 membros.

"Há uma grande desconfiança dos membros com os meios de comunicação (...) As pessoas confiam em nós para contar-lhes o que está acontecendo", disse Chloé Tissier.
 

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