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Cineasta iraquiano Mohamed Al-Daradji enfrenta seus demônios filmando

04/12/2018 17h00

Los Angeles, 4 dez 2018 (AFP) - A guerra no Iraque terminou oficialmente no final de 2011, mas para o cineasta Mohamed al-Daradji, que representa seu país pela primeira vez no Oscar, ela ainda faz parte da vida cotidiana.

"Podemos dizer que meus filmes são uma forma de lidar com as sequelas da guerra", explicou à AFP o iraquiano, de 40 anos, que chegou a Los Angeles para promover seu filme "The Jorney".

"Para mim, os iraquianos não choraram, não conseguiram aceitar o que aconteceu (...) e eu tenho a impressão de que talvez meu filme possa ajudar as pessoas a se reconhecerem na tela", disse.

A história, que se passa em 2006, cinco minutos antes da prisão do ditador Saddam Hussein, conta a história de uma mulher suicida que se prepara para se explodir em um atentado contra a estação ferroviária de Bagdá.

"The Journey", o primeiro filme que estreia de forma comercial no Iraque em 27 anos, foi selecionado por este país como candidato oficial para a próxima cerimônia do Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro. É a terceira vez que Mohamed Al-Daradji representa o Iraque nesta competição, depois de "Ahlaam" ("Dreams", em inglês) em 2007 e "Son of Babylon" em 2010.

Como os anteriores, "The Journey" analisa a guerra e suas consequências, esta vez através dos olhos de uma mulher, Sara, que de repente se dá conta do ato horrível que está prestes a cometer.

Na estação ferroviária de Bagdá, onde o filme se desenvolve, o cineasta expressa a dor dos iraquianos através de diferentes personagens, desde uma jovem casada à força até as crianças da rua que sobrevivem vendendo flores e engraxando sapatos, passando por um músico que volta à vida normal depois de passar 22 anos em um campo de prisioneiros.

- "Um grito" -O cineasta acrescentou aos seus protagonistas os inevitáveis militares americanos, que patrulhavam a estação dando ordens mas que não estão isentos de humanidade, como um soldado que canta uma canção de ninar por telefone para seu filho que mora nos Estados Unidos.

Mohamed Al-Daradji diz que, para esta história, se inspirou em um artigo sobre uma adolescente iraquiana de 17 anos, presa com explosivos em volta do corpo.

"Comecei a pesquisar e descobri que havia mais de 200 mulheres suicidas no Iraque", disse o diretor.

Ele conseguiu aprofundar seu roteiro graças ao encontro com uma prisioneira capturada pelo exército do Iraque.

"Olhei-a e era um ser humano, era bela e inteligente", contou o cineasta. "E a pergunta que coloco em 'The Journey' é a possibilidade de redenção" para os suicidas.

"Podem recuperar a humanidade que perderam?", questiona.

Seu próximo filme, intitulado "Bird of Paradise", terá também uma personagem mulher e crianças.

"Quando penso em minha infância, ninguém me escutava, é por isso que uso as crianças em meus filmes, e as mulheres também, para dar voz a eles", apontou.

Como sempre, a história caótica de seu país será central no filme. "De forma bastante curiosa, acredito que todos os iraquianos sofrem de estresse pós-traumático (...). Através de meus filmes grito, projeto toda a minha ira, minha frustração", contou.

"Fiz 'The Journey' por motivos egoístas. De certo modo, esse filme me ajuda a me aceitar. Podemos dizer que é uma forma de terapia".

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