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Em plena onda feminista, conduta de Neruda com as mulheres é questionada

AP Photo/Laurent Rebours
O poeta Pablo Neruda em foto de 21 de outubro de 1971, quando era embaixador Imagem: AP Photo/Laurent Rebours

Santiago (Chile)

30/11/2018 12h13

Em tempos do #MeToo, nem o prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda se salvou de uma revisão histórica por seu comportamento com as mulheres, que, com os códigos éticos atuais, possivelmente teria sido levado ao banco dos réus como estuprador e por ter abandonado as suas funções de pai.

A polêmica recorrente voltou a surgir no Chile com a aprovação na Comissão de Cultura do Congresso chileno - apesar de ainda precisar ser analisada pelo plenário - da proposta de rebatizar o aeroporto de Santiago com o nome do poeta chileno mais universal, e conhecido mulherengo.

Além do seu passado comunista, em um país onde o golpe militar de Augusto Pinochet acabou com o governo de esquerda em 11 de setembro de 1973, os críticos recordam uma passagem de suas memórias "Confesso que vivi" na qual descreve o que se assemelha a um estupro de uma jovem tamil, da casta dos intocáveis, encarregada de limpar suas latrinas quando era cônsul do Chile no Ceilão, atual Sri Lanka.

"Certa manhã, determinado a tudo, peguei-a com firmeza pelo punho e olhei-a no rosto. Não havia idioma em que eu pudesse falar com ela. Se deixou ser conduzida por mim sem um sorriso e logo estava nua na minha cama (...) O encontro foi de um homem com uma estátua. Permaneceu o tempo todo de olhos abertos, impassível. Fazia bem em me desprezar. A experiência não se repetiu", diz a confissão do poeta.

Para além da qualidade de sua poesia, que começou a escrever há quase um século, o que muitos se perguntam, sobretudo as mulheres, é se não há alguém com um histórico menos polêmico para merecer a honra de ter um aeroporto com seu nome.

É o caso da socióloga Claudia Dides. "Por que colocar nomes de homens nos espaços públicos? Temos que reivindicar pelas mulheres", diz à AFP.

A deputada Pamela Jiles, que conheceu o autor de "Canto General" quando era criança, pois seu avô, Jorge Jiles, foi advogado do poeta e o ajudou a mudar legalmente seu nome de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes para Pablo Neruda, é contra esta mudança.

"Me oponho ao fato do nosso aeroporto levar esse nome, porque considero que esses não são tempos de homenagear alguém que maltratava as mulheres, que abandonou sua filha doente e que confessou um estupro", assegura em uma declaração enviada à AFP.

"Temos outro prêmio Nobel com mais méritos estéticos do que Neruada e sem seus graves defeitos. Preferiria que se chamasse 'Aeroporto Professora Lucila Godoy Alcayaga'", mais conhecida como Mistral, para substituir o atual nome de Aeroporto Arturo Merino Benítez, fundador da Força Aérea chilena, acrescentou a deputada.

Não é a obra, é o comportamento

"Não acho que seja necessário condenar a obra de Neruda, como tampouco se pode desconhecer a sua contribuição à política como militante comunista, mas acho que temos que ser claros em condenar o seu comportamento com as mulheres e, particularmente, a sua atitude desprezível com a sua filha doente, à qual desconheceu e abandonou. Nem o poema mais perfeito pode compensar a maldade feita a uma criança", conclui Jiles.

Neruda teve uma única filha, Malva Marina, com a holandesa María Antonieta Hagenaar, Maruca, que tinha hidrocefalia e faleceu muito nova.

Contudo, a escritora e jornalista Faride Zerán, autora de "La guerrilla literaria" - no qual analisa as duras críticas de três monstros da literatura chilena, Pablo Neruda, Vicente Huidobro e Pablo de Rokha -, não concorda com esta polêmica.

"Hoje se vê com uma lógica moral do século XXI um homem do XX. Não acho justo", assegura à AFP.

Mais vigente que nunca

A vigência de Neruda não está em questão. Da Fundação Neruda, o diretor executivo, Fernando Sáez, minimiza a polêmica e assegura que o poeta "sempre teve inimigos", mas seu comportamento com as mulheres, das quais sempre esteve rodeado, não impede que "assinemos todos os dias contratos" de todas as partes do mundo para reeditar sua obra.

E suas três casas-museu, a de Isla Negra, na costa do Pacífico; La Sebastiana, em Valparaíso; e La Chascona, em Santiago, estão entre as principais atrações turísticas do Chile.

"O público que vem às casas é o mesmo, e o entusiasmo e o carinho são os mesmos", assegura à AFP, pelo que acredita se tratar de "uma polêmica ridícula inventada".

A escritora Adriana Valdés lembra que se a "conduta pessoal imaculada fosse requisito para ler e admirar escritores ou pensadores, teríamos que prescindir de pessoas como Rimbaud, Céline, Sartre, Lope de Vega, Verlaine, e para que dizer Oscar Wilde, Baudelaire, Rousseau, Heidegger..."

O importante é que "hoje se pode olhar para trás e ver como eram bárbaras e cruéis muitas práticas machistas e que, há muito pouco, faziam parte do senso comum", assegura.

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