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Rumba, a alma de Cuba e a reivindicação da cultura africana

03/09/2018 18h42

Havana, 3 Set 2018 (AFP) - Nasceu nas plantações de cana-de-açúcar e nas senzalas em Cuba. E, apesar de viajar até os grandes salões de baile na Europa, sua essência se conserva no sangue dos cubanos, que, quando caminham, quase dançam a rumba.

Considerada patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Unesco desde 2016, a cada ano os moradores de Havana tomam as ruas para celebrá-la, ao ritmo da clave, dos tambores e cantos.

"É uma expressão da exaltação da vida, criada durante o período da escravidão nas plantações de cana, nos bairros, nos portos, nas ferrovias", explica Miguel Barnet, presidente da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba.

Os escravos tinham "a necessidade de fazer seus cantos espirituais, litúrgicos, para a salvação, para a cura", acrescenta. Tudo isso pode ter ocorrido no fim do século XVIII e início do XIX.

- Essência de Cuba -O homem se move com elegância, usa chapéu e quase sempre se veste de branco. A mulher veste uma saia ampla de cores vivas que se agita junto com seus passos.

O homem galanteia e persegue a mulher. Ambos movem os quadris e deslizam os braços e pernas, ao ritmo do "tac, tac... tac, tac, tac" marcado pela clave, enquanto os tambores africanos inundam o espaço e convidam o espectador a querer dançar também.

Entre movimentos alegres, o cavaleiro realiza o "vacunao", um movimento da pélvis que lembra que este também é um baile de fertilidade, e que dessa forma veio da África.

"A rumba para mim é Cuba e eu sou uma fiel preservadora da tradição. Sinto-a como minha, carrego-a no sangue. Estudei na Escola Nacional de Arte e me formei em 2004", diz Yanaisis Ordoñez, de 31 anos.

Estão reunidos no solar La Maravilla, em frente ao convento de Belén, que chegou a possuir um campo de cana-de-açúcar com mais de 300 escravos.

Enquanto dançam, no solar passam crianças olhando e imitando os passos. De vez em quando, adolescentes passam com caixas de som ouvindo reggaeton, um ritmo que, para o crítico musical Pedro de La Hoz, se se retira toda a parte eletrônica, se encontra a influência da cultura bantu, uma das raízes africanas da rumba.

- Nasceu antes de Cuba -"A rumba nasceu antes da nação cubana e muito antes do nascimento do conceito de pátria. A rumba é anterior, contribuiu para o desenvolvimento do conceito de nação. É um elemento fundamental da identidade de Cuba", diz Barnet.

Reproduzida pelo povo, começou a ser praticada nos bairros e comunidades. "É um folclore não congelado no tempo. São incorporadas contribuições e modos de fazer, e isso se mantém vivo", explica De la Hoz.

Depois irradia para o mundo todo: na salsa, no espetáculo de cabaré, nos bailes de salão.

"É música e dança que fusionam os legados africanos, espanhóis e de outras zonas do Caribe na música cubana. Tem da África os tambores, entonações, mas tem muito da Espanha. Ou por acaso na rumba não há pegadas do flamenco?", questiona.

Agora há rumba em Nova York, em Paris, no México, no cinema mas também nos solares. "Há rumba nos grandes gêneros sinfônicos mas segue havendo rumba no bairro, onde nunca vai deixar de existir", acrescenta.

- Reivindicação da África -Para De la Hoz, a rumba "reivindica o legado de um continente que veio a se reconhecer como tal em Cuba. A África era muito dispersa antes dos processos da colonização".

Após sua chegada a Cuba ou ao Brasil, "os africanos tomaram consciência de ser parte de um continente, de uma cultura maior, e ela se devolve através destes cantos e danças", explica.

E em Cuba foi levada até a profissionalização, diz o mestre Isaías Rojas, do Instituto Superior de Arte. "Está comprovado que a rumba tem um sabor único e por isso transcendeu. Vimos dançarinos de rumba fenomenais nos Estados Unidos e leste europeu, inclusive", afirma. Mas a raiz está no Caribe.

"A rumba está na vida cotidiana do homem, quando vai à mercearia, ao açougue. Desde que você caminha, seu corpo está conversando e dançando rumba", conclui.

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