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Peça transforma drama da fronteira EUA-México em comédia

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Cena da peça "Bordertown", que aborda a questão dos imigrantes ilegais Imagem: AFP Photo

De Los Angeles (EUA)

22/06/2018 18h49

O deserto de Sonora, no Estado do Arizona, é uma das áreas mais porosas da extensa fronteira entre os Estados Unidos e o México e origem de muitas histórias trágicas.

Mas Richard Montoya e seus colegas da companhia de teatro, Culture Clash, encontraram ali algo de comédia. Essa dicotomia se refletiu em sua peça "Bordertown", que estreou pela primeira vez há 20 anos e voltou com tanto impacto quanto na época, em meio às ações do presidente Donald Trump contra a imigração ilegal.

"O deserto pode mudar radicalmente coisas que são muito dolorosas para coisas carregadas de humor", disse Montoya à agência France Press. "É uma comédia dramática."

Montoya, que criou a obra com Ric Salinas e Herbert Sigüenza, descreve o trabalho como um documentário, um "docuteatro", ou "teatro jornalístico", pois a apresentação é inspirada em entrevistas com diversos atores do lado americano da fronteira do Arizona: desde o paramilitar anti-imigrantes até a mulher deportada que quer se reunir com seu filho americano.

A imigração sempre foi um tema que divide e polariza os Estados Unidos, mas a chegada de Trump ao poder com a promessa de deportar milhões de imigrantes reavivou o tema.

Sua política de "tolerância zero" levou à separação de mais de 2.000 crianças de seus pais e gerou tantas críticas que o presidente teve que voltar atrás com a medida.

Em meio à polêmica, a televisão pública PBS transmitirá no outono (no Hemisfério Norte) esta peça e vários outros documentários inspirados no tema.

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Imagem da peça "Bordertown" Imagem: AFP Photo

"Molhados"?

Cerca de cem entrevistas foram feitas para a primeira edição, de 1998, e outras 20 para que esta se apresentasse em Pasadena, cidade vizinha a Los Angeles, até domingo, e que deve continuar em outras cidades dos Estados Unidos.

O que mudou?

"Gostaria de dizer que muita coisa mudou, mas era bastante intenso há 20 anos, com "minutemen" (milícias anti-imigrantes) na fronteira, especialmente em San Diego", onde nasceu Montoya, filho de ativistas da organização de trabalhadores agrícolas UFW.

"O americano médio está muito desinformado" sobre a questão. "Espero que estejam ouvindo", continuou.

O palco da peça é composto por muros similares aos já existentes na fronteira com o México e com algo da barreira "impenetrável" prometida por Trump.

O primeiro ato, apesar de contar com diálogos com muito humor, é aterrador.

Dois homens, Montoya e Salinas, são encurralados por um miliciano, Sigüenza, que aponta um fuzil para eles e os chama de "molhados", termo pejorativo para se referir ao imigrante em situação ilegal. Algo semelhante aconteceu com o grupo durante o trabalho de campo.

"Nos confundiam, nos pediam o passaporte", narrou. "Uma necessidade de provarmos o quão americanos éramos."

"Histórias humanas"

Joshua Bennett produziu dois documentários que também serão transmitidos pela PBS, um deles focado nos "comandos", um centro médico de resgate em El Salvador que resiste ao reino de horror vivido pelos milhares de confrontos das gangues MS13 e Barrio 18.

A história se centra no assassinato a tiros de um de seus voluntários, que ainda não tinha completado 15 anos.

Estima-se que meio milhão de salvadorenhos, em um país de pouco mais de seis milhões de habitantes, sejam membros de gangues, ou tenham ligações com o crime organizado.

Somente em 2016, 540 pessoas foram assassinadas neste país como parte da guerra de gangues que desatou o deslocamento para os Estados Unidos.

"Contar histórias humanas é sumariamente importante nesse momento", disse Bennett. "Fornecem um contexto que é essencial."

Em outro documentário, codirigido por Juliana Schatz-Preston e intitulado "Towards the North", conta a história de um pequeno refúgio em Tapachula, no México, onde uma mulher e sua filha tentam cruzar a fronteira fugindo da violência das gangues em Honduras.

A PBS também transmitirá um documentário sobre uma família fugindo de Aleppo, na Síria, para Berlim, e outro sobre três beneficiários do programa Daca, que protege da deportação imigrantes levados aos Estados Unidos quando crianças.

"The Unafraid", que encerrou o Festival de Cinema de Direitos Humanos de Nova York, acompanha a vida de jovens no estado da Geórgia que enfrentam a proibição de estudar nas melhores universidades e receber benefícios de matrícula nas instituições públicas.

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